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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 12.11.14

«poesia, um dia» de carlos alberto machado, hélia correia, jaime rocha, josé mário silva, margarida vale de gato e miguel-manso

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Este livro integra um poema de Ruy Belo («O Portugal futuro») sobre o qual, em Setembro de 2012, um grupo de poetas trabalhou novos poemas, numa residência literária organizada pelo Biblioteca Municipal José Baptista Martins na Foz do Cobrão. Margarida Vale de Gato, no seu poema, escreve: «Era ontem um peixe sufocado o meu país / hoje súbito tanta gente buscando brilho de água / que se move.» José Mário Silva, por seu lado, afirma: «A grande corola das possibilidades / só se encolhe quando ficamos quietos.» Entretanto Jaime Rocha proclama: «E eu amo as casas e as árvores como o poeta as amou / dentro das palavras / porque elas não morrem nunca / são levadas pelos pássaros para reconstruir um país novo.» O resultado final assinado por estes três poetas em 15-9-2012 é «Poema ingénuo comprometido»: «O que é um país à procura de futuro? / Coitado de um país que procura um futuro / e só encontra muros e cinza. /Um país sem luz, sem geografia / com uma mágoa metida no tronco. / Um país doente que rói os ossos / e bebe água por um tubo pequeno. /Um país invadido por um deserto / sem palavras, um país final. / O que é um país à procura de futuro? / Um país que se levanta inteiro / numa tarde quente.» Miguel-Manso assina «A falha do Tejo» na página 34: «abriram um centímetro cada / mil anos estas portas / o rio mudou sete vezes de plano, escavou / a profundeza onde já não cai / há milénios / de antiguidade ainda mais absurda / a rocha esbanjou cinco mil metros de tamanho, erodiu / tornou este coração fendido e pardo / onde nidificam os grifos.» Carlos Alberto Machado mistura no seu poema a paisagem e o povoamento: «a voz erguida do poeta retorna clareada / e as palavras tangem a superfície das águas / do rio que deixou de saber como chegar ao seu destino / rio interrompido / interrompida vida dos mortos que a vida tem / falhas que não respondem à ferida que as faz / às portas de ródão os grifos / vigilantes.» Por fim Hélia Correia celebra num poema («Mãe Cargaleiro») toda a maternidade a partir da imagem da mãe do pintor: «Não ama / nem os festejos / nem as invernias, / ama somente o filho e tudo aquilo / que lhe pode ensinar, / isto é lançar a praga / e a tesoura / e uma espécie de método que leva / a que tudo se ajuste e se detenha / na vertical.» Ruy Belo também podia ter o seu nome na capa deste livro porque um seu poema está na página 17 e porque passava férias de infância na Aldeia da Mata, do outro lado do Tejo. A geografia é mais importante do que a História – já dizia Vitorino Nemésio. (Editora: Companhia das Ilhas, Capa: Orlando José Martins Ruivo) --

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por José do Carmo Francisco às 11:24

Quarta-feira, 12.11.14

«averbamento» de paulo da costa domingos

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Em 1986 assinei na Revista Seara Nova o artigo «Poesia Portuguesa anos 80 – algumas direcções» no qual me referia a Paulo da Costa Domingos e à sua poesia. Tal como em Asfalto, 4, Patchwork e Violeta Náutica, a sua poesia actual não hesita em chamar as coisas pelos seus nomes: «Havia que cumprir objectivos: / estudar, casar, inscrever num partido/ arranjar emprego. Ou melhor: / inscrever num partido para poder / estudar, casar, arranjar emprego». Quem escreve «deportado pelo novo regime ortográfico» sente-se «expulso do coração da fala» e só pode repudiar as «Hordas despojadas de privacidade / a troco do holograma do acesso / a um nirvana de crédito, órfãos / em permanente estado de fome / à espera de acolhimento / num patrão». Quando o real não anda nem desanda («A igualdade não fez de nós / indivíduos: transformou-nos numa frota») então a única saída é quando «Julga-se que a lógica é / salvar os ricos e esperar/ que eles deixem cair / dos seus sacos a abarrotar / de dinheiro, algum / na praça pública.» Ou dito de outra maneira: «Talvez por decreto d´óbito e / acordo da cristandade e dos outros / ela morra: a economia de mercado.» Impresso na cor e nas linhas do velho papel selado, o livro exercita um contraponto da prosa perante a poesia: «Pouco ou nula lealdade nos obrigamos ou nos é exigida fora de recintos (e selectivamente) como a pátria, o clube desportivo, o apego à família. As epidemias talvez passem ao lado: o emprego, garante máximo do futuro, resta assegurá-lo sem fazer ondas.» (Editora: & etc) --

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por José do Carmo Francisco às 07:21


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