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Transporte Sentimental



Domingo, 29.06.14

novas leituras de 2009 - «as mulheres de henry james» de carlos céi e silva

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Daisy Miller é uma das personagens mais famosas da obra de Henry James (1843-1916) mas este livro envolve diálogos imaginados não só com esta mas também com outras figuras: Catherine, Mary Bartram, Eugénia, Nona Vincent, Isabel e a preceptora de Henry James. As conversas entre o autor e Henry James giram à volta das mulheres («Uma mulher feliz não é estimulante») e da escrita («As histórias são mais importantes que a vida») mas desaguam no Mundo: «A Humanidade não pára, renova-se a cada suspiro, a cada perda, a cada partida. O que adoece e morre são as pessoas, não a Humanidade». Noutras conversas Henry James defronta as suas personagens em diálogo: Catherine: «No meu tempo não éramos nós que sofríamos demais. Eram os senhores, homens pomposos, que fumavam charutos e bebiam xerez mas faltava-lhe sempre alguma coisa. Uma companhia feminina inteligente, por exemplo». Henry James: «Não concordo consigo. O que um homem procurava numa mulher não era propriamente a inteligência». Catherine: «Por isso é que nunca me concedeu tais virtudes, iria ficar mal visto. O senhor e todos os homens que, como o senhor, estão habituados ao exercício do poder e à superioridade». (Fica uma ideia da aventura que é ler este livro escrito por um psicólogo sobre um autor que inundou de psicologia os seus romances). (Editora: Coisas de Ler, Capa: Pedro Salvador Mendes) --

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por José do Carmo Francisco às 09:52

Sábado, 28.06.14

«temor único imenso» de rui almeida

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Depois de «Lábio cortado» (2009), «Caderno de Milfontes» (2012) e «Leis da separação» (2013), o poeta Rui Almeida (n.1972) que coordena o Blog «Poesia distribuída na rua» regressa à edição em livro com este «Temor Único Imenso». Em Poesia a acaso não existe mas por acaso o livro mais recente que li e anotei neste espaço («Sem prazo de validade» de José Correia Tavares) inclui o poema escrito na morte de Carlos de Oliveira (1.7.81) com referência a um verso de Sá de Miranda «o sol é grande, caem co´a calma as aves», verso esse que abre este livro de Rui Almeida. Outro dos poetas referidos por Carlos de Oliveira é Aragon que com humildade avisou: «car j´imite, tout le monde imite, tout le monde ne le dit pas». Aragon escreveu à maneira de Camões e Carlos de Oliveira trabalhou seu poema sobre o trabalho de Aragon, praticando assim uma dupla homenagem. Toda a literatura é uma homenagem à literatura. No caso deste livro de Rui Almeida as referências são Jorge de Sena, Sá de Miranda, Ruy Belo, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge e Fiama Hasse Pais Brandão. Este livro integra 29 poemas de 10 versos e um de 9 versos mas a aves que o povoam são mais do que pássaros vivos pois são metáforas do Homem, do Mundo e da História. Porque ao conceito de «ave» se junta a ideia de «viagem» e «vagabundagem»; não por acaso em muitas aldeias portuguesas nos anos 50 se chamava «ave» a quem aparecia na povoação por pouco tempo. Como no poema da página 1: «Eram de novo as aves e morriam / Doutras armas porém do mesmo modo / Eram de novo e era de novo outono». A sobrevivência das aves e também do Homem está no poema da página 8: «Diante das aves caem migalhas / Silenciosos pedaços do mundo / A prometer sustento. Para as aves / Fazem parte da existência, do / Convívio com tudo o que existe sempre». O futuro está nos ovos das aves e nos sonhos dos Homens como no poema da página 14: «De um lado ao outro aves se aproximam / Dos territórios onde vão nascer / Suas crias, aves novas, libertas. / Dentro do ovo de que nascem, aves / Transformam-se em matéria que será / Corpo alado, representação de / Vida emergente a deixar-se voar / Para outros territórios distantes / De onde se deslocam novas aves.» (Editora: Labirinto, Design: Daniel Gonçalves, Coordenação: Victor Oliveira Mateus, Colecção: contramaré) --

