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Transporte Sentimental



Terça-feira, 16.06.15

«o eléctrico 16» de filomena marona beja

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Helena desejava outra cidade e outro tempo («um tempo futuro»)mas vive entre dois homens (José Emílio e Joel) e cresce num Portugal cinzento, silencioso e conformista, cuja síntese está na frase de Salazar: «Está tudo bem assim e não podia ser de outar forma». A viagem do eléctrico 16 de Belém a Xabregas é a metáfora da própria vida: «Durante os anos cinquenta eram raros os automóveis no Bairro da Madre de Deus.» Além da educação sentimental e política de Helena, a autora escolhe a vida de um jornal (Diário Ilustrado) e uma campanha eleitoral (Humberto Delgado) como veios da narrativa. Será a força do efémero. Um jornal é efémero porque é a folha no vento e o embrulho de lancheira de operário ou de costureira. O Diário Ilustrado surgiu entre Dezembro de 1956 e Março de 1963. Acaba feito por dois jornalistas: Roussado Pinto e Dinis Machado. Carlos Eurico da Costa foi despedido e muitos camaradas pediram a demissão: «Carlos Costa apenas levara da oficina umas aparas de chumbo. Desperdícios.» A campanha de Humberto Delgado («que a PIDE haveria de assassinar em 1965») é recordada agora: «quando pensava nesse tempo, era dos desaparecidos que ela se lembrava. Das casas vazias. Dos cemitérios onde nunca fora levar flores». Ao mesmo tempo surge a memória dum filme - «A casa de chá do Luar de Agosto». Na opinião de Victor, o filme que passou no Cine Pátria «disfarçava-se de comédia, não o sendo. Tão pouco o enredo dizia respeito ao Japão, a fita refere-se à Coreia…» Há na literatura portuguesa (ficção e ensaio) um pormenor, uma respiração e uma perspectiva que oscila entre Irene (Lisboa, Pimentel) e Maria (Ondina Braga, Judite de Carvalho) fazendo do espaço da cozinha, do trabalho obscuro e da paciência infinita, as linhas dum tempo e dum Mundo que às vezes até se detém nas receitas como a sopa de peixe: «cortava-se a cabeça ao pargo ou à garoupa. Levava-se ao lume com cebola, batatas às rodelas, um tomate se era tempo dele, um ramo de cheiros e um fiozinho de azeite.» No eléctrico 16 entre Belém e Xabregas o mundo começa no seu espaço («Devia era haver um passe social!») e vai até África. Seja na memória dos estudantes («evocavam praias, casas, criados») seja na guerra colonial: «Um avião a cair no Negage. A barcaça que se virava na Guiné. Os feridos eram trazidos de madrugada do aeroporto para o Hospital Militar». Sem esquecer a ligação entre o anos 50 e a situação actual: «Os meus pais têm dívidas! Foram despedidos! Inscritos no Banco Alimentar!» Um livro, um eléctrico, um bairro, uma cidade, um país, um certo tempo português que vem de 1945 até hoje. Inesquecível, este livro. (Editora: Divina Comédia, Texto contracapa: Miguel Real) --

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por José do Carmo Francisco às 21:57


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