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Transporte Sentimental



Domingo, 07.06.15

afinal «blimunda» começopu por ser «mariana amália»

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A Internet tem destas coisas. Hoje surgiu-me um artigo de Joana Emídio Marques sobre Isabel da Nóbrega e, no meio do texto, aparece uma referência ao livro «Memorial do Convento» de José Saramago. Já fechei o computador e o que resta é uma ideia: Isabel da Nóbrega terá sugerido ao autor do «Memorial» o nome de Blimunda em vez de Mariana Amália. Ora Mariana Amália é a pessoa que recebeu José Saramago no ano de 1976 no Lavre (Montemor-o-Novo) para ele ouvir e escrever (contar por escrito e por extenso) as histórias das greves dos trabalhadores rurais dos anos 40 do século XX quando as convocatórias eram entregues durante a noite por gente que vinha de bicicleta com as luzes apagadas. Não por acaso esse livro («Levantado do Chão») é dedicado às 16 pessoas do Lavre, a Isabel da Nóbrega e a Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados (ao que se diz ainda hoje) por gente da PIDE no posto da GNR de Montemor-o-Novo. Numa entrevista a José Jorge Letria (Editora Escritor) José Saramago afirma e confirma a ligação entre as duas obras: «Depois de «Levantado do Chão» vem o «Memorial do Convento» que é de facto o livro que me projecta de maneira indiscutível para uma outra dimensão.» É esta a ligação que o ensaio por mim hoje lido na Internet me recorda. Afinal Mariana Amália, esposa de João Besuga (ou Basuga) esteve prestes a passar da vida prática para as páginas da literatura no livro «Memorial do Convento». Esteve perto mas a ocasião perdeu-se e não passou. Ficou a Blimunda. Aliás Blimunda está mais perto de Baltazar, são nomes mais pequenos. Como não tenho foto de Mariana Amália anexo fotografia de sua filha Maria Belmira que era uma menina em 1976 no Lavre. José Saramago nunca se esquecia dos seus olhos inquietos e muito belos. Confere. --

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por José do Carmo Francisco às 16:00

Domingo, 07.06.15

«negro marfim» de victor oliveira mateus

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Victor Oliveira Mateus mostra neste livro um homem «da» cidade mas também «na» cidade: «A cidade é este espaço onde os espectros não cabem e onde se corrigem os poemas da véspera com pedaços de uma memória resplandecente e de uma alegria sempre nova que não vendemos nem damos.» O próprio título do volume nasce de um poem na página 19 e na cidade: «um desses breves momentos onde eu, sem saber porquê, costumava guardar num dos bolsos o meu estojo de sementes – esse fiel e imperecível negro de marfim.» O livro mostra que o tempo que vivemos é o da catástrofe: «Logo agora que a catástrofe merecia ser a mais bem-sucedida ilustração deste tempo e desta praça». Hoje, o Mediterrâneo que foi berço de civilizações, é um lugar de morte: «Aguardou-o, bem como tudo o que vinha do continente fronteiro: o desnorte dos homens, a dor intraduzível das mulheres, pedaços de brinquedos já sem dono, bocadinhos de espelhos, rombas caixas de música, pássaros desasados, barcos naufragados com pedaços de vísceras na proa.» O poema é sempre a voz do poeta («as minhas dúvidas, as minhas crenças, as minhas verdades, tão provisórias e falíveis como todas as verdades»)que surge entre os espanto e a loucura, o outro nome da lucidez: «Esta é a minha loucura, aquela que defendo com unhas e dentes, ou seja, a minha lucidez, serena e persistente como na infância já se me oferecia.» Entre o homem que escreve e a cidade que não dorme, surge um cão: «Toda a noite o cão ladrou, ladrou. O eco entrava por mim adentro num misto de temor e raiva assassina. O arrastar da corrente aumentava também o sufoco e a impotência – minha e do cão. Quem andaria por entre as hortas?» No intervalo do precário da Vida e a ameaça da Morte, só o Amor pode resgatar: «o amor é uma entrega sem pagamentos nem recompensas, é um caminho de sentido único, uma viagem onde estamos sós e sem desculpa.» É como se Victor Oliveira Mateus tivesse entrado num pátio de Lisboa em 1900 e ouvisse o grito que Raul Brandão nunca esqueceu - «Se quer ser escritor, escreva sobre os pobres!». Ora a pobreza é também a fragilidade das palavras: «A palavra traz consigo uma ganga que atrai, que atrai e amedronta. Há nela algo de uma seiva originária, de raízes, de raízes adulteradas pelo uso, pelos instrumentos, pelas máscaras com que no tempo enganando-as nos enganamos. É uma ponte.» (Editora: Labirinto, Prefácio: Miguel Real, Posfácio: Ronaldo Cagiano, Capa: Nuno Fernandes) --

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por José do Carmo Francisco às 09:44


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