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Transporte Sentimental



Sábado, 31.01.15

«titanic» de marina tavares dias

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Marina Tavares Dias (n. 1962) começou a aventura deste livro com um postal adquirido em Paris e reproduzido na página 127. Mesmo com a experiência dos seus livros anteriores sobre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, além dos outros volumes sobre Lisboa Desaparecida e Lisboa Misteriosa, não deve ter sido fácil trabalhar nesta espécie de «Fotobiografia» do Titanic. Afinal existem perto de 900 livros sobre o tema – em 2012 passaram cem anos sobre o naufrágio do navio que se julgava incapaz de naufragar. Mas este não é mais um livro e por várias razões. Porque não isola o caso Titanic antes o integra no processo mais geral das tragédias do mar. Em 1854 o Tayleur encalhou e afundou 5 milhas a leste de Dublin. Morreram 360 dos 650 passageiros e a companhia era a mesma (White Satr Line) mas só ficou o Titanic para a História. Em 1945 o navio alemão Wilhelm Gustloff foi afundado e teve três vezes mais mortos que o Titanic mas o seu nome não é lembrado. 14 de Abril de 1912 será uma data para sempre: «O Titanic leva todos os escaleres exigidos por lei. Ou seja: cerca de metade dos passageiros está condenada à partida. O número de passageiros salvos não excede 1180, para trás ficaram mais de 1040 pessoas». Por isso o Carpathia que foi em socorro do Titanic foi chamado o «navio das viúvas». Sabe-se que enquanto o navio se afundava a orquestra dirigida por Wallalce Hartley tocava Rossini, Strauss, Verdi e St. Saëns sem parar mas o navio já tinha problemas em Belfast com a ascensão do nacionalismo irlandês: «As mãos que construíram o Titanic não eram já totalmente despolitizadas, nisso diferindo das que tinham dado forma e futuro aos veleiros que, décadas antes, tinham feito a fama da Harland & Wolff». Uma nota final sobre os portugueses que morreram no Titanic (José Neto Jardim, Domingos Fernandes Coelho, Manuel Gonçalves Estanislau e José Joaquim de Brito) e cujo desaparecimento não foi divulgado à época nos jornais portugueses. (Editora: Objectiva, Capa: Panóplia, Paginação: Ricardo Cardoso, Revisão: Manuel Eugénio Fernandes) --

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por José do Carmo Francisco às 12:17

Sexta-feira, 30.01.15

nuno costa santos, camilo castelo branco, américo monteiro de aguiar e as gralhas

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«A vida sem gralhas é burocracia» escreveu Nuno Costa Santos num SMS por mim recebido em Londres quando ia a caminho do Charlton-Cardiff no «Boxing Day» do passado dia 26-12-2014.Tratava-se de uma gralha num texto seu publicado na «Revista Ler» de Dezembro passado sobre a vida e obra de Alface. O título (Beijinhos) de um dos livros do montemorense ilustre estava mal escrito. Ponto final. Na página 1624, volume IV do livro «Factos, pessoas e livros», edição comemorativa dos 50 anos da Livraria Portugal de Lisboa lá aparece o nome do Padre Américo como «Martins» de Aguiar quando é bem «Monteiro» de Aguiar. O livro é de 1991 e foi-me oferecido à porta da Livraria na Rua do Carmo poucos dias antes de ele fechar para dar lugar a uma pastelaria. O seu autor é José Pedro Machado, sócio de Honra da Sociedade de Língua Portuguesa. Ponto final. Sobre Camilo Castelo Branco há um livro de 1989 assinado por Maria do Carmo Cruz e editado por Areal Editores. O título é «Os caminhos de Camilo» e conta com uma excelente nota de contracapa de David Mourão-Ferreira. Nela se saúda a autora e a editora pelo trabalho que «antecipa» a celebração do centenário da morte de Camilo Castelo Branco que ocorreu em 1990. A gralha (ou talvez não) pousou na página 6 do livro. «A Rua dos Calafates não se encontra registada nos actuais roteiros da cidade de Lisboa» ali se escreve mas bastaria a consulta de qualquer dos clássicos (Júlio de Castilho poe exemplo) para se perceber que ainda existe na Rua Diário de Notícias o colégio dos Calafates. Foi nessa rua que o jornal «Diário de Notícias» teve durante muito tempo as suas oficinas. Ponto final. Mas para quem ainda gosta de livros (com ou sem gralhas) sugiro que visitem a Livraria 111 no Campo Grande 111. É de perder a cabeça com tantos livros. E os preços… --

