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Transporte Sentimental



Sábado, 31.10.15

«as rosas de granada» de daniel de sá

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Daniel de Sá (1944-2013) sempre sentiu um enorme fascínio pela cidade de Granada e daí o nome que inventou em 31-3-2011 para assinar os seus poemas como se fosse um poeta árabe dessa cidade – Ahmed Ben Kassin. A dedicatória («Para ti, Calie») parece expressar o anagrama de Alice, tal como Carlos de Oliveira transformou Ângela em Gelnaa. Tudo neste livro de 43 páginas forma um duplo registo no qual as batalhas, as prisões, as mortes e os amores dos protagonistas são um reflexo discreto da vida verdadeira do poeta – com os seus problemas, obstáculos e dificuldades quotidianas. De modo hábil e feliz, Daniel de Sá ergue a voz do seu poeta de Granada e proclama em cada poema o inventário de um percurso. Nesse caminho cabe o amor. Umas vezes o amor da mulher amada («A visão da minha amada é a minha alegria») outras vezes o amor dos filhos prisioneiros («Se eu tivesse o mundo, trocá-lo-ia pelos meus filhos») ou ainda o amor na brevidade do tempo: «A minha amada / faz-me a vida mais curta. / Junto dela / todo o tempo é breve.» A vida em Granada tem um calendário próprio: «O camponês deseja o Verão / para colher os frutos do seu trabalho. / Mas o guerreiro teme-o / porque é o tempo de matar e de morrer.» O título do livro vem do poema «As rosas de Granada» como prenúncio de um exílio na página 36 («Quantas vezes hei-de chorar-te, Granada?») que a página 40 acentua: «Oh, como estou longe agora da minha amada! / Não posso ver a luz dos seus olhos / nem sentir a maciez do seu corpo. / O orvalho nas rosas são lágrimas.» Na sombra deste livro existe a verdadeira guerra entre El Zagal e Boabdil depois de o segundo ter roubado o trono a seu pai (Muley Assam) mas com a vitória final de Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Boabdil partiu para o exílio de Marrocos depois de chorar Granada e a morte da sua amada Morayama. Tudo isto aconteceu em 1485 mas a poesia faz uma aproximação, ligando de novo tudo o que o Tempo separou. (Editora: Ver Açor Lda, Design gráfico: Helder Segadães) --

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por José do Carmo Francisco às 19:46

Sexta-feira, 30.10.15

as «gralhas» nos livros e nos jornais com um recado para ernesto rodrigues

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Começo este texto com uma declaração de interesses: acabo de emendar duas gralhas num livro meu e outras duas no Blog «transporte sentimental». No primeiro caso emendei «Ssocial» para Social e «miss» para mais. No segundo caso troquei «Arnado» por Arnaldo e «miai» por mais. Não castigo ninguém (nem a mim próprio) quando assinalo o que me parece ser «gralha». Autores consagrados como José Saramago também dão guarida às «gralhas». Basta ver em «Levantado do Chão» a citação de Almeida Garrett tem «infância» por infâmia e a «Viagem a Portugal» refere uma igreja em Santarém como sendo de «Alpalhão» quando é bem de «Alporão». O meu caríssimo Ernesto Rodrigues no seu livro «Verso e Prosa de Novecentos» na página 402 refere o livro de Urbano Tavares Rodrigues como «Limitação da Felicidade» em vez de «Imitação da Felicidade». Leio hoje no «Diário de Notícias» que o realizador do filme «Pátio das Cantigas» se chama Fernando em vez de Francisco Ribeiro (Ribeirinho). Na última página do mesmo jornal a propósito do jovem guarda-redes italiano que tirou o lugar ao espanhol Diego Lopez e deste se diz que «jogou quase jogos» quando se queria referir o número de jogos (50 talvez) mas a palavra faltou. Ernesto Rodrigues escreveu-me uma carta, coisa rara neste tempo. Cada ponto dava uma página mas vamos ao engraçado: os jornalistas do futebol costumam escrever «golo obtido nos descontos» quando o árbitro acrescenta o tempo de jogo. Não há descontos, há compensação por causa das lesões e das substituições. No futebol de salão e outros desportos de pavilhão, aí sim, há descontos de tempo mas não no futebol de onze. Mas também não existe «Academia de Alcochete» que fica a 12 quilómetros de Barroca de Alva e a esta localidade dá apenas código postal, além de Bombeiros e GNR nos dias de jogo. Os dicionários onde tiro as minhas dúvidas são os de José Pedro Machado e o Moraes. Neste vejo «cacha» como «metade de um fruto» ou «porção de qualquer coisa». E «snob» com itálico está no «Dicionário de Estrangeirismos» do referido mestre José Pedro Machado. Fico por aqui. Um abraço forte ao Ernesto. --

