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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 30.09.15

«felicidade na austrália» de liberto cruz

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Liberto Cruz (n. 1935), preside à direcção da Associação Portuguesa dos Críticos Literários, foi professor em França (Rennes, Nantes, Vincennes), fundou a Revista Sibila e é autor de diversos trabalhos e estudos sobre Ruben A., Júlio Dinis, António José da Silva, José Cardoso Pires, Blaise Cendrars e Marquês de Sade. Estreia-se na ficção em 2014 depois de ter visto a sua «Poesia Reunida» (1956-2011) publicada pela Editora Palimage. O título deste livro com 14 contos vem de um poema de Álvaro de Campos mas pode ser a resposta a um título de Camilo Castelo Branco: «Onde está a felicidade?». Todos o sabemos: a felicidade não existe. Existem sim na nossa vida alguns momentos felizes. Vale a pena procurá-los para que a nossa existência não seja apenas «um nome/duas datas/um retrato» como escreveu o poeta Victor Matos e Sá. Estas 14 histórias visitam um certo tempo português cinzento e mesquinho quando Salazar dizia «Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma!». Um dos protagonistas até afirma: «Deus não tem satisfações a dar a ninguém. É assim uma espécie de Salazar em ponto grande e quem não está com ele um dia lixa-se.» No conto «O eléctrico» explica-se bem esse sentimento português do sonho adiado, da velha aspiração bairrista nunca concretizada. Neste caso os deste lado de Sintra (Estefânia, Chão de Meninos, Fetal, Alto de São Pedro, Arrabalde e Vila) aspiram a ter um eléctrico como os do outro lado tinham até ao Banzão e à Praia das Maçãs. Mas aqui o eléctrico só aparecia nas brincadeiras do Carnaval com uma carrinha transformada e dois foliões fardados de cobrador e de motorista. As 14 histórias são exemplares pois embora pertencendo à geografia de São Pedro (Sintra) a sua moral é nacional e não local. O pequeno mundo é um espelho do grande mundo. Seja nos lances inesperados («Um tio do senhor Ezequiel morreu na América e deixou-lhe uma grande fortuna») seja nas mais incríveis histórias: «O filho do Tomé tinha sido condenado a dois anos de cadeia por ter enganado uma rapariga e não querer casar com ela». Há também muita ironia à solta nestas histórias onde é possível brincar com expressões como «Angola é nossa» ou «A bem da Nação». Em «Os falsos Pides», o tipógrafo Nunes, leitor do «Avante!», perdeu os dentes de cima na PIDE mas depois do «25 de Abril» o Crispim e o Deodato (os falsos pides) foram presos pela PM e devolvidos à origem. Dias depois do regresso quatro desconhecidos partiram-lhe os dentes e nunca foram descobertos - «A bem da Nação». (Editora: Estampa, Capa: Helder Alves, Foto: Raúl Cruz) --

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por José do Carmo Francisco às 11:56

Terça-feira, 29.09.15

o beira-mar, os belenenses e outras questões sentimentais

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Vi na Internet um filme sobre a desolação que se vive em Aveiro pelo Beira-Mar. De repente um clube que era um histórico da I Divisão nacional aparece na II Divisão distrital. Quase ao mesmo tempo foi festejado o aniversário de OS Belenenses que foi fundado em 1919, completou pois 96 anos quase um século. O guarda-redes de 1919 chamava-se Mário Duarte e pode ter começado neste facto uma ligação até hoje sempre forte entre os dois clubes e as respectivas massas associativas. O guarda-redes José Pereira foi mais tarde do Restelo para Aveiro. Conheço pessoas de Aveiro que são simpatizantes de Os Belenenses e não são poucas. Há um café em Angra do Heroísmo comas paredes cheias de fotografias de equipas dos azuis do Restelo. Eu próprio tenho um poema dedicado ao Pepe e outro ao campeonato que o clube da Cruz de Cristo venceu ganhando o último jogo em Elvas na época de 1945/46 mas o jornal A BOLA não teve direito a enviado-especial. Foi o correspondente local que fez a reportagem. Outros tempos, outras medidas financeiras, outras atitudes dos administradores. Também quase ao mesmo tempo aconteceu o casamento da minha sobrinha, a única sobrinha. O meu filho está em Portugal mas as duas filhas tiveram que emigrar e vivem fora mas vieram ao casamento da prima, a única prima rapariga, os outros primos são três rapazes. Se um clube é mais do que jogadores e camisolas, um casamento também é muito mais do que a cerimónia e o copo de água, a igreja e o restaurante. É tudo uma questão sentimental. Almocei com gente para quem este assunto não é em nada menor. A tristeza das pessoas do Beira-Mar, a alegria das pessoas de Os Belenenses, o colégio onde vou buscar o meu neto onde algumas monitoras são do tempo dos meus filhos. Os ganhos e perdas da vida, a alegria e a tristeza. Tudo. --

