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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 15.06.15

poema em prosa para o olhar da mulher-menina

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Vejo no olhar da mulher-menina a tripla inscrição dos mundos: animal, vegetal e mineral. Inquieto como um gato, profundo como uma árvore, apaziguado como uma pedra, o seu olhar entra neste poema em prosa que tem a forma de crónica, entra e já não sai. Veio para ficar, subiu as escadas de um santuário onde as orações não precisam de palavras. As nuvens trazem chuva e são um calendário privado no tempo da mulher-menina que é marcado pela dualidade entre a Natureza e a Cultura. Telas, tempo e trilhos formam o triângulo dessa aventura de todos os dias. As pinturas onde regista a força dos cavalos, o tempo onde inscreve as suas andanças, os trilhos onde avança entre terra e céu nas caminhadas de fim-de-semana. Há fotografias a cores nos telemóveis mas a alma inquieta da mulher-menina não cabe nas dimensões do retrato de grupo e no sorriso exausto no fim da caminhada. Entre Natureza e Cultura, entre História e Ciência, entre Matéria e Espírito, o seu olhar alcança a força dos três mundos: animal, vegetal e mineral. Entra numa sala e é como se ali estivesse uma topografia sentimental. Um homem junta ingredientes para um prato à base de pão, traz na voz pausada a sabedoria da sua região de origem, junta ervas ao pão e à carne, à couve-flor e ao azeite. No fim todos provam e saem felizes da sessão. Os olhos da mulher-menina não descansam e viajam na sala: seu destino é serem bandeiras de um coração perguntador, é serem clarins do anúncio da alegria nova, é serem filarmónica de uma festa que não tem fim. No seu calendário privado a festa é todas as manhãs quando o olhar inventa de novo o intervalo feliz entre a inquietação do gato, a profundidade da árvore e o apaziguamento da pedra. Ao lado da mulher-menina passa um regato de água, afinal tão eterna como a vida. --

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por José do Carmo Francisco às 22:57

Segunda-feira, 15.06.15

«elegias de cronos» de nuno dempster

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O ponto de partida deste livro é uma pergunta «E agora? que farei com essa imagem / a olhar-me nos olhos? / Elegias?» Ora a imagem é uma raiz de mágoa : «Uma das minhas mágoas / é seres hoje mais bela do que eras / aos vinte anos naquela foto». Entre o tempo e a memória aparece o poema da página 68 porque «os poemas emanam da memória». Neto de um poeta maior (Armando Côrtes-Rodrigues), Nuno Dempster tem uma antiga relação com a poesia publicada: «Dantes até cheirava a tinta dos poemas / que às vezes me publicavam / coroava-me a mim mesmo de louros / como os de Alighieri em Florença». Outro poeta, Afonso Duarte, integra um poema deste livro: «Renascido do teu olhar, há sempre um dia / como este plenamente nosso / em que rosas e cedros e carros / se congregam e uníssonos ascendem / no grito vertical das aves: / Eu posso lá morrer, terra florida!» Mais à frente é um poeta não nomeado que se queixa em voz alta num poema: «É triste vê-lo assim queixar-se / da fama dos poetas vivos / dizer alto na rua à multidão / que os seus versos merecem outro fim.» Num país que nem é de «poetas» nem de «brandos costumes», só a velha oliveira resiste ao tempo e à sua erosão violenta: «Que não te angustie a oliveira anciã / já quase apenas tronco, quase / um espigão de escarpa fóssil. / Está ali no vale para ainda / podermos vê-la, olhando-a / calculando-lhe a idade em séculos / e pensarmos em quantos como nós por ela já passaram e se foram / e nas mãos que de início a seguravam / enraizando à terra a eternidade». O tempo terrível que nos é dado viver é comparado à II Guerra Mundial e é de facto uma guerra por outros meios, uma guerra de civilização: «Hoje qualquer sítio é melhor do que este / e tanto quanto mais longe estiver. / Pesa-nos o destino de nós todos / sermos pequenos /como as velhas cidades quando / a guerra as assolava / ruas que eram vielas / a gente que depois enchia / as estradas de fuga como agora / sucede sem se ver». O tempo neste livro belíssimo tem uma dupla inscrição: o geral e o particular, o público e o íntimo. Daí o poema da página 46: «Já nada sou naquela foto, nem / a foto altera o curso de outras / reciclada em silêncio / até ontem surgir / de repente numa arca. / Tinha eu doze anos / vestia um fato preto com gravata.» Entre a brevidade da Vida e o inevitável da Morte só o Amor nos resgata. Mesmo trágico como no poema da página 70: «Afinal não foi Pedro quem mandou / tirar o coração aos assassinos? / Sim, foi, mas não te esqueças de que Inês / já tinha devorado o coração do príncipe». (Editora: Artefacto / Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, Composição Gráfica: David Martins, Paginação: José Pedro Moreira, Impressão: Europress, Apoio: Fundação Calouste Gulbenkian) --

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por José do Carmo Francisco às 19:49


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