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por José do Carmo Francisco às 19:10

Sexta-feira, 30.01.15

diseertação para uma fotografia de 1998

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O acaso não existe porque viver é escolher. Posso confirmar a ideia porque em Outubro de 1997, quando cheguei à redacção do jornal O MIRANTE levava na mão uma máquina de escrever dentro do seu estojo. O fundador Joaquim António Emídio, que me tinha convidado na Gulbenkian, explicou-me que o jornal estava informatizado e eu dei meia volta para me vir embora. Ora eu trabalhava no BPA desde Setembro de 1966 e tinha sido reformado em Dezembro de 1996 porque odiava computadores. Não fazia sentido trabalhar num jornal informatizado. Houve ali uma fracção de segundo em que a minha recusa se transformou em aceitação. Pensei nos meus filhos e na vergonha que seria ter recusado esta oportunidade de trabalho porque odeio computadores. E não é bem os computadores mas o facto de num departamento como aquele onde trabalhei 30 anos (Estrangeiro) os prémios serem sempre para quem mais se interessasse por informática. Lá fiquei e dei sempre o meu melhor entre Outubro de 1997 e Janeiro de 2001. Lá aprendi como é possível as pessoas (os leitores fiéis) darem mais importância ao seu jornal do que aos Bombeiros ou à PSP. Recordo um homem que em Santarém se deslocou à redacção de O MIRANTE de bicicleta de pedais dar a notícia de um fogo na sua casa que era numa rua no coração da cidade. Isto ainda o Jornal estava no Beco dos Agulheiros. Esta foto marca essa época de minha vida em Santarém, entre 1997 e 2001, no meu tempo de redactor de O MIRANTE. Por acaso não recordo o trabalho jornalístico com o senhor na imagem que era ourives. Nem o texto nem o contexto, apenas o seu nome: Fernando Martins. E posso confirmar que o acaso não existe porque viver é escolher e em cada momento que passa há um fluxo de vontade e negação no olhar de cada um de nós. --

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por José do Carmo Francisco às 10:09

Quinta-feira, 29.01.15

a bola - 70 anos de uma «menina» que veio ao mundo em 1945

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A minha mais recente crónica (ontem) surge com um título que pode ter várias leituras e embora dirigida a uma determinada menina (Laura) acaba por, no dia de hoje (29), acertar na alegria de um outro aniversário de outra menina. Esta (A BOLA) já com 70 anos de idade pois nasceu em 1945. O mais curioso é que eu também sou da «tribo» de A BOLA; já fui referido em duas ocasiões pelos jornalistas Carlos Miranda e por Victor Cândido. Nada acontece por acaso e ainda há pouco tempo ao ser publicado o meu mais recente livro (»Poemas de Lisboa e Borda d´Água») da «Apenas Livros» foi A BOLA, pelo punho de António Simões, que em primeiro lugar se referiu ao seu aparecimento. A minha ligação a este jornal, hoje de parabéns pelos seus 70 anos, data de 1978 quando se soube em Lisboa da morte do poeta Ruy Belo. Escrevi um poema que enviei a Carlos Pinhão num envelope do BPA. No dia seguinte lá apareceu o jornalista e escritor no primeiro andar do nº 110 da Rua do Ouro para me conhecer e explicar que o poema iria ser entregue a Jacinto Baptista no «Diário Popular» em cujas oficinas A BOLA era composta e impressa. O meu poema saiu com algum destaque na última página do Suplemento Cultural da quinta-feira seguinte. Nunca mais parei graças a essa placa giratória de amizades. Do «Diário Popular» à «Moraes Editora» e ao poeta Pedro Tamen foi um pequeno passo. O meu primeiro livro saiu nessa mesma editora em 1981 tal como o segundo em 1983 - «Iniciais» e «Universário», respectivamente. Mas nem tudo foram rosas neste s 70 anos de vida de A BOLA. Em 1946 Os Belenenses foram campeões nacionais em Elvas mas a reportagem da festa foi feita pelo correspondente local porque A BOLA não podia ter um enviado-especial. O Dr. Vicente de Melo era muito poupado. Os tempos eram outros. --