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por José do Carmo Francisco às 11:29

Segunda-feira, 28.09.15

«benfica através dos tempos» padre álvaro proença

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O padre Álvaro Proença (1912-1983) é autor, além deste livro, dos seguintes volumes: «Subsídios para a História do Concelho de Loures» (1940) e «Como o Povo reza» (1941). O facto de ter sido pároco na igreja de Benfica entre 1955 e 1983 fez com que a sua passagem pela paróquia tivesse marcado de modo profundo a vida da Comunidade: criou o Salão de Festas, o Centro Paroquial, o Centro Social, o Jardim Infantil, o Refeitório e o Boletim. Cinquenta anos depois da primeira edição, este livro lê-se com agrado no conjunto das 519 páginas a que o seu autor chama «pequeno estudo»: «Vamos centrar o nosso estudo na própria igreja paroquial, lugar primeiro numa freguesia. Baptizados nela, ali vinham fazer a sua primeira confissão e comunhão, ali casavam e a ela ficavam ligados por múltiplos laços de fé, oração e missa dominical os que, mais tarde, nela ou à sua volta vinham a ser sepultados.» Existe um documento oficial, o testamento de Silvestre Esteves em 1263, no qual o nome de Benfica aparece escrito e sobre este nome muitas lendas se levantam mas Brito Aranha no livro «Arquivo Pitoresco» apresenta razões: «A uma légua de Lisboa, e como escondido mais adiante do contacto de povoações, se nos apresenta um valesinho que, por frescura de fontes, alegria de árvores e amenidade de terreno, mereceu, naturalmente o nome de Benfica.» O ponto de partida do livro é a memória: «Velha freguesia de saloios, cultivadores dedicados da terra e de lavadeiras concorrentes das de Caneças, lugar de veraneio delicioso e de convívio ameno entre gente rica que para estas bandas tinha as suas quintas e palácios, Benfica foi um dos mais deliciosos e poéticos lugares do Termo de Lisboa». Mas o texto não se fixa na paróquia pois abrange também as feiras, as tascas e a boémia: «Não faltavam as feiras, festas e romarias quer aqui quer nos arredores. Desde Carnaxide, passando por Benfica até ao Lumiar, durante o ano era uma roda-viva. Tascas afamadas eram o Caliça, o Bacalhau, o Charquinho e o Ferro de Engomar. Às quintas-feiras vinham os boémios ver passar o gado bravo que vinha das bandas de Alfornel e seguia pela Estrada em direcção ao matadouro; havia guitarradas e fados até à meia-noite.»

Curiosa a presença de Cláudio José Nunes: era no tempo de Cesário Verde um poeta muito conhecido mas que ficou na História apenas como Secretário da Mesa da Irmandade de Benfica em 1863 e Juiz em 1866. A mesma lista refere o homónimo do escritor António Lobo Antunes em 1953 e 1954 das duas vezes como Assistente do Juiz dessa Irmandade. (Editor: Ulmeiro, Capa: Jorge Machado-Dias, Fotos: Carlos de Oliveira, Apoio: Junta de Freguesia de Benfica) --

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por José do Carmo Francisco às 21:16