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por José do Carmo Francisco às 19:29

Sexta-feira, 30.10.15

«é de noite que me invento» de luís filipe maçarico

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Com «É de noite que me invento» Luís Filipe Maçarico (n.1952) assina o seu vigésimo título de poesia, vinte e quatro anos depois da estreia com «Da água e do vento» (1991). Não por acaso este original de 40 páginas foi apresentado ao público na Casa do Alentejo em Lisboa no dia 29-10-2015. O autor nasceu em Évora no dia 29-10-1952. O volume integra sete poemas e não indica o depósito legal nem o ISBN. A relação entre vida e escrita é uma constante nestes poemas; o título de um deles («Notícias do meu caminho») poderia ser o título geral do conjunto. A viagem é aqui a metáfora da vida: «entraste como eu / no autocarro / dos dias iguais / e a manhã apesar de soalheira / era de faces cinzentas». No poema «Oração» o autor inscreve de novo a viagem como lugar ideal para medir a vida do poeta e de quem por ele passa: «Nas vísceras/da cidade / No suor / do autocarro / superlotado / sublimo / a raiva / duma existência / de rastos / pelos estábulos / do quotidiano». A cidade de Lisboa é aqui a paisagem povoada de um tempo que passou mas permanece; o tempo de antes do Euro, o tempo do Escudo: «Minha oração / ao lixo / do tédio / e aos hotéis do desamor / não esquecendo / os cargueiros apodrecidos / na babugem / dum rio / agonizante / e esta cidade / montra de detritos / onde no seu aventalinho / desbotado / a vendedeira / guarda / uma / a / uma / a nota de cem». O poeta, qualquer poeta, sabe que todo o poema é uma oração pois junta de novo dois mundos separados pela morte. Na oração o crente liga nas palavras o seu mundo ao mundo superior do Deus que invoca; nas palavras do poema o poeta junta de novo tudo aquilo que o tempo separou. Se por tempo entendermos o esquecimento, o vazio e a morte. O lugar-comum diz que toda a literatura é uma homenagem à literatura mas nesta nota de leitura (que é pessoal e assinada) valorizo mais a ligação entre o sangue pisado da vida e o estilo da escrita do que o inventário das artes e das letras, poema a poema: Goya, Ruy Belo, Álvaro de Campos. É nesse contexto que na minha opinião surgem os veros mais importantes do conjunto: «bendito seja / o mal / do mundo / pois é por ele / que se faz / o bem!» (Desenho: Isabel Aldinhas, Capa: GM - Oficina de Artes Gráficas, Lda., Colaboração: Ana Isabel Carvalho, Glória Silva, Sofia Fradique) --

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por José do Carmo Francisco às 09:58

Quinta-feira, 29.10.15

«os armários da noite» de alice vieira

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Alice Vieira (n.1943) é reconhecida desde 1979 como autora de literatura infanto-juvenil mas este é um livro diferente no seu caminho de escrita. Esta poesia (o seu discurso) em nada tem a ver com o trabalho de ficção para crianças e jovens. Pode dizer-se que estes 34 poemas são uma poesia de circunstância. Sem dúvida, mas afinal toda a poesia nasce de uma circunstância. E oscila sempre entre a canção e a reflexão. Como o poema «Ericeira», escrito na sombra de duas figuras – José Hermano Saraiva e José Cardoso Pires. Vejamos um excerto: «sabíamos as horas pelo uivo do farol e /havia um amigo que nos dizia que / aquela praia não tinha banhistas mas / apenas devotos e outro / encharcava-se em whisky e escrevia / romances de anjos que às vezes / vinham de avião e caíam nas rochas / para nos salvar» Ou o poema inicial do livro sobre as palavras, seu destino e sua força: «e depois as palavras / morrem à toa / sem flores sem cânticos / sem missa do sétimo dia / e ninguém sabe para que serviram / se mataram quem não deviam / ou se ficaram entre / os intervalos do sono» Ou também o poema do amor perdido: «esperar que voltes é tão inútil como o /sorriso escancarado dos mortos na / necrologia dos jornais / e no entanto de cada vez que / a noite se rasga em barulhos no elevador e / um telefone se debruça de um sexto andar / sinto que ainda aficou uma palavra minha / esquecida na tua boca / e que vais voltar /para/a /devolver» Na viagem da vida («aprendi nas pequenas gares de província / a esperar comboios que não chegavam nunca») o passado vem de uma rejeição («não a quero») que o poema não esquece («todos aqueles que um dia decidiram / entregar-me ao vento cruel das / madrugadas de março») mas há nele uma janela para o futuro: «Mercúrio acompanha a / entrada do ano / indiferente / diurno e / masculino / por isso não se perca tempo com quem / não merece» Editora: Caminho, Capa: Heduardo Kiesse) --

