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Transporte Sentimental



Sábado, 08.08.15

«a espiritualidade clandestina de josé saramago» de manuel frias martins

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O ponto de partida deste ensaio de 188 páginas é o estudo de dois romances de José Saramago – Caim e O Evangelho segundo Jesus Cristo. Já em 1993, no prólogo da peça de teatro In Nomine Dei, Saramago tinha escrito «Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo, se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus». José Saramago tem antepassados nesta abordagem: Dostoievski («A beleza salvará o mundo»), Antero de Quental («a Arte é a coisa santa da humanidade»), Saramago ele-mesmo («o autor está no livro todo, o autor é todo o livro mesmo quando o livro não consiga ser todo o autor»), Flaubert («Madame Bovary, c´est moi»), Saramago de novo («O que eu queria defender mas não sei se me chegou a língua, era assim uma espécie de homerização do romance») e Paul Valery - «a literatura não é feita de ideias mas sim de palavras». Saramago deixou de publicar poesia em 1966 (Poemas Possíveis) mas fez uma advertência: «Só direi / Crispadamente recolhido e mudo / Que quem se cala quando me calei / não poderá morrer sem dizer tudo». No livro Caim Saramago relembra - «A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós nem nós o entendemos a ele». Mas já antes em 1994 nos Cadernos de Lanzarote adverte («Ainda acabo teólogo. Ou já o sou?») e em 1995 completa «se é verdade que não sou teólogo, teólogos também não foram Marcos, Mateus, Lucas e João, autores, eles como eu, de Evangelhos». Raul Brandão no seu Jesus Cristo em Lisboa coloca esta frase na voz do Diabo: «Tu criaste o homem, mas eu forneci-te o barro. Criaste o mundo mas eu dei-te a matéria de que ele é feito». Mas outros autores como Balzac, Rilke e Upton Siclair escreveram contos e romances colocando Cristo na Terra. E porque toda a Literatura é uma homenagem à Literatura, há uma frase de Saramago («saímos todos do gibão de Raul Brandão») que recorda a ideia de Dostoievski - «saímos todos de debaixo do Sobretudo de Gogol». Um dos aspectos mais curiosos deste ensaio é revelar que tanto o americano Norman Mailer como o britâncio Frank Kermode fingiram miseravelmente desconhecer que já em 1994 existia o livro «The Gospel according to Jesus Christ» de Saramago com recensões publicadas no «The New York Review of Books». Francamente negativo é o resultado da praga do aborto ortográfico que caiu sobre estas páginas: ver Humanidade escrita em caixa baixa é doloroso, insólito e repugnante. (Editora: Fundação José Saramago, Grafismo: Estúdio Manuel Estrada) --

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por José do Carmo Francisco às 12:50

Sábado, 08.08.15

«receitas da minha vida» de branca vilallonga

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Em Portugal existe, persiste e resiste uma literatura gastronómica notável. Basta pensar em autores como Aquilino Ribeiro, Bulhão Pato ou Júlio César Machado e no grande trabalho de registo e divulgação levado a cabo nesta área por José Quitério em jornais, revistas e livros. Este livro múltiplo de Branca Vilallonga engloba receitas mas também memórias, emoções e afectos. São 52 receitas, fica uma para cada semana do ano. No índice as sopas são 3, as entradas também 3, os acompanhamentos são 3, de peixe existem 17 receitas, de carne são 12 e, por fim, 14 entre bolos e doces. Cada receita do livro surge dedicada a uma figura das Artes, das Letras ou do Mundo de Amizade e Familiar. Um aspecto muito curioso é a presença do humor. Na página 18 recorda a autora um livro de cozinha de sua mãe («100 maneiras de cozinhar bacalhau») e uma receita algo insólita: «cozer o bacalhau, as batatas e as couves e depois temperar. Só com alho, pimenta e vinagre. Não pôr nem uma gota de azeite. Porque se o bacalhau é magro não merece e se é gordo não precisa». Chama-se «Bacalhau à Salazar», como não podia deixar de ser. Uma das memórias mais felizes da autora é a da visita com 5 anos de idade à Confeitaria Nacional: «Lembro-me de ir, no Inverno, à Confeitaria Nacional na Praça da Figueira, de mão dada com a minha tia Dinorah. Ainda hoje lá vou (e bebo chá misturado com saudades)». Um pormenor de muita ternura tem a ver com a inclusão nas páginas 125, 129 e 133 de receitas antigas manuscritas. Também a sabedoria salpica este livro entre receitas, memórias, emoções e afectos. Por exemplo esta frase sobre gastronomia: «A boa cozinha é quando as coisas sabem àquilo que são» ou esta sobre a vida: «Casar uma vez é um dever, duas vezes uma asneira, três vezes uma loucura».
O posfácio de Levi Condinho recorda o perfil da amizade mútua e traça um retrato da autora («habita no coração de Alfama, ali à Sé, adora o fado, as festas dos Santos Populares») que termina com um toque de ironia: «tem um pequeno defeito: não bebe álcool, não gosta de vinho; problema seu, Branca ao menos que gostasse de branco…» (Editora: Pó de Estrelas, Capa: Luís Custódio, Paginação: Carlos Sousa, Posfácio: Levi Condinho) --

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por José do Carmo Francisco às 08:30


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