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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 30.05.14

de jesus correia a natividade corrêa ou a «humanização circunstancial da maçã»

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O poeta Levi Condinho é um apaixonado ecléctico. Nas artes, nas letras e na vida em geral os seus interesses são múltiplos, os seus gostos são variados e as suas atenções visam objectivos dispersos no Tempo e no Espaço. Coleccionador incansável de separatas do «Mundo de Aventuras», este meu amigo ofereceu-me a foto de Jesus Correia, ele também ecléctico praticante de futebol no Sporting Clube de Portugal e de hóquei em patins no Paço de Arcos. Foi um dos cinco violinos e jogou nas selecções nacionais respectivas. Com a foto veio o catálogo para a exposição de pintura de C.A. Natividade Corrêa na Galeria Ulmeiro – Avenida do Uruguai – no ano de 1972. Citando Sophia de Mello Breyner na sua «Arte Poética III» Levi Condinho começa: «A coisa mais antiga de que me lembro é de um quarto em frente ao mar dentro do qual estava poisada em cima de uma mesa uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira.» E segue: «É esta irrecusável felicidade que é preciso chegarmos a possuir e a dominar como os segredos do nosso corpo, do teu corpo, do outro corpo, dos outros corpos, de um sexo, de um pão, de uma árvore, de um barco, do ar que nos envolve. E penso não negar com tudo isto nenhuma concepção materialista das coisas. Porque eu parto das coisas para o grito sem limites do desejo que me oprime e me força a estalar. Tenho a certeza de que a maçã estala, ela própria, no seu interior, na dialéctica de forças que a definem como objecto.» Entretanto veio um gajo da PIDE que não gostou do texto (corpo, sexo, desejo, opressão, materialismo) e mandou retirar o catálogo da montra da Livraria Ulmeiro. Foi em 1972… --

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por José do Carmo Francisco às 09:54

Quinta-feira, 29.05.14

gabriela ruivo trndade - «uma outra voz»

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O título deste livro de Gabriela Ruivo Trindade (n.1970) remete para uma outra voz ao lado das cinco vozes que integram a narrativa. São quatro vozes em Estremoz e uma em Lisboa mas os blocos de prosa são organizados por uma ordem que não é cronológica – 1954, 1960, 1978, 1974 e 1927. Essa outra voz, a sexta voz do discurso deste livro, pode ser a da autora e narradora - o que faz da concepção de «Uma outra voz» uma homenagem à literatura. Por exemplo a figura do escritor Sebastião da Gama surge na página 41 («O poeta morava no segundo andar de uma casita no Largo Espírito Santo») tal como os livros surgem na página 74 («A Morgadinha dos Canaviais, Os Serões da Província, As Pupilas do Senhor Reitor, Uma Família Inglesa») ou as livrarias na página 117: «Por essa altura conhecemos o Zé Ribeiro e a Lúcia. Descobriste a Ulmeiro numa das tuas caminhadas matinais.» Dentro da livraria Ulmeiro a ignorância dos Pides dá origem a equívocos: «E se não se pode falar de Lenine nem de Estaline, também não pode falar de Racine!». Lisboa não está tão longe de Estremoz como pode parecer. Basta ver a questão dos panfletos («Lembrei-me dos papéis escondidos nas gavetas da oficina dos tios») ou como o primo Zé Eduardo segue o mesmo caminho (Angola) do tio Mariano embora muitos anos depois: «O primo Zé Eduardo lá seguiu para Angola. Toda a família ficou em sobressalto.» Esse mesmo tio Mariano que ensina à sobrinha à cabeceira da cama: «A gente só tem medo daquilo que é maior que nós. Por isso, para combater o medo só há uma solução: fazermo-nos maiores que ele». Lídia, essa menina, tinha ouvido a mãe explicar-lhe um beijo na sacristia («Aquilo que tu viste foi um disparate, não torna a acontecer») afinal a mãe («mulher amarga, cinzenta, afundada em melancolia») disfarçava sempre tudo seja nos pensos higiénicos («Ó Maria, leva daqui este pano com mercurocromo e põe-no no lixo!») seja no dia do casamento da filha adoptada: «O amor também nos aperta às vezes o coração. Tantas vezes! Mas também alarga». Na página 280 um padre explica o amor («O amor é a única coisa que fica quando tudo se vai») como o único valor perene da vida mas já na página 194 a juventude se opõe à morte («a juventude é o melhor remédio contra a morte») e na página 195 se compara o ódio ao amor: «O ódio é um sentimento muito pesado. O amor, pelo contrário, torna-nos leves.» A dicotomia «vida-morte» surge na terceira voz («Morrer não dói nada. O que custa é estar vivo.») e coloca de novo a linha Lisboa/Estremoz quando em Lisboa um paraplégico («Este velho tem vinte e quatro anos») recorda um primo assassinado em Estremoz: «estou quase certo de que o primo Luís se dedicava a actividades clandestinas». Na cama dos hospital, o homem vítima dos tiros da polícia na manifestação pensa sobre o seu lugar no tempo («somos minúsculos, microscópicos, e pensamos que somos tudo e julgamos que temos um lugar no mundo») e sobre a sua morte: «Não sou nada. Não quero ser nada. E o pior é que, dentro de mim, nenhum sonho. Nenhum mundo. É isto a morte.» Depois da leitura apaixonada destas 331 páginas (Prémio Leya 2013) onde até o glossário se deve ler pode alcançar-se uma conclusão precária. Seja sobre a vida («Os rios não correm para trás») seja sobre a verdade: «a verdade não está em parte nenhuma. A verdade criamo-la nós, com as estórias que inventamos». (Editora: Leya, Capa: Rui Garrido, Foto da autora: Emanuel Ferreira) --