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por José do Carmo Francisco às 11:15

Quarta-feira, 28.10.15

«minima azorica» de onésimo teotónio almeida

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Antes da nota de leitura, gostaria de contar uma pequena história sobre «mínimos». Em 1980 houve os Jogos Olímpicos de Moscovo. Num «cartoon» Álvaro Cunhal desce as escadas de um avião soviético e é interpelado por um membro da nomenklatura: «Camarada, fizeste os mínimos?». A sua resposta é: «Mínimos? Nós em Portugal, camarada, fazemos sempre os máximos!». Adiante. O título e o subtítulo deste livro de Onésimo Teotónio Almeida (n.1946) são um achado de ironia de Theodor Adorno a João de Melo – entre o título latino e o subtítulo português. O primeiro lembra a gratidão e a lealdade enquanto o segundo desenha os Açores numa frase curta: «A terra é pouca e o mar infinito». Os textos aqui reunidos foram escritos entre 1994 e 2014 e os autores feitos tema destas comunicações, prefácios, artigos e outras participações em livros colectivos «estão todos mortos, todavia são ainda-vivos. Fazem parte do cânone literário e do imaginário açórico.» O ponto de partida deste volume de 230 páginas (nada mínimo!) é um facto: «Os Açores viveram entre os meados da década de 80 do século passado e o início do presente milénio, o mais dinâmico período da sua história cultural.» O autor parte do chão dos Açores para o espaço universal: «senti-me micaelense quando fui para a Terceira mas senti-me açoriano no Continente e na Espanha senti-me português. Mais tarde, na América senti-me europeu e na China senti-me ocidental.» Há uma frase de Vitorino Nemésio em 1932 (famosa, sintética e incisiva) que marca uma época: «Para nós a geografia vale outro tanto como a história!» e o autor deste livro começa com uma adversativa a «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio (a cidade da Horta) mas sabendo que o resto de Nemésio é rural. E prossegue: «Dias de Melo é Pico e muito mar. Martins Garcia é também Pico no seu melhor. Alguma Horta e Lisboa no romance «A fome». Álamo Oliveira será talvez o mais urbano com o seu «Pátio de Alfândega» e alguns contos. João de Melo é Achadinha, um mundo remoto bem longe da cidade. Em «Gente feliz com lágrimas» Lisboa entra e está toda em «Um homem suspenso». Fernando Aires é citadino. Cristóvão de Aguiar é todo freguesia no seu (e meu) Pico da Pedra. Vasco Pereira da Costa é angrense em muitos contos e coimbrão no romance. Daniel de Sá é freguesia, a Maia, a uma hora da Ribeira Grande.» Concluindo se refere o nome dos autores aqui revisitados, entre outros temas mais gerais: Vitorino Nemésio, Arruda Furtado, Antero de Quental, Pedro da Silveira, José Enes, Dias de Melo, José Martins Garcia, Fernando Aires e Daniel de Sá. Curiosa a ligação de Tostoi a Antero; em 15-3-1889 anotou: «Levantei-me cedo outra vez, trabalhei imenso. Li Quental. Bom.»Por fim uma história passada com Emanuel Félix em Paris. Ao dialogar com um patrício a viver em Paris já há muitos anos, o poeta angrense pergunta-lhe por dificuldades em não se perder na confusão da cidade. A resposta é lapidar: «Eu antes de vir aqui para Paris andei no mar muitos anos. O mar é muito grande, não tem letreiro nenhum e eu nunca me perdi!» (Editora: Companhia das Ilhas, Capa: Jorge Aguiar Oliveira, Revisão e Índice: Vasco Medeiros Rosa) --

