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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 07.07.14

fala de um menino de três anos na avenida almirante reis

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«Neste carro vai uma pessoa e dois pais. Os pais devem ter resposta para todas as perguntas, devem desfazer todas as dúvidas, devem saber tudo. Ser pai ou mãe não dá férias nem tempos livres, é um dever para toda a vida, vinte e quatro horas por dia. Os avós também não são pessoas porque aparecem no lugar dos pais. Outro dia o meu avô Zé estava comigo num escorrega grande quando uma senhora o chamou. Era um menino que queria roubar os meus sapatos azuis. Eles estavam ao lado do escorrega pequeno. A minha avó Maria caiu duas vezes; uma à porta do Hospital e outra numa festa de marchas populares de velhotes. Quando eu fui ao doutor Marcelino por causa da pilinha roxa julgava que o avô Zé podia mostrar as costas que estão cheias de borbulhas mas não porque o doutor Marcelino é médico só de crianças. Quando eu estava na festa dos velhotes não queria que a avó fosse à frente da marcha mas ela caiu depois no caminho para o lanche. Quando voltámos para casa eu vim no táxi do Manel que também é pai de duas meninas e por isso não é uma pessoa. O táxi é muito grande e eu tenho de ir com o cinto apertado porque ele não me deixa ir em pé no banco de trás a ver os outros carros. O meu tio Victor faz-me cócegas e diz para eu tirar a chupeta. Ele é pai de dois meninos e uma menina, por isso não é uma pessoa. No táxi do Manel só eu era uma pessoa. O meu avô Passarinho tem uma casa ao pé do mar e com os binóculos vê os barcos de corrida a levantarem espuma branca. A minha avó Jacinta não me deixa mexer no lume da lareira, não quer que eu me queime. Por isso só os grandes podem atirar cavacas para a fogueira. Eu sou uma criança e sei que sou. Para as crianças tanto as lágrimas como os beijos são sempre de graça. Não têm preço. A ternura não é um negócio, não se compra nem se vende.» --

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por José do Carmo Francisco às 18:09

Segunda-feira, 07.07.14

leituras de 2009 - «lábio cortado» de rui almeida

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Sabe-se (Erich Fromm) que o homem é o único animal para quem a própria existência é um problema do qual não pode fugir e que só ele pode solucionar pois só ele pode aborrecer-se, ficar descontente e sentir-se expulso do Paraíso. Este livro de Rui Almeida venceu o Prémio Manuel Alegre 2008 da Câmara Municipal de Águeda e reflecte sobre essa circunstância: «O homem que se olha ao espelho sabe / que vai morrer. Não sabe quando ou como / mas reconhece a finitude da vida / – da sua vida, de cada vida.» Poeta jovem (n. 1972, Lisboa) Rui Almeida sabe que o corte («É o lábio cortado que molha o ventre») pode ser lido em sentidos vários – desde um corte real provocado pela escaramuça de um quotidiano de luta e hostilidade ao corte figurado entre duas maneiras de fazer poesia. De um lado a canção; do outro a reflexão. Sem esquecer a filosofia à volta do poema enquanto objecto: «À pequena raiz do poema / chega a memória como um centro / Algo mais do que o ruído metódico das sílabas / e desaba paulatinamente na mão / que molda a frase, pousada na caligrafia.» Num primeiro livro o poeta fala sempre de si: «Esta coisa de estar parado a assistir a nada / consciente da cor de cada objecto à minha frente / enquanto a visibilidade se fecha dentro de um candeeiro». Um poema regista a violência como banalidade («Quando o mundo nos entra com violência / para dentro do peito soluçamos») mas outro poema já advoga o encontro e o amor: «Tudo será dito sem memória nem futuro / Sujeito à solidão das vagas / Porque só as pessoas se amam». (Editora: Livro do Dia, Capa: Inês Ramos, Nota apresentação: Paulo Sucena) --

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por José do Carmo Francisco às 12:11


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