Domingo, 27.09.15

«o livro da cegonha» de vergílio alberto vieira

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«O livro da cegonha» de Vergílio Alberto Vieira Vergílio Alberto Vieira (n.1950) tem, desde 1980, uma actividade regular como poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, tradutor, cronista e autor de livros para a juventude e a infância. Este «O livro da cegonha» integra a trilogia «Castelos da Lua» (poesia, narrativa, teatro) com «Os saltimbancos de Dadim» e «A noz que não se deixava quebrar». Há nestas páginas muita ternura derramada, seja na «Canção de embalar» («O menino quer dormir / tem sono, deixá-lo ter / que a lua não tarda a vir / ajudá-lo a adormecer») seja na «Canção para deitar o menino»: «Já é hora de dormir / vem a noite, foge o dia / que o soninho há-de vir / precisa de companhia». Matilde Rosa Araújo é homenageada no poema «A abóbora-menina»: «Apesar de ter crescido / aos olhos do hortelão / deu o tempo por perdido / virando costas ao Verão. / Assim, para se manter, / menina pela vida fora / preferiu voltar a ser / o que sempre fora outrora». Apesar de ser um livro com muito amor, quase particular e íntimo, dedicado ao neto mais novo do autor e ilustrado pelo neto mais velho, a marca da Poesia está sempre presente como em «O comboio de corda»: «Ainda a tempo de cumprir / a hora, é claro, prevista / não pára de repetir / que a viagem é a fingir / sobre as travessas da pista. /À janelinha tremida, / das vermelhas carruagens, / vão passageiros à vida / na aventura divertida / de ver passar as paisagens. / Para trás ficam estações, / que o fumo negro apaga, / do mapa das sensações / à passagem dos vagões / p´lo trovão que se propaga. / Tenha, pois, o maquinista / atenção não vá perder / então, a linha de vista / desistindo da conquista / que é saber onde irá ter.» (Editora: Crescente Branco, Desenhos: António Pedro Vieira da Silva, Capa: A mão do António) --

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por José do Carmo Francisco às 20:19

Sábado, 26.09.15

«carlos paredes» de octávio fonseca silva

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O ponto de partida deste livro de Octávio Fonseca Silva (n.1950) é uma afirmação (A «música de Paredes» não existe.) logo explicada a seguir: «Existe um homem semeado no chão do seu país. E dele nasceu . E nele ficou plantado. Num emaranhado eterno de raízes. Tanto quanto tem um coração, tanto quanto tem um cérebro, tem uma guitarra. Um órgão – tão só – como os outros órgãos. A sua música só é a sua música na medida em que o seu sangue é o seu sangue. Um mero fluido orgânico que lhe brota naturalmente das mãos como o amor pela terra e pelo povo lhe brota da alma.» Nascido em Coimbra numa família de guitarristas – Gonçalo (avô), Manuel (tio-avô) e Artur (pai) – Carlos Paredes (1925-2004) foi funcionário do Estado (1949-1960/1974-1986) e só a partir da sua reforma se dedicou a cem por cento à música mas a actividade foi interrompida em 1993 pela mielopatia que lhe prendeu os movimentos. A sua obra discográfica ocupa 23 páginas deste livro e antecede a notícia das colaborações noutras formas de Arte – Cinema, Teatro, Ballet, Poesia e TV. A importância de Fernando Alvim e de Luísa Amaro surge com o merecido relevo neste trabalho de 189 páginas onde também surgem os seus artigos de opinião (em «O Diário» e «J.L.») e o seu prefácio ao livro de José Jorge Letria «A canção como prática social». O conjunto é enriquecido pelas partituras de Paulo Soares de três criações musicais de Carlos Paredes: «Divertimento», «Movimento perpétuo» e «Acção». São aqui recuperadas quatro entrevistas concedidas por Carlos Paredes a Luís Almeida Martins, Sérgio Ferreira Borges, Maria Regina Louro e António Costa Santos. Sobre a música de Carlos Paredes escreveu José Carlos de Vasconcelos: «um misto de memória (vivida) do passado e de saudade (sonhada) do futuro». Se para Rui Vieira Nery estamos perante uma «música eminentemente portuguesa» já para António Victorino de Almeida «Carlos Paredes é uma figura popular mas não é um músico popular». Conclusão, precária embora: «Com José Afonso, com Lopes-Graça, com Giacometti, com Amália, Carlos Paredes vai ficar como referência fundamental da música popular portuguesa e, como tal, dificilmente repetível». Nota final – Este trabalho sobre a vida e a obra de Carlos Paredes revela um aspecto insólito e comum a José Afonso: ambos foram casados duas vezes mas só o nome da segunda esposa surge na biografia. Conheci Carlos Paredes através de José Gomes Ferreira, Wanda Ramos e Joaquim Pessoa e sei muito bem do seu recato em falar da vida pessoal mas este apagamento parece-me um exagero lamentável. (Editora: Mundo da Canção, Direcção editorial: Avelino Tavares, Direcção gráfica e capa: Manuel Jacinto, Partituras: Paulo Soares, Fotos: Luís Paulo Moura, Revisão: Rosa Maria Ferreira, Outras fotos: Fernando Alvim, José Niza e Revista Antena) --