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por José do Carmo Francisco às 16:58

Sexta-feira, 27.06.14

josé correia tavares - «sem prazo de validade»

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José Correia Tavares (n.1938) estreou-se com «A flor e o muro» (1962) o que significa já ter 52 anos de percurso poético até este recente «Sem prazo de validade» que integra três livros («Beco do Imaginário», «Como risquei diamantes» e «Travessa da Fantasia») em 152 páginas. O ponto de partida é um poema antigo: «Pardal / recuso-me a emigrar / vou comendo as migalhas / que deixam nas toalhas / enquanto o vendaval / durar». O ponto de chegada é um poema moderno: «Sem dares por isso / passaste duas folhas / E as páginas par e ímpar / que não leste / continham a salvação da tua alma». No intervalo entre os dois poemas (1963-2009) o livro surge como uma «homenagem à literatura» no sentido da hábil mistura do «estilo» com o «sangue pisado». O sangue pisado aparece no poema «Tinha que ser» («Vivendo em fascículos / (por etapas?) / normalmente a malta / safa-se / mas na confusão / há sempre um filho dum cão / que nos salta ao caminho / E morremos assim / à Joaquim Agostinho») ou no «Autocarro 42»: «Não se lavam os ciganos / ciganas são piolhosas / mas para nós lorquianos / mesmo assim cheiram a rosas. / Cheiram às rosas jasmins / os cravos na Andaluzia / seus gaiatos querubins / - milagres da poesia». Por sua vez o «estilo» ou a escrita surge nas referências a Pablo Neruda, Eugénio de Andrade, Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira. Vejamos o primeiro: «Nas condições mais precárias / dominantes incertezas / por tuas mãos perdulárias / arbustos e araucárias / o pão em todas as mesas» em «Revisitar Neruda». Vejamos o segundo em «Para nos deslumbrar»: «Aurora boreal depois da neve / domínio dos últimos ventos / sempre tão glaciais / ressuscitando arde uma rosa / entre o branco e o vermelho / na poesia de Eugénio de Andrade». Fixemos o terceiro em «Manuel da Fonseca»: «Depois da barba / ficares a olhar para o espelho / porquê / se é sempre um escritor mais velho / que o Poeta vê?» Por fim o quarto em «Micropassagem»: «Ler não / hoje vou rezar passando-a entre os dedos / tua poesia / fio de grainhas / uma das poucas litanioladainhas / por nossalma. / No lá fora / o sol é grande / caem com a calma de suores suaves / as aves não mudáveis / perto sabendo embora / de outras rapinantes refrigério. / E és nem depois nem antes / Inteiro / também em teu rosário / cada uma das partes um mistério». Como bem assinala o prefácio de Liberto Cruz «a poesia não tem prazo de validade» (Editora: Húmus, Capa: António Pedro, Prefácio: Liberto Cruz) --

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por José do Carmo Francisco às 15:17

Quinta-feira, 26.06.14

novas leituras de 2009 - «álbum de caricaturas» de rafael bordalo pinheiro

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Rafael Bordalo Pinheiro começou a fazer caricaturas no Calcanhar de Aquiles. Seguiu-se A Berlinda, O Binóculo, A Lanterna mágica, a Ilustración de Madrid, a Ilustración Española y Americana e a Illustrated London News. Este seu álbum intitulado «Frases e anexins da língua portuguesa» tem um prefácio de Júlio César Machado, escrito em 1876 no preciso tempo em que Bordalo estava no Brasil: «Correu um dia o boato de que ele era fraco em desenho e, não se fazendo nunca reparo disso a outros que nem desenho nem talento tinham, fizeram-no pagar amargamente a ele o que tinha em talento pelo que pudesse faltar-lhe um pouco em desenho. A insistência e obstinação desses boatos deriva quase sempre da vontade de inventar pretexto para rebaixar os créditos e abalar a estimação em que um homem de aptidão principia a ser tido. A inveja é talvez o único sentimento engenhoso dos portugueses: frouxos de imaginação para tudo mais, são, nesse ramos da sagacidade humana, vivos, espertos e intrépidos.» E conclui: «O caso é que o homem passava por ser aí muito querido e ninguém tratou de o auxiliar quando veio a ocasião disso. Fazem-se conselheiros, fazem-se deputados, fazem-se desta comissão e daquela e da outra, fazem-se medalhas mas não se fazem Rafaéis Bordalos». (Editora Frenesi, Paginação e grafismo: Paulo da Costa Domingos e Telma Rodrigues) --

