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Transporte Sentimental



Sábado, 15.08.15

aniceto carmona - saudação breve a um cabouqueiro da cidade

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Encontrei Aniceto Carmona. Foi numa loja de fotocópias do Chiado mas poderia ter sido numa rua ou numa praça ou ainda numa travessa do Bairro Alto. Não e nunca num beco porque o Bairro alto não tem becos, é esse um dos seus distintivos porque pouca gente sabe que a Baixa Pombalina é uma projecção à medida do nosso Bairro Alto. Um dos arquitectos vivia na Rua da Rosa e copiou o modelo. Tudo no Bairro Alto é rectilíneo; as ruas e as gentes podem respirar. Aniceto Carmona sorri quando me mostra uma caricatura sua feita na terça-feira passada na lisboeta Feira da Ladra. É um retrato de mulher naquele mundo especial onde às terças e sábados desaguam vendedores e compradores à procura da ocasião feliz, do negócio rendoso, do aperto de mão que avalisa e regista o prazer do encontro. Saúdo em Aniceto Carmona o cabouqueiro da cidade que eu, modestamente e à minha maneira, também sou. Ele no desenho repentista e eu nas palavras toscamente aparelhadas. Porque não é mais do que uma caricatura o meu conjunto de palavras em forma de crónica. Falamos os dois da cidade onde vivemos - eu há 50 anos, ele há 60. Temos na memória o som de eléctricos, de sinaleiros e de pregões. As campainhas dos eléctricos com atrelados cheios de homens de lancheira e fato-macaco, os apitos dos polícias a mandarem seguir o trânsito e as quase-canções das mulheres que vendiam o campo na cidade. Umas vezes «Quem quer figos, quem quer almoçar?!» outras vezes «Fava rica!». Aniceto Carmona também se lembra dessa antiga cidade, também fixou alguns desses tipos humanos em caricaturas excepcionais. Ficamos os dois pelo Chiado a falar até que os afazeres quotidianos nos separam. Vejo o homem das caricaturas ser engolido pela multidão que sai do Metro do Chiado e dou início ao resto do meu dia feliz e apaziguado. --

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por José do Carmo Francisco às 18:04

Sábado, 15.08.15

«tristezas à beira mar» de manuel pinheiro chagas

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Este romance, o único cuja acção decorre por inteiro na Ericeira, surgiu em 1866 no jornal «Comércio do Porto» em forma de folhetim. Seu autor, Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895) tinha ao tempo 24 anos e viu a Parceria A.M. Pereira editar o seu folhetim em livro, volume inaugural de uma nova colecção. O ponto de partida para o drama é uma casa situada na branca vila da Ericeira: «pendurada como um ninho de gaivotas, na solitária fraga». Além de Leonor, essa casa tem como habitantes «um velho quase octogenário, uma velha ainda mais idosa, dois criados e uma criada». Às terças, quintas e sábados a casa do avô de Leonor era frequentada por três figuras - «o comandante do forte, o administrador e o boticário da terra» É nesse espaço definido que Leonor e Jorge vivem um amor feliz até à chegada de Madalena que vem de Lisboa - «o seu rosto podia, pela pureza das linhas, servir de modelo às mais acabadas criações doa artistas italianos». Para o autor do livro «Leonor era a flor das solidões e Madalena a rosa das salas». Talvez por isso Madalena responde um dia a Leonor: «Não me perguntes o que são amores, pergunta-me o que são tristezas!» O triângulo (Jorge, Madalena, Leonor) não resiste às tempestades sentimentais do romance e acaba por se desmoronar. Jorge casa com Madalena, vai para Lisboa e deixa Leonor na solidão da Ericeira. A Cidade vence o Campo mas no final é na casa da Ericeira que Madalena, já viúva vem descansar com a sua jovem filha (Leonor) junto de sua irmã Leonor. Jorge morre no naufrágio do vapor «Porto» quando ia à cidade do Porto receber uma inesperada herança de um tio. O Campo vence a Cidade no final, Lisboa perde para a Ericeira. Manuel Pinheiro Chagas hoje escreveria este livro de outra maneira. Evitaria o abuso dos advérbios de modo e o recurso ao lugar-comum como por exemplo na página 83 - «O forte da Ericeira é um desses recintos fortificados» ou o descuido de escrever Donizette por Donizetti na página 75. Um clássico que resistiu ao tempo e ainda hoje se lê com proveito. (Editora: Mar de Letras, Introdução: Sebastião Dinis, Fotografias. Jorge Oliveira, Capa: Maria João Gromicho) --

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por José do Carmo Francisco às 14:52


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