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por José do Carmo Francisco às 11:45

Quarta-feira, 28.01.15

«o exemplo das árvores» de miguel gomes coelho

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A Poesia não é a voz do Mundo. E talvez nunca tenha sido ao longo do Tempo e da História. Hoje a voz do Mundo é a morte, a escuridão e o esquecimento. Pelo contrário, a Poesia é feita de luz, de vida e de memória. Este livro também. Camilo Castelo Branco escreveu um dia que «A Poesia não tem presente; ou é sonho ou saudade». E vem a propósito lembrar o grande mestre da Literatura Portuguesa nascido em Lisboa na Rua da Rosa em 1825. Se fosse vivo ele comentaria este segundo livro deste autor com uma palavra muito do seu agrado – a palavra cometer. Ora o autor deste livro «cometeu» em 1978 outro livro com o título de «De coração na mão». Ou seja – a Natureza e a Cultura lado a lado, tal acontece como no título deste livro hoje em apreço – «O exemplo das árvores». Na verdade são seis os capítulos deste livro de poemas mas, como acontece nos livros de contos, o autor escolheu um dele para título do conjunto. Neste caso é «O exemplo das árvores» que ocupa as páginas 11 até 18. Vejamos o poema inicial do capítulo: «Seja qual for o destino / do voo das tuas mãos / lembra-te / e pensa maduramente / no exemplo da árvores». Este advérbio de modo («maduramente») surge aqui como valor enfático de uma reflexão. Ao longo dos séculos a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes mas tem oscilado sempre entre a canção e a reflexão. Neste primeiro capítulo é a reflexão que conta como por exemplo no poema da página 16: «Não li uma linha / nem escrevi uma frase / mas tive um poema nos meus braços / e declamei-o com toda a força do meu silêncio / não fosse alguém quebrar-me o encantamento». Já em «Mar final» a força está na reflexão sobre a viagem que é uma projecção da vida. Começa na página 21 («Porque sempre se cantam as mães /cantemos também a morte / que é a mãe do nada»), percorre a página 23 («Apenas deixarei ficar / um último aceno / ninguém mais se recordará desta barca / ou deste mareante») e conclui na página 25: «Depois lancem as cinzas ao vento / e nele escrevam o epitáfio. / Realiza-se assim o sonho seminal da morte / Nasce a memória, talvez a saudade». A ligação entre esquecimento e morte confirma-se na página 28: «Neste tempo que se liquefaz / e corre célere num túnel de nevoeiro / o único destino é o esquecimento.» O terceiro capítulo é «Com as mãos cheias de gente» permitindo que o poema faça perguntas em voz alta e no colectivo: «De que serviu, então, o passado? De que serviu ter as mãos cheias de gente / e o coração do tamanho do mundo? / De que serviu a promessa jurada de um futuro / inteiro e limpo de braços encadeados / numa marcha segura / o horizonte como destino / olhando em frente?» Noutro poema se escreve o Natal de modo diferente: «É noite e as estrelas estão lá em cima. / Uma criança nasce com a morte já estampada nas faces (…) É assim o Natal no Darfour / e as mesmas estrelas estão lá em cima». Por isso se pensa em Deus pela negativa: «Se Deus existisse / as pedras lançadas em seu nome / transformar-se-iam em água / saravam feridas, purificavam actos; / mas Deus, se existiu, morreu / e não deixou testamento / nem descendência». Em «Transparências» os poemas são breves entre dois e cinco versos, concentrando a canção e a reflexão na mesma temperatura como na página 52: «Nunca abras um espelho / nunca queiras ver o que lhe ficou gravado na memória». O capítulo «Diapositivos» reflecte no seu conjunto de seis andamentos poéticos uma ideia ancorada no título do livro: A Natureza fornece a imagem,a Cultura faz a sua apropriação por escrito e por extenso. A Poesia é um vulcão que ainda não está extinto porque como na página 61 «De uma furna onde / ainda esvoaçam emoções / renasce um tardio rio de lava; / um espanto no entardecer / em que o sol se demora um pouco mais / no aguardar da noite certa». Por fim em «Oldenburg» o livro é uma linha paralela entre em dois poemas – «Nocturno» e «Encontro em Oldenburg». A base é uma promessa («Disseste que me ias trazer mais vida») e o ponto de chegada é um balanço. Dito de outra maneira, trata-se aqui de um inventário qualificado. O poem avisa o destinatário - «Quero ensinar-te tudo o que aprendi e / o que descobri no vogar dos dias» - e mesmo na adversativa para o destinatário- «Vais saber que as lágrimas / não caem só dos olhos» - e também para o autor - «Andar pela vida não é fácil» - o ponto a atingir fica dentro do enunciado do possível: «saber que os homens podem ser / como as árvores». «O exemplo das árvores» que dá título ao presente livro de poemas é o modelo (breve embora) de tudo o que permanece apesar do desgaste e da erosão. Porque as árvores dão aos homens o exemplo vivo e concreto da ligação à terra e ao seu calendário de sementeira trabalhosa e de colheita festiva. Os parvalhões que gritam ao telemóvel o brutal e imperativo «Tázadonde?» nos bancos do autocarro, do eléctrico, do elevador ou do Metro, são a voz do Mundo que fala alto e atropela mas não são a voz da Poesia. Nem nunca serão eles, os que falam alto, essa voz porque o seu som gritado se vai perder muito depressa nas valetas do esquecimento enquanto a Poesia tem e terá sempre os seus leitores, teimosos e heróicos, capazes de a invocar seja no bulício da rua seja no silêncio dos corações. (Edição: Fólio Exemplar, Capa e Paginação: Ana Nunes) --