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por José do Carmo Francisco às 14:35

Quarta-feira, 28.05.14

novas leituras de 2009 - «sidónio pais» por rocha martins

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Rocha Martins (1879-1952) foi sempre um jornalista apaixonado pela História. Começou no Diário Popular, passou por A Vanguarda, Jornal da Noite, Ilustração Portuguesa e República. Fundou os semanários ABC em 1920 e Arquivo Nacional em 1932. Neste seu livro, escrito entre Abril e Outubro de 1921, Rocha Martins faz a sua reconstituição do tempo entre a «revolução» de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918, dia em que o presidente Sidónio Pais foi morto a tiro por José Júlio Costa. Sobre o fascínio exercido por Sidónio junto das mulheres escreve o autor: «Sidónio Pais conseguira, em poucos meses, captar o maior elemento de triunfo que existe: a Mulher. Não havia uma só que não adorasse o gesto nobre desse homem esbelto e, com o fetichismo da raça, com a paixão do instinto pelo seu futuro, não o julgasse um ser de eleição pronto a remediar todos os seus males. A correspondência recebida pelo Presidente da República tem o aspecto sacro de um livro de orações em favor da Pátria. A mulher é quem guarda o lar, quem o deseja tranquilo, alegre; é ela quem cuida dos filhos e por eles teme; a portuguesa, na sua maioria dona de casa, receando perder o esposo, sonhando sempre com melhores dias, encontra em Sidónio uma esperança e não queria desiludir-se. Era a eterna continuação da lenda medieval do príncipe matando o dragão para salvar a princesinha». (Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia) --

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por José do Carmo Francisco às 22:49

Terça-feira, 27.05.14

novas leituras de 2009 - anabela natário «portuguesas com história»

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Acaba de sair o mais recente volume desta série, dedicado às mulheres portuguesas do século XX. Ao todo são seis volumes, com início no século X. No campo das letras e das artes as biografias são as seguintes: Fernanda de Castro, Vieira da Silva, Helena Sá e Costa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Beatriz Costa, Maria Judite de Carvalho, Natália Correia, Maluda e Luísa Neto Jorge. Por uma questão de critério ou de espaço outros nomes poderiam figurar (Maria Ondina Braga, Maria Archer, Natércia Freire) mas o importante é sublinhar o facto de haver nestes volumes o «outro lado» da história. A começar pela questão das mentalidades e do papel que a sociedade portuguesa exige que a mulher desempenhe – muito à volta da cozinha, das crianças e da religião. Nesse aspecto concreto é curioso verificar as palavras de Natália Correia sobre o tema «filhos», ela afinal uma mulher que se casou