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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 27.11.14

«As rosas de Granada» de Daniel de Sá

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Daniel de Sá (1944-2013) sempre sentiu um enorme fascínio pela cidade de Granada e daí o nome que inventou em 31-3-2011 para assinar os seus poemas como se fosse um poeta árabe dessa cidade – Ahmed Bem Kassin. A dedicatória («Para ti, Calie») parece expressar o anagrama de Alice, tal como Carlos de Oliveira transformou Ângela em Gelnaa. Tudo neste livro de 43 páginas forma um duplo registo no qual as batalhas, as prisões, as mortes e os amores dos protagonistas são um reflexo discreto da vida verdadeira do poeta – com os seus problemas, obstáculos e dificuldades quotidianas. De modo hábil e feliz, Daniel de Sá ergue a voz do seu poeta de Granada e proclama em cada poema o inventário de um percurso. Nesse caminho cabe o amor. Umas vezes o amor da mulher amada («A visão da minha amada é a minha alegria») outras vezes o amor dos filhos prisioneiros («Se eu tivesse o mundo, trocá-lo-ia pelos meus filhos») ou ainda o amor na brevidade do tempo: «A minha amada / faz-me a vida mais curta. / Junto dela / todo o tempo é breve.» A vida em Granada tem um calendário próprio: «O camponês deseja o Verão / para colher os frutos do seu trabalho. / Mas o guerreiro teme-o / porque é o tempo de matar e de morrer.» O título do livro vem do poema «As rosas de Granada» como prenúncio de um exílio na página 36 («Quantas vezes hei-de chorar-te, Granada?») que a página 40 acentua: «Oh, como estou longe agora da minha amada! / Não posso ver a luz dos seus olhos / nem sentir a maciez do seu corpo. / O orvalho nas rosas são lágrimas.» Na sombra deste livro existe a verdadeira guerra entre El Zagal e Boabdil depois de o segundo ter roubado o trono a seu pai (Muley Assam) mas com a vitória final de Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Boabdil partiu para o exílio de Marrocos depois de chorar Granada e a morte da sua amada Morayama. Tudo isto aconteceu em 1585 mas a poesia faz uma aproximação, ligando de novo tudo o que o Tempo separou. (Editora: Ver Açor Lda, Design gráfico: Helder Segadães) --

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por José do Carmo Francisco às 13:58

Quinta-feira, 27.11.14

«os mortos tratam-se por tu» de fernando grade

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Cinquenta anos depois da estreia em livro (Sangria – Guimarães Editores), Fernando Grade celebra a efeméride com este Os mortos tratam-se por tu. Desde 1962 o autor assinou 29 títulos de poesia, 3 de prosa e 1 de teatro, além da sua participação em volumes colectivos onde se inclui a colecção Viola Delta em publicação permanente desde 1977. A enumeração de mais de mil nomes de mortos queridos é uma homenagem e, pela memória convocada, uma forma de poesia. Entre os nomes há gente não só das Artes e das Letras (Soeiro Pereira Gomes, Eduardo Guerra Carneiro, Mário Ventura Henriques, José Gomes Ferreira ou Maria Helena Vieira da Silva) mas também do Desporto: Matateu, Barrigana, José Travassos, Artur Quaresma, Vítor Baptista. Amália Rodrigues surge como «ladra de rosas (amarelas)» e o seguinte verso no inventário é «o ladrão de coelhos». Ora ladrão de coelhos pode ser lido como segundo sentido de «Os mortos voados». Os mortos que voaram (partiram) para uma terra onde a verdade é a norma. Eles são o passado, o que não regressa. O ladrão de coelhos é a figura que não volta, já ninguém cria coelhos em casa e, tal como as galinhas, os coelhos são criados em instalações industriais. O ladrão de coelhos é a legenda de um tempo passado, um tempo que, como os mortos, voou para o alto, lá no meio azul das nuvens. Neste registo surge o nome do Catitinha. Ele andava pelas praias da Linha de Cascais, Sintra e Oeste para avisar os meninos e as meninas de que devem ter cuidado ao atravessar a estrada. Sempre vestido de fato completo, o Catitinha na praia era o alvoroço e o desconcerto. Diziam que um filho seu tinha sido atropelado. Quem sabe? Talvez sim. Dizem que não há fotografias do Catitinha. Fernando Grade (que nasceu na Praia da Poça) cola o seu retrato ao lado de grandes nomes das Artes e das Letras, da Política e do Desporto. O Catitinha não morreu. (Edições Mic, Capa: Fernando Grade, Notas: David Mestre, José Fernando Tavares, Nuno Teixeira Neves, Poema: José Manuel) --

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por José do Carmo Francisco às 09:33


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