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por José do Carmo Francisco às 13:49

Quarta-feira, 28.01.15

dissertação feliz para uma menina que nasceu em janeiro

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Laura, o teu nome, significa «coroa de louros» e é muito antigo pois já povoou no século XIV os poemas de Petrarca no seu livro «Canzionere». Para mim o teu nome é novo pois só ontem à tarde soube do teu nascimento numa cidade de nome quase impossível de pronunciar. És uma menina e nasceste em Janeiro, o primeiro mês do ano no qual nasceram duas da «meninas» mais importantes da minha vida: minha filha no dia 4 e minha mãe no dia 12. Daqui, desta crónica, eu te cumprimento e te desejo saúde, alegria e paz ao longo dos teus dias que desejo longos e estão agora a começar. Eu não te vi mas pressinto no teu olhar hesitante as neblinas das manhãs do Oeste, entre as praias de iodo e as serras onde o vento do mar se perde. Tal como pressinto no som da tua voz a memória dos moinho e dos moleiros, dos lagares de azeite e suas tarefas, das adegas e seus tonéis, das eiras brancas feitas de pedra. Um dia, se alguém guardar para ti esta pequena dissertação que um velho poeta escreveu neste dia de Janeiro de 2015, nesse dia poderás compreender que quando nascemos já trazemos connosco uma bagagem de afectos onde tudo se mistura: geografia e história, público e privado, palavras e silêncios, encontros e solidão. Um dia vais conhecer a Linha do Oeste talvez já sem comboios mas ainda com memórias vivas. Há gente como eu que por lá passou na infância, na adolescência, na vida militar, na lua-de-mel. Muito do que eu sou hoje cresceu nas automotoras desta Linha. Tu estás longe mas um dia virás visitar a tua família do Oeste. Sei que não se vão esquecer de te levar à Praça da Fruta, ao Chafariz das Cinco Bicas, ao Parque, ao Museu. Depois, quando ouvires a voz do mar é porque estás perto da Foz do Arelho. Adeus Laura, até um dia! --

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por José do Carmo Francisco às 10:42