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por José do Carmo Francisco às 19:17

Quarta-feira, 25.06.14

novas leituras de 2009 - «a corte luso-brasileira no jornalismo português»

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Ernesto Rodrigues (n. 1956) é poeta, ficcionista, crítico, ensaísta e tradutor mas tem uma paixão pelo jornalismo: assinou «Mágico Folhetim – Literatura e jornalismo em Portugal» (Editorial Notícias) de 1998 e «Crónica Jornalística do século XIX» (Círculo de Leitores) de 2004. No bicentenário da chegada da corte joanina ao Brasil, reúne neste livro textos significativos de 109 jornais da época com nomes tão insólitos como A abelha portuguesa, O amigo do Povo, o Liberal, o Patriota, o Correio do Povo, o Génio Constitucional ou O Observador onde se pode ler por exemplo: «A corrupção que resultou da posse da Ásia e dos mais domínios descobertos e conquistados pelos nosso antepassados, foi a primeira causa da nossa decadência; a intolerância e o fanatismo religioso introduzido por D. João III perdeu a D. Sebastião e com ele expirou a glória de Portugal». Um segundo exemplo é o texto de Francisco Solano Constâncio sobre a abolição do comércio de escravos no Brasil em 1815: «A escravatura é o pior achaque do Brasil e há muito tempo que deveríamos ter começado a tomar medidas gerais e constantes para civilizar os índios e emancipar gradualmente os pretos». Um livro de 302 páginas que interessa em especial aos estudantes não só de história mas também de jornalismo. Mas que pode interessar os leitores em geral pois estão em causa as repercussões da ida da Corte para o Brasil em 1807 numa decisão que teve tanto de imprevista como de organizada – D. João não chegou ao Rio como um exilado mas sim como um chefe de Estado em funções. (Edição de Ernesto Rodrigues com apoio da CLEPUL, da FCT e da Excellent Óptica) --

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por José do Carmo Francisco às 22:35

Terça-feira, 24.06.14

juca, levi condinho, luís alberto ferreira, josé pereira, andrade e antónio bárcia

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A imagem de Júlio Cernadas Pereira (1929/2007) numa separata do «Mundo de Aventuras» de 1953 foi-me oferecida por Levi Condinho, infatigável coleccionador destes efémeros retratos. Falando com Luís Alberto Ferreira numa tarde de Chiado logo surgem memória desse tempo anterior a 1949 quando a Associação de Futebol de Lourenço Marques desafiou os luandenses para um jogo de selecções mas sem «pretos» por causa dos hóspedes sul-africanos dos hotéis laurentinos. O seleccionador de Angola restringiu a escolha mas levou dois «pretos»: à chegada da comitiva angolana esses rapazes apresentaram-se de capa e batina. Quando um director local exclamou «Trazem dois pretos!» um dos rapazes respondeu «Pretos, não; estudantes!». A gargalhada geral calou o preconceito. Falámos também do «pássaro azul», que saiu a mal de «Os Belenenses» por causa de uma dívida de seis mil escudos em 1968 quando foi para o Beira-Mar. Diz-se que José Pereira voltou já viúvo de Barcelona ao seu Caramão da Ajuda, às suas origens. Sobre a equipa de 1945/46 que venceu em Elvas o campeonato nacional de futebol, o meu amigo António Bárcia falou com Andrade, que era ao tempo o mais novo jogador dessa equipa de campeões. Passaram quase 60 anos (1946-2014) mas ele, que era o mais novito da equipa, ainda está para as curvas. Tempo ainda para uma história de Luís Alberto Ferreira com a equipa do «Elvas» ao tempo na I Divisão. Um dia, cansado de ouvir falar do «falecido» provedor da Santa Casa da Misericórdia, numa festa para inauguração de melhoramentos numa vila alentejana, escolhido pelos colegas, o Rebelo do «Elvas» agradeceu as atenções dispensadas à equipa e terminou o seu improviso com um inesperado «Viva o morto!» --