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por José do Carmo Francisco às 11:11

Terça-feira, 27.10.15

carlos alberto machado, hélia correia, jaime rocha, josé mário silva, margarida vale de gato e miguel-manso

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Este livro integra um poema de Ruy Belo («O Portugal futuro») sobre o qual, em Setembro de 2012, um grupo de poetas trabalhou novos poemas, numa residência literária organizada pelo Biblioteca Municipal José Baptista Martins na Foz do Cobrão. Margarida Vale de Gato, no seu poema, escreve: «Era ontem um peixe sufocado o meu país / hoje súbito tanta gente buscando brilho de água / que se move.» José Mário Silva, por seu lado, afirma: «A grande corola das possibilidades / só se encolhe quando ficamos quietos.» Entretanto Jaime Rocha proclama: «E eu amo as casas e as árvores como o poeta as amou / dentro das palavras / porque elas não morrem nunca / são levadas pelos pássaros para reconstruir um país novo.» O resultado final assinado por estes três poetas em 15-9-2012 é «Poema ingénuo comprometido»: «O que é um país à procura de futuro? / Coitado de um país que procura um futuro / e só encontra muros e cinza. /Um país sem luz, sem geografia / com uma mágoa metida no tronco. / Um país doente que rói os ossos / e bebe água por um tubo pequeno. /Um país invadido por um deserto / sem palavras, um país final. / O que é um país à procura de futuro? / Um país que se levanta inteiro / numa tarde quente.» Miguel-Manso assina «A falha do Tejo» na página 34: «abriram um centímetro cada / mil anos estas portas / o rio mudou sete vezes de plano, escavou / a profundeza onde já não cai / há milénios / de antiguidade ainda mais absurda / a rocha esbanjou cinco mil metros de tamanho, erodiu / tornou este coração fendido e pardo / onde nidificam os grifos.» Carlos Alberto Machado mistura no seu poema a paisagem e o povoamento: «a voz erguida do poeta retorna clareada / e as palavras tangem a superfície das águas / do rio que deixou de saber como chegar ao seu destino / rio interrompido / interrompida vida dos mortos que a vida tem / falhas que não respondem à ferida que as faz / às portas de ródão os grifos / vigilantes.» Por fim Hélia Correia celebra num poema («Mãe Cargaleiro») toda a maternidade a partir da imagem da mãe do pintor: «Não ama / nem os festejos / nem as invernias, / ama somente o filho e tudo aquilo / que lhe pode ensinar, / isto é lançar a praga / e a tesoura / e uma espécie de método que leva / a que tudo se ajuste e se detenha / na vertical.» Ruy Belo também podia ter o seu nome na capa deste livro porque um seu poema está na página 17 e porque passava férias de infância na Aldeia da Mata, do outro lado do Tejo. A geografia é mais importante do que a História – já dizia Vitorino Nemésio. (Editora: Companhia das Ilhas, Capa: Orlando José Martins Ruivo) --

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por José do Carmo Francisco às 09:49