Terça-feira, 27.01.15

isabel trigo de mira - retrato breve entre duas memórias

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A terceira bota de ouro de Cristiano Ronaldo é dele em primeiro lugar mas também de todos e todas que, ao longo do seu percurso desportivo e pessoal, o ajudaram a seguir em frente mesmo quando alguma coisa corria mal. A nossa vida é um mistério, nunca um negócio e quis o acaso da minha vida que a minha primeira grande entrevista no jornal do Sporting Clube de Portugal em 1997 fosse no Lar do Jogador do velho estádio, por cima da mítica «nave». Os meus entrevistados foram Leonel Pontes e Paulo Cardoso. O primeiro, hoje treinador do Marítimo e ao tempo jovem licenciado em educação física e encarregado de educação do CR7. O segundo, jovem técnico das camadas jovens do SCP que assinou ao lado de Osvaldo Silva o primeiro relatório escrito sobre o valor de Cristiano Ronaldo como jogador de futebol. Pois ambos me falaram do papel decisivo de Isabel Trigo de Mira ao desbloquear junto da Direcção leonina (que ela integrava) os pequenos frigoríficos de cada quarto onde se guardavam os iogurtes, o queijo e o fiambre para as sandes nocturnas dos meninos em crescimento. Outra memória que tenho desta grande «leoa» é no IPO quando chorámos os dois de emoção ao ver o sofrimento de crianças tão pequenas. Nessa tarde um grupo de voluntários do SCP deslocou-se ao IPO e entregou camisolas, calções, bonés, fatos de treino e sapatilhas verdes e brancas a um grupo de meninos que faziam quimioterapia. Alguns deles completamente carecas e terá sido esse pormenor que fez soltar em nós dois o pranto sem fim das lágrimas quente, sinceras e abundantes. Uma memória de Isabel Trigo de Mira precipita outra. A «mãe emprestada» dos meninos do Lar do Jogador do SCP é a mesma «mãe emprestada» dos meninos do IPO de Lisboa naquela tarde. Eu sei, eu estava lá e não me esqueço. --

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por José do Carmo Francisco às 11:53

Segunda-feira, 26.01.15

josé quitério prémio universidade de coimbra num país que bebe gin e come sushi

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Há prémios que honram não apenas quem os recebe mas também (e principalmente) quem os atribui. Neste caso de 2015 cabe a honra (em primeiro lugar) a José Quitério, tomarense de 72 anos, jornalista e escritor, homem bom que teimosamente tem «cometido» em jornais e livros o grande louvor da Gastronomia Portuguesa enquanto valor cultural que engloba a História, a Etnografia e a Antropologia. E honra (ao mesmo tempo) a velhinha Universidade de Coimbra cujo reitor (João Gabriel Silva) não hesitou na maneira como assume a memória justificativa do prémio de 25 mil euros a entregar em 1 de Março próximo. Assim: «O Júri considerou que o laureado tem dado um contributo muito importante para o mundo da Gastronomia em Portugal e, mais ainda da cultura portuguesa dado que a comida reflecte muito a cultura e a maneira de estar dos portugueses». Num tempo triste em que já não existem cozinheiros porque todos querem ser chamados de chefs, num tempo obscuro em que a parvoíce surge investida em cosmopolitismo (comer sushi e beber gin), José Quitério provou ao longo de quase quarenta anos nas páginas do Jornal Expresso que é possível amar, por escrito e por extenso, uma tradição à mesa deste país que somos e nessa atitude está bem acompanhado por grandes autores como Júlio César Machado, Bulhão Pato, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós ou Aquilino Ribeiro. Podíamos continuar mas a lista basta como amostra de gente de grande categoria de quem José Quitério se afirma como herdeiro. Mesmo num tempo difícil, José Quitério soube sempre manter a chama viva e este prémio da Universidade de Coimbra é uma excelente prova de que ele esteve e está no caminho certo. Seja no efémero do jornal, seja no mais perene do livro. --

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por José do Carmo Francisco às 23:24

Domingo, 25.01.15

sílvia de oliveira - e quem nos salvará das palavras erradas?