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por José do Carmo Francisco às 11:20

Sexta-feira, 25.09.15

«portugal a cores nos séculos XVIII e XIX»

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O conceito da criação deste livro é juntar palavras exageradas, preconceituosas mas também verdadeiras de viajantes estrangeiros em Portugal nos séculos XVIII e XIX com imagens da vida social portuguesa do século XX, coloridas artificialmente. Como apresentação citemos a frase de 1726 do viajante Brockwell: «Podemos dizer que Portugal é um dos melhores, mais agradáveis e mais belos países do mundo mas que é habitado por uma nação que não merece tão deliciosa pátria». Outro viajante em 1809 (Bourgoing) afirma: «Os portugueses são vingativos, vis, frívolos, zombeteiros, excessivamente presunçosos, invejosos e ignorantes mas amam o seu país, são generosos na amizade, leais, sóbrios e caridosos.» Já antes, no ano de 1799, Croker tinha escrito: «Os homens portugueses descendem de uma mistura de judeus, mouros, negros e franceses e parece que reservaram para si as piores características de cada povo; pelos vistos as mulheres ganharam com estas misturas o que os homens perderam.» Sobre a beleza das gentes afirma Murphy em 1795: «As pessoas mais bonitas de ambos os sexos podem ser encontradas na Estremadura; a varíola não ataca aqui com a mesma violência do que nos climas mais frios.» Em viajantes não faltam palavras sobre as estradas: em 1829 Kinsey escreve sobre o Algarve («Em nenhum lado se encontram estradas tão más») e já em 1820 Graham tinha escrito - «As mulas e os burros são o meio de transporte habitual no país e, como seria de esperar, as suas estradas são deploráveis». Curiosa é a visão de viajante KInsey em 1829 sobre doenças: «Um dos principais meios de cura consiste na estrita observância do sistema do Caldo de Galinha, que é, invariavelmente, o remédio recomendado para todas as doenças.» Tal como a visão da Justiça em 1730 num texto anónimo: «Por todo o lado a justiça avança com extrema lentidão, quer pelos subterfúgios usados pelos advogados, no qual são excelentes, quer pela indolência ou incapacidade dos juízes.» Por fim, assinado por Albon, um diagnóstico de 1782: «Sem indústria, sem ofícios, sem agricultura, Portugal tornou-se dependente e tributários das outras nações da Europa. As minas de ouro do Brasil produzem anualmente sessenta milhões e o Estado gasta setenta pelas mercadorias que recebe do estrangeiro.» (Editora: Publicações Serrote, Texto e imagens: Nuno Neves, Revisão: Fernando Villas-Boas, Tradução: Helge Dascher) --

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por José do Carmo Francisco às 14:09

Quinta-feira, 24.09.15

«figuras do tempo e do espaço» de carlos j. f. jorge

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Embora publicado há alguns anos, só neste momento o livro chegou à nossa mesa de trabalho, o mesmo é dizer - só existe a partir de hoje para esta tarefa de registo e leitura. Com o subtítulo de «Por uma leitura literária dos textos de viagens», este volume de 307 páginas reúne textos muito diversos mas a origem comum está no seminário «A viagem na Literatura» realizado sob a orientação da Professora Maria Alzira Seixo. O presente trabalho organiza-se em cinco grandes temas: 1- Mundos: o novo e o alternativo, 2- O naufrágio: as vítimas e os Robinson, 3- As faces do viajante: o herói, o pioneiro e o pirata, 4- Do lugar perdido ao espaço desbravado e 5- Genealogias: da utopia ao fantástico. Vários são os autores e temas revisitados neste estudo: a Carta de Pêro Vaz de Caminha, A História Trágico-Marítima de Gomes de Brito, a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, temas como o Western, a Banda Desenhada, a Ficção Científica ou autores como Júlio Verne, Eça de Queirós, Philip Farmer, Mark Twain, Blasco Ibañez ou Ferreira de Castro, como autor de «Emigrantes», «A selva», «Eternidade», «A lã e a neve» e também de «A volta ao Mundo». Sobre Blasco Ibañez («La vuelta al Mundo de un Novelista») e Ferreira de Castro («A volta ao Mundo»), uma nota final: «A sociedade moderna deixou de se interessar por um objecto óbvio: o homem enquanto anthropos. O que se busca, desde que se confirmou essa unidade essencial no percurso angustiado da luta pela vida, que configura o homo economicus, é o homem diferente, que se propunha como fascínio, como homo exoticus. Ora, se o exotismo especulativo é o objecto conceptual a expulsar por Blasco e por Castro, na busca de um homem universal subsumido no gesto hiante de sobreviver, o exotismo, como conceito operatório de um valor de afirmação na diferença, regressa como objecto da antropologia.» (Editora: Ulmeiro, Capa: César Fidalgo) --

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por José do Carmo Francisco às 10:45

Quarta-feira, 23.09.15

«a noz que não se deixava quebrar» de vergílio alberto vieira

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Para além de uma produção regular como poeta, ensaísta, tradutor e ficcionista, Vergílio Alberto Vieira (n. 1950) é autor de meia centena de títulos de poesia, narrativa e teatro na área da literatura infantil e juvenil. Os seus trabalhos neste campo estão editados em Portugal, Espanha, Bulgária, Moçambique, Egipto e Brasil. Neste conto de fadas (20 páginas) que acontece no reino de Dadim, o protagonista é um rei (Wenceslau) que, depois da morte da sua rainha (Mathilde), tem o problema de arranjar noivo para a sua filha (única), a princesa Selma. Um dia, a meio de uma caçada, descobriu o rei uma noz muito especial: «tinha um estranho timbre de cristal que se libertava do interior da casca como se, subtil mão de fada o tivesse fechado dentro, desde o princípio do mundo». Depois de falar com a filha, o rei convocou rapazes de todo o reino para se apresentarem na Corte os mais «engenhosos», «audazes» e «espertos». Todos tinham pela frente uma prova que consistia em «partir uma noz que não se deixava quebrar». O vencedor foi o terceiro finalista, depois de garantir que «com a magia do seu flautim, nem precisaria de dar ordem a tão bela dádiva do Criador para que a noz se rendesse ao encanto dos dentes da princesa». Nota final: O livro é dedicado aos netos do autor (António e Manuel) sendo as ilustrações da mãe deles feitas numa altura em que «tinha a idade que eles juntos têm agora» (Editora: Crescente Branco, Desenhos: Sofia Sousa Vieira, Retrato do autor: José Rodrigues, Retrato da ilustradora: Ícaro) --

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por José do Carmo Francisco às 15:09

Terça-feira, 22.09.15

a palavra «caparro» entre rui cardoso martins e afonso praça

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O livro recente «Levante-se o réu» de Rui Cardoso Martins (Editora Tinta da China) refere na página 40 uma frase de um homem na barra do Tribunal: «Eu quando trabalhava na ponte tinha caparro!» Mas já na página 39 do mesmo livro essa palavra aparece na boca do réu: «era forte, tinha caparro». Ora essa palavra caparro não existe nos bons dicionários portugueses e só me apareceu no Dicionário Houaiss do Círculo de Leitores como sinónimo de «barrigudo». Trata-se de um dicionário brasileiro, como se sabe. Procurei, procurei tudo o que conhecia e lembrei-me do belo Dicionário do Calão de Afonso Praça (1939-2001). A Editora é a Casa das Letras. A actualização esteve a cargo de Cláudia Almeida, Pedro Dias de Almeida e Rodrigo Dias. Demorou um pouco a encontrá-lo mas valeu a pena porque na página 68 lá aparece a explicação: «caparro – robustez física». E era mesmo isso que o homem queria dizer, ele que trabalhou na Ponte Salazar onde era um dos rapazes que viam nascer o sol para os lados do Poço do Bispo. Mas, como tudo o que é humano, a construção da ponte sobre o Tejo acabou e o senhor Rogério teve que emigrar. Palavra puxa palavra e aparece-me o calão minderico na página 277 do livro do Afonso Praça. Eu que até nasci ali perto da Serra dos Candeeiros. Para «refrigerante» eles usavam «areeiro» e tem toda a lógica porque no meu tempo de criança Areeiro era a marca mais habitual em Santa Catarina e na região das Caldas da Rainha para as laranjadas, as gasosas e as águas em geral. Nas tabernas da minha terra não havia frigoríficos mas sim um poço. Era no poço que os taberneiros mergulhavam um cesto de vime aos Domingos com os refrigerantes. Quando era preciso puxavam a corda e serviam o freguês. A garrafa não vinha gelada mas fresca. --