Segunda-feira, 26.10.15

«eterno agora» de padre antónio rego

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Com o subtítulo de «Conversas com o Deus de sempre», o Padre António Rego (n.1941) juntou neste livro 239 poemas que são o resultado de sete anos de orações lidas aos microfones da Rádio Renascença. Além dos poemas, o autor assina um prólogo e um epílogo, cabendo o prefácio a D. Manuel Clemente e a apresentação na contracapa interior a Roberto Carneiro. António Rego revela uma certa humildade no uso da palavra «conversas» para definir estes poemas que, na nossa leitura, surgem numa dupla linha ancestral. Por um lado «lemos» Michel Quoist e o seu livro «Poemas para rezar» (Morais Editora) com tradução de Lucas Moreira Neves e versão final de Pedro Tamen que escreveu: «A palavra, Senhor, é uma graça. / Tomei a palavra, Senhor, e estou inquieto». Por outro lado «lemos» Adélia Prado que numa entrevista recente afirmou a um jornal brasileiro: «Mística e Poesia são braços do mesmo rio. Deus deu-me a segunda mas a fonte é a mesma, o Espírito Divino.» Este livro está dividido em dois grandes grupos; 190 poemas acompanham os vários ciclos do calendário litúrgico: Advento (21), Natal (16), Epifania (6), Quaresma (43), Tríduo Pascal (3), Páscoa (24), Ascenção (10), Pentecostes (12), Santíssima Trindade (13) e Tempo Comum (42). Os outros 49 poemas integram o capítulo «Calendário» de Janeiro a Dezembro. A capa mostra o ramo de amendoeira por cima («espírito de sabedoria, inteligência e fortaleza») e a água por baixo; a água valiosa («A água vale mais que todo o petróleo do mundo») e também indispensável: «Ajuda-nos a sempre procurar / o oceano de misericórdia / que nos lava e reconcilia». Se tudo fosse levado à letra, a Terra ficaria deserta porque todos somos pecadores: «todos precisamos de Ti / Para que nos recebas / nos reconcilies e nos restituas a alegria / que anda perdida pelos escombros humanos / nas empresas, nos tribunais, nas famílias / nas prisões, nos antros da periferia / nos restos da cidade…» Mas a terra que ficaria deserta é a mesma onde o Natal tudo renova: «Deslumbra-me o teu presépio / Esconde mais do que revela / Mas é nessa névoa de humano / que vislumbro o divino.» Conclusão provisória: todo o poema, tal como toda a oração, procura ligar de novo dois mundos separados pela noite, pela distância e pelo esquecimento. Não é por acaso que muitos poetas consideram a «Salve Rainha» um dos grandes poemas de todos os tempos. (Editora: Oficina do Livro, Prefácio: Manuel Clemente, Capa: Maria Manuel Lacerda, Revisão: Sofia Gonçalves, Texto contracapa: Roberto Carneiro) --

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por José do Carmo Francisco às 18:57

Domingo, 25.10.15

mudou a hora do relógio mas não muda a hora do coração

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Estou a preparar-me em espírito para o almoço anual da minha Escola de Vila Franca de Xira, com alunos e professores. No meu caso estive lá entre 1961 e 1966, entre os dez e os quinze anos de idade, tive aulas nos Combatentes e no Matadouro, trabalhos manuais num pavilhão que depois foi abaixo junto ao futuro (já passado) Palácio da Justiça. Na Escola entrava-se pelas traseiras (a rapaziada, claro) e muitas vezes havia jogos intermináveis de futebol no CASI. As balizas eram as malas com os livros e os cadernos. Hoje está um dia cinzento como eram afinal todos os dias desse tempo português. Levo no olhar uma fotografia tirada no jardim junto ao Rio Tejo. O ano passado encontrei no almoço o Arnaldo e o «Paplicas» mas a Marieta não foi. Não vale a pena esperar muito das pessoas, das coisas e dos acontecimentos para não termos grandes decepções. Faço os possíveis por continuar a ser o miúdo do Bom Retiro que descia à Bica do Chinelo e passava a ponte da ribeira de Santa Sofia. Logo a seguir no largo do Serrado (hoje Carlos Pato) recebia o cheiro do azeite do lagar do senhor Floriano. A sua neta Clara vinha de Santa Sofia e não gostava que lhe chamassem patinha. O seu neto Álvaro era meu colega de turma tal como Lilaia, o Vidaúl e miai tarde o Arnado. Mas isso foi em 1966 que é a data da fotografia. Quanto ao facto de ela ser a preto e branco não restam dúvidas: a vida não é a cores e as fotografias também não. Tenho para mim que continuamos todos lá, nessa fotografia em frente ao Rio Tejo e ao lado dos barcos da areia como o Gil Conde. Esse nome permanece, tudo permanece, a fotografia continua a valer por todo um tempo de emoções que ficou para sempre no coração de todos nós. --

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por José do Carmo Francisco às 09:41

Sábado, 24.10.15

bruno vieira amaral venceu prémio saramago; livro foi referido na «gazeta das caldas» em 25-7-14