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O «Diário de Notícias» do passado dia 17 de Janeiro de 2015, no seu Suplemento «Dinheiro Vivo» publica um «editorial» com a assinatura de Sílvia de Oliveira. O título é «E depois, quem nos salvará?» e começa por referir-se ao assunto da deflacção considerando-o como um problema grave «demais». Mas o correcto é grave «de mais». E é «de mais» porque tem a ver com mais ou menos, com quantidade, com valor. Mas logo algumas linhas abaixo a mesma palavra (demais) já surge escrita correctamente em função do que a articulista pretende afirmar. Vejamos. «O que Mário Draghi está a tentar fazer por inoperância das demais instituições europeias, é tentar salvar a Europa incluindo países como Portugal, Grécia, Espanha ou Itália». O sentido correcto de «demais» é «os outros». Isso aprendia-se no meu tempo de aluno na Escola Comercial e Industrial de Vila Franca de Xira. Os professores ensinavam e os alunos aprendiam. Era para toda a vida como se comprova ainda hoje. Ora neste editorial do «Dinheiro Vivo« o primeiro «demais» está errado mas o segundo «demais» está certo. Quando se escreve que um problema é grave o «de mais» será sempre separado porque o oposto é «de menos». Basta fazer um simples exercício mental para evitar um erro assim tão crasso. Dizem que tudo isto tem a ver com a pressa actual porque os jornalistas modernos são condicionados pelo número de caracteres disponíveis para cada texto. Se o problema principal é esse, então não há tempo para pensar nas palavras enquanto tal. Se só os caracteres contam então todo o tempo do jornalista é gasto a escrever à pressa e também à pressa a contar os caracteres. E isto até tudo ficar conforme planificado. Assim é que ninguém nos salva. --

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por José do Carmo Francisco às 14:47

Sábado, 24.01.15

«fragateiros do tejo» de marcolino fernandes

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Com o subtítulo de «O quotidiano das populações da Borda d´Água nos anos 40, 50 e 60 do século XX», bem poderia ter o nome de «Fotobiografia» pois junta ao testemunho do autor um conjunto alargado de fotografias e de pinturas alusivas à vida dos fragateiros de Sarilhos Pequenos. O autor define-se como fragateiro: «Nasci numa pequena aldeia da Margem Sul, Sarilhos Pequenos, que dista 8 milhas marítimas da capital, onde 95% dos homens foram fragateiros». Esta actividade de transporte em fragata de produtos entre as duas margens terminou em 1976 devido à proliferação das pontes sobre o Rio Tejo: Vila Franca de Xira em 1951, Lisboa em 1966, Sacavém em 1998 e Carregado em 2007. As mercadorias transportadas eram as mais diversas: açúcar, farinha arroz, café, amendoim, farinha de peixe, cortiça, madeira, vinho, sal, carvão, trigo, milho, soja – e outras. A vida em Sarilhos Pequenos era dura nos anos 50: «não havia electricidade, não havia saneamento básico e não havia água canalizada». O contraponto eram as brincadeiras dos rapazes e raparigas além das visitas da carrinha da Gulbenkian: «quem se lembra dela? Quantas gerações poderão partilhar as memórias evocadas a propósito de livros e leituras nos tempos que correm?» Durante muito tempo uma data permaneceu na memória dos fragateiros – 15 de Fevereiro de 1941. Dos 21 fragateiros mortos devido ao ciclone no Tejo três eram de Sarilhos Pequenos – Manuel Pança, Américo Ferrão e Hermínio José. Além das memórias dos fragateiros, este livro recorda outras profissões do tempo: serradores, salineiros, descarregadores, varinas, apanhadores de ostras, taberneiros, carroceiros, carpinteiros, calafates, pintores – entre muitas outras. Com 206 páginas de texto e largas dezenas de fotos, esta é uma «Fotobiografia» pioneira do tempo dos fragateiros de Sarilhos Pequenos – as suas viagens e suas tarefas, os seus esforços e suas festas, a sua vida e a sua morte. (Editora: Orfeu-Bruxelas, Prefácio: José Manuel Saldanha, Apresentação: Joaquim Pinto Silva, Capa: Carlos Romão) --

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por José do Carmo Francisco às 18:05

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