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por José do Carmo Francisco às 11:29

Domingo, 20.09.15

«comenda de fogo»: reler a propósito das diferenças entre portugal e o brasil

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Quando estive no Brasil em 2008 na Festa do Livro do Ceará (Fortaleza) tive a noção clara e explícita do nada que o grupo de autores portugueses representava no conjunto de convidados. Andando eu à nora na cidade universitária de Fortaleza (moderador, debatedor e palestrante) percebi que os rapazes finalistas de Letras colocados à frente dos convidados para lhes indicarem as salas naquele emaranhado de edifícios, só falavam castelhano e eu tinha que acompanhar. Quando os jogadores brasileiros de futebol chegam ao aeroporto da Portela, costumam dizer que estão em Portugal mas o seu destino é a Europa. Ainda agora vi na TV o Ramires que veio para o SLB e depois seguiu para o Chelsea. Não é apenas ignorância em geografia, é um desdém acentuado por um país que já foi grande e rico e hoje é pobre e pequeno. O livro de Eduardo Pitta («Comenda de Fogo») é uma recolha de 2001 da coluna «O som & o sentido» da Revista Ler entre 1994 e 2001. Na página 26 lê-se uma referência ao livro «Palavra de Poeta-Portugal» de Denira Rozário. Embora anuncie que no volume estão «os maiores poetas portugueses de hoje», surgem apenas 24 autores com as datas de nascimento entre 1906 e 1962: António Gedeão, Sophia de Melo Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Egito Gonçalves, Natália Correia, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Fernando Guimarães, Ana Hatherly, Maria Alberta Menéres, Albano Martins, E.M. Melo e Castro, António Osório, Pedro Tamen, Fiama Hasse Pais Brandão, Casimiro de Brito, Al Berto, Nuno Júdice, Rosa Alice Branco, José Jorge Letria, Luís Miguel Nava, Fernando Pinto do Amaral, Adília Lopes e Paulo Teixeira. Como muito bem explica Eduardo Pitta esta «é uma escolha como qualquer outra». Dito de outra maneira: só com os ausentes já era possível fazer outra antologia: José Blanc de Portugal, Mário Cesariny, Alberto de Lacerda, Fernando Echevarría, Herberto Helder, Rui Knopfli, João Pedro Grabato Dias, Helder Macedo, M.S. Lourenço, Maria Teresa Horta, Fernando Assis Pacheco, Armando Silva Carvalho, António Barahona, Gastão Cruz, Fátima Maldonado, Vasco Graça Moura, João Miguel Fernandes Jorge, António Franco Alexandre, Joaquim Manuel Magalhães, José Agostinho Baptista, Helder Moura Pereira, Luís Filipe Castro Mendes, Isabel de Sá e Gil de Carvalho. A distância e o alheamento entre a realidade cultural dos dois países está na página 157 do livro de Denira Rozário que refere o nome civil de Maria Alberta Menéres Melo e Castro como nome literário. Além de Jorge de Sena surgir como Jorge Serra, Herberto Helder como Herbert e Luís Filipe Castro Mendes como Luiz Felipe Mendes Castro. Enfim as coisas são como são e isto nada tem a ver com o aborto ortográfico. --

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por José do Carmo Francisco às 19:18

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