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por José do Carmo Francisco às 09:38

Segunda-feira, 23.06.14

novas leituras de 2009 - «pimenta de castro» de rocha martins

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O general Pimenta de Castro, sobre quem Machado Santos escreveu que «tomou a sério o seu papel de chefe do Governo de uma Nação livre; daí a sua queda, a sua prisão e o seu desterro» foi convidado pelo presidente Manuel de Arriaga em 23-1-1915 para formar governo e convocar eleições gerais: «O teu austero e belo nome servirá para garantir a genuinidade do sufrágio, a conciliação e a paz na República e no Exército. Peço-te em nome da República e da Pátria que não me abandones. Não te esquives, não venhas com evasivas». E logo surgiu logo um problema: o Parlamento estava sem deputados e senadores, os eleitos de 1911 tinham mandato para três anos e não podiam continuar em 1915 mas com as eleições marcadas para 7 de Março de 1915, um grupo queria reunir-se em S. Bento a 4 do mesmo mês. O Governo tomou providências para que a reunião de 4 de Março não se efectuasse e logo surgiu a palavra «ditadura». Para alguns especialistas de Direito a passagem da Constituinte a Legislativa tinha sido uma fraude, além de que já há nove meses que a Câmara estava parada. Este é o ponto de partida deste sexto volume da colecção «Ângulos da História», todos da autoria de Rocha Martins (1879-1952) de quem os ardinas de Lisboa diziam a vender o República: «Fala o Rocha, tá o Salazar à brocha!» (Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia) --

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por José do Carmo Francisco às 21:29

Domingo, 22.06.14

novas leituras de 2009 - «pessimismo nacional» de manuel laranjeira

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Foi no jornal «O Norte» de Ribeiro Seixas e Feio Terenas que, em 1907 e 1908, Manuel Laranjeira (1877-1912) publicou estes dois artigos sobre o Pessimismo Nacional. A partir da vivência do suicídio de grandes figuras das letras, das artes e do pensamento (Antero de Quental, Soares dos Reis, Camilo Castelo Branco e mesmo Alexandre Herculano que também fugiu da vida) Manuel Laranjeira afirma: «Neste malfadado país, tudo o que é nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa». E prossegue: «Diz-se que a sociedade portuguesa vai atravessando uma crise sobreaguda de sombrio pessimismo, o que é uma verdade de todos os dias; numa terra onde homens de génio como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade onde o pensamento representa um capital negativo para jornadear pelo caminho da vida; num povo onde essa minoria intelectual que constitui o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos – o diagnóstico impõe-se de per si. O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se o cepticismo. E, à medida que o mal-estar colectivo se vai resolvendo quotidianamente em tragédias individuais, o sentido da vida em Portugal parece cada vez mais fúnebre e mais indicativo de que vamos arrastados, violentamente arrastados por um mau destino, para a irreparável falência e de que nos afundamos definitivamente». (Editora: Frenesi, Capa: Paulo da Costa Domingos sobre óleo de António Carneiro, Paginação: Telma Rodrigues) --

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por José do Carmo Francisco às 22:39

Sábado, 21.06.14

novas leituras de 2009 - «poetas de sempre - volume x»

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A partir de um projecto editorial que teve início em Agosto de 2000, este é o volume X de uma série intitulada «Poetas de sempre». Inclui poemas de 27 autores: Albina Dias, Alda Cabral, Alfredo Martins Guedes, Angelino Pereira, Barrosos da Fonte, Carlos Teles Gomes, Cristino Cortes, Delmar Maia Gonçalves, Fernando de Castro Branco, Fernando Pinto Ribeiro, Isabel Gouveia, José Manuel Duarte Filipe, Julião Bernardes, Júlio Pereira Dinis, Manuel António Gouveia, Manuel António Pereira, Manuel Canela, Maria Albertina, Maria Crisantina, Maria da Glória Cabral, Maria de Lourdes dos Anjos, Maria Helena Dinis Prata Tomás, Maria Luísa Pousão Sancho, Maria Nair Telles, Maria Natália Miranda, Maria Odília Ribeiro e Ofélia Bomba. Cristino Cortes (n.1953, Fiães) viu o seu primeiro livro («Ciclo do amanhecer») editado pelo jornal «Poetas & Trovadores» onde tinha publicado o seu primeiro poema. Escolhendo um poema seu, divulgamos toda uma geração que não tem acesso ao «J.L.», às revistas «Ler» e «Os meus livros», às «Correntes de Escritas», à «Câmara Clara», os autores «marginais, periféricos e desalinhados com o cânone» como lhes chamou Eduardo Prado Coelho. Eis o poema «Volta saloia»: «Foi um belo passeio, aquele que ontem demos, o mar / unindo ao campo, pequenas aldeias, terrenos, parcelas / visivelmente abandonadas, casinhotos, em janelas / de ver o verde, flores amarelas, a gente a passar…/ Tão perto da cidade! Paisagem bucólica e rural / é um gosto para os olhos, uma alegria para a alma / de clorofila se enche, penso também de paz e calma / esse outro modo de viver, puro horizonte, natural. / Não vimos burros, talvez por ser feriado, dia santo / por de quatro patas já poucos haver nesta agricultura / mas lembrei-me de Cesário, pequena homenagem à dura / realidade, dele e nossa, mas ele deixou, único, um canto. / É outro ar, outra luz, todo um outro cheiro, este acordo / do homem e sua volta – aqui o sonho, fixo e recordo». (Editora: Cidade Berço, Coordenador: Barroso da Fonte, Capa: José António Nobre) --

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por José do Carmo Francisco às 14:42

Quinta-feira, 19.06.14

novas leituras de 2009 - «quadros alentejanos» de brito camacho

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Este livro de Brito Camacho (1862-1934) figura ao lado da melhor literatura sobre o Alentejo: entre a poesia do Conde de Monsaraz («Musa Alentejana») e a prosa de Manuel da Fonseca («O fogo e as cinzas»), entre os ceifeiros e carreiros de Francisco Bugalho em «Poesias» e os feitores e negociantes de gado de Mário Ventura em «Vida e Morte dos Santiagos». Nas suas 206 páginas há todo um certo tempo português e alentejano, articulado a partir das memórias do autor. Por exemplo a despedida da aldeia para ir estudar longe de casa: «Tinha a certeza de que na vila não se jogava o eixo, nem o funcho nem a abelharda, jogos em que eu não era dos últimos, nem se jogava o pião, jogo em que eu era dos primeiros! A cada lugar me prende uma recordação e cada recordação é já uma saudade». Ou então o sentimento religioso: «Raro era o domingo em que a igreja não se enchia. O mulherio ocupava o corpo da igreja. Os homens enchiam as coxias, o guarda-vento e o coro, distribuindo-se ao acaso, sem preocupação de categorias. Ninguém ajoelhava à caçadora, só com um joelho em terra». Ou ainda as guerras políticas locais: «As paixões políticas eram muito vivas na minha terra; os partidos digladiavam-se ferozmente em todos os campos; um dia de eleições era um dia de batalha; muitas listas entravam na urna tintas de sangue jorrando de cabeças partidas». Ou por fim as histórias incríveis em que a vida sorria à morte: «o tio José Branco um dia recolheu ao hospital, foi dado como morto e logo transferido para a igreja para se enterrar no dia seguinte. Sucedeu que pela noite fora o velhote se aliviou da bexiga e isso lhe valeu não ser enterrado vivo». A leitura destes 6 quadros alentejanos de ontem é um enorme prazer para o leitor de hoje. (Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia) --

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por José do Carmo Francisco às 12:54

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