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A literatura é o estilo da escrita mais o sangue pisado da vida. Se é só estilo fica-se pelo exercício; se é só sangue pisado fica-se pelo testemunho. Bruno Vieira Amaral (n.1978) tem o segredo feliz da mistura que resulta. O ponto de partida é o Bairro Amélia e a sua paisagem («candeeiros de globos partidos, balizas ferrugentas, paredes encardidas, bancos lascados») mas a paisagem não existe por si. É povoada por gente: no «bairro dos retornados» vive um «exército de derrotados». O protagonista descobre um livro com poemas de Pablo Neruda num caixote do lixo e percebe: «encontrar consolo na arte é um razoável substituto da religião». O seu regresso ao Bairro de onde saiu é impossível: «Os meus amigos já lá não estavam, as pessoas que eu amara tinham morrido, a idade não me permitia visitar aos lugares queridos sem sentir que o meu corpo era demasiado grande para o tamanho desses espaços na memória, que eu era demasiado novo para o conforto da nostalgia». O Bairro Amélia é o pretexto para a viagem no tempo e na memória. Também no amor: «Os amores de infância duram para sempre, como múmias. São mausoléus erigidos à própria ideia de amor. Cuidamos deles como da campa de um ente querido». Ou então na luz da realidade: «Ao contrário das fotografias, a realidade tem pouca luz». O que mais impressiona nesta escrita sobre uma cartografia particular é a sua segurança. Bastam dois exemplos. Na página 92 um texto sobre a Mãe: «Os filhos são os parasitas da mãe. Comem-lhe o coração que cresce da noite para o dia para que nunca lhes falte o pão-coração. O que é que a mãe quer? A mãe não quer nada. Quem tem mãe, tem tudo, diz a quadra, e quem é tudo não precisa de nada». Na página 117 um texto sobre a morte: «O bailado de Ernesto, o seu lábio descaído, as suas rotinas, o chocalhar dos trocos na bolsa, a casa onde não tinha ninguém à espera, a sua tristeza imponderável, os pensamentos íntimos, a sua felicidade secreta, a morte rápida sem demasiado sofrimento, a perfeição». Uma confusa distribuição de itálicos, deixando de fora palavras como palyboy, collants ou old spice e marcas como Pingo Doce, Ovolmatine ou Teobar, a referência a Sarilhos por Sarilhos Pequenos ou Sarilhos Grandes (71), a troca de letras em Loanda e Luanda (194-196), o tabaco SG Ventil ou só Ventil (162-163) ou a troca de Alto por Baixo Alentejo (249) são pequenas discrepâncias que em nada alteram a cotação deste primeiro romance: muito bom. (Editora: Quetzal, Capa: Rui Rodrigues) --

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por José do Carmo Francisco às 09:23

Sexta-feira, 23.10.15

«60 seconds to what?» ou saudação no aniversário de jose galamba de oliveira

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No ano de 1965 Sérgio Leone realizou «Por mais alguns dólares» na sequência do belíssimo «Por um punhado de dólares». A música do primeiro foi por mim ouvida ontem à noite e não mais saiu do meu espírito. A introdução do órgão de tubos na música dum filme do Oeste foi uma novidade mas hoje em 2015 o que conta é a permanência da beleza desta melodia. A solenidade no órgão sai do filme entre sol e pó, entre comboios e cavalos com sede. E entra no meu texto que te recorda em 1972 na Calçada do Combro com aquela capa, parecida com as capas dos cavaleiros do Oeste, a caminho da Rua do Ouro. Quando recordavas a guerra em Angola tu falavas do forno que construíste com a memória dos fornos da Abadia onde as mulheres coziam ao sábado o pão de toda a semana. Mas havia também momentos de humor quando escondemos os sapatos do senhor Roque no caixote do lixo do Silva Martins. O pânico surgiu quando uma chamada convocava o senhor Roque para ir ao Dr. Câmara Pestana. Era rebate falso mas o susto foi verdadeiro enquanto o Silva Martins não descobriu os sapatos ao lado dos papéis rasgados. Hoje penso no tempo que são 70 anos, afinal quase tanto com a distância entre o meu avô de Santa Catarina (1906) e o meu neto mais velho (2006). Os netos são o passado no futuro, as vidas a haver pelas vidas que se perderam. O que mais custa é a morte de quem nos deu a vida mas, não havendo solução, há, pelo menos, uma resposta. A vida dos netos responde à morte das mães. É essa a chave para apaziguar um pouco a dor de quem perdeu uma luz no seu caminho. E a estrada continua. O homem é o único animal que nasce e tem consciência de que é mortal. Toda a nossa vida é condicionada por esta verdade. Perante o frágil da vida e o inevitável da morte, só o amor nos pode salvar. Todas as manhãs há menos uma na Terra mas, quando o amor se prolonga, o dia valerá a pena. A música continua a cumprir o seu papel; cabe a todos nós não a deixar perder-se no silêncio e no vazio. --

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por José do Carmo Francisco às 18:13

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