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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 13.08.15

«visto da margem sul do rio - o porto» de vasco graça moura

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Por um destes acasos tenebrosos da pequena história quotidiana de cada um de nós, só hoje descobri este livro de Vasco Graça Moura (1942-2014) que deveria ter aqui recenseado em Janeiro. Estava afinal junto ao volume colectivo «a vista desarmada – o tempo largo», uma antologia de 34 poetas de homenagem ao Poeta numa edição da Quetzal. O título deste livro está na página 60 e acaba por ser o nome ideal para uma antologia poética, logo pessoal: «visto da margem sul do rio o porto não explode / sob a tarde de verão. A água reflecte / renques de casario humilde a encastelar-se / irregular em ocres e granito, manchas, vãos, recantos.» Mas a abordagem do Porto cidade não se fica pela paisagem («as résteas do sol morrendo / por sobre os renques de espuma / nos mirantes da foz velha / e no granito das ruas») e vai até à memórias das palavras: «falando de arte moderna as pessoas diziam «picassadas» / e havia outras palavras, «bodega», «chuchadeira» que a gente aos quinze anos ainda ouvia em casa». Os poemas do livro oscilam entre a vida («esta manhã na foz, onde eu nasci, o mar da cor do chumbo / mugia contra o molhe») e a morte: «o meu pai está em leça da palmeira, lá perto do farol da boa nova / num cemitério varrido pela nortada e pelo cheiro a maresia, não longe do lugar onde nasceu, numa casa depois demolida para as obras de leixões.» A Literatura, forma precária da rejeição do efémero, surge como memória de alegria («era um livro pequeno, a catorze de fevereiro / quando num sobressalto fui buscá-lo ao tipógrafo e o levei à livraria») mas também como um lúcido legado ao futuro: «sempre esperei das letras o que elas não podiam dar-me / até desesperar e então deram-me tudo, mais ou menos tudo / insensatamente: os ácidos, os gumes, as minhas dinamenes, / os ângulos agudos. Citei vezes abundantes os meus mestres / trinta anos de os pastar, bem os servi e fui discreto.» (Editora: Modo de Ler, Prefácio: Gaspar Martins Pereira, Aguarelas: António Cruz, Fotografias: Maria Manuela Graça Moura, Foto do autor: João Menéres, Design: Rui Mendonça) --

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por José do Carmo Francisco às 14:21


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