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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 26.08.15

mário lago «compositor» e outras discrepâncias por escrito

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Na minha modesta, curta e discreta nota de leitura sobre o grande livro «Brasil – uma biografia» de Lília Schwarcz e Heloísa Starling (grande em todos os sentidos) chamei a atenção para o facto de na página 395 aparecer referido Mário Lago como «compositor» mas um olhar diferente leva-me a reflectir de novo sobre esta palavra aplicada a Mário Lago. Tenho à minha frente dois dos seus livros, «Rabo da noite» (contos) e «Manuscrito do heróico empregadinho de bordel» (romance) e na contracapa de um deles está escrito «ator, autor, compositor, escritor». Para mim o problema não está no «ator» em vez de actor mas sim no «compositor» porque para nós em Portugal o compositor é o músico, o autor da letra é o letrista. Tanto quanto sei as únicas composições de Mário Lago são três valsas, tudo o resto são parcerias. Parcerias como as que eu tenho com José Cid; eu com a letra, ele com a música, nada mais. E isto nada tem a ver com o Aborto Ortográfico porque ainda há pouco tempo li (em português do Brasil) o livro de Pitigrilli «Delicocéfala loira», uma edição portuguesa da «Minerva» mas traduzido por G. Falcão para a Casa Editora Vecchi do Rio de Janeiro. Nesse livro anotei algumas palavras como ginecólogo por ginecologista, pregunta por pergunta, Dom Quichote por Dom Quixote, Samothracia por Samotrácia, taxímetro por táxi, ómio por ohm, vóltio por volt, cordeal por cordial, peruvianos por peruanos, bemfeitor por benfeitor, escrevaninhas por escrivaninhas e horoscópia por horóscopo. O próprio Mário Lago numa entrevista televisiva referiu que gostava mais de dizer «boemia» do que «boémia», afinal uma coisa de «puristas». Além disso, acrescentava, «Boémia é um lugar onde nasce gente». Conclusão provisória embora – Mário Lago compositor só se for das três valsas, do resto foi sempre em parceria. --

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por José do Carmo Francisco às 16:00

Quarta-feira, 26.08.15

elegia breve para a mulher-menina na cidade (foto de oleg basyuk)

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Todas as manhãs são sempre um pouco tristes porque passa a haver uma a menos no nosso Mundo e na nossa Vida mas o olhar da mulher-menina transporta, conserva e incorpora a força dessa luz que empurra todas as neblinas e chega à cidade grande com o vigor capaz de fazer durar a força da manhã até ao fim da tarde. Para trás ficaram as ondas e a sua espuma na praia como uma borracha gigante a apagar o desenho dos pés de quem, na noite passada, ali veio rezar uma oração sem palavras na liturgia dum tempo de dizer adeus ao amor de Verão. Entre a areia das praias e a pedra da serra, a voz da mulher-menina sobe até ao timbre da canção entoada de modo discreto por quem atravessava as ruas a apregoar os morangos e os figos mais frescos das várzeas, dos brejos e das hortas. De repente é como se entrassem de novo no meu quotidiano os apitos dos sinaleiros, as campainhas dos eléctricos de atrelado, a cidade de Lisboa tal como era em Setembro de 1966 quando aqui cheguei com o diploma de um curso comercial e uma mala onde nem os sonhos cabiam nem eu podia com a carga do seu peso específico. O castelo em frente tem pedras com História onde se cruzam o passado, o presente e o futuro mas para mim o castelo é um pretexto para lembrar as minhas filhas que tanto em Londres como em Sydney juntam pedras para o meu castelo de saudade. Na rua aqui ao lado passavam há cem anos algumas mulheres a caminho dos moínhos da Cotovia. Porque aqui havia e continua a haver muito vento. Cem anos passaram num instante mas o olhar da mulher-menina não passa e permanece neste lugar iluminado pela luz do campo no centro da cidade. --

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por José do Carmo Francisco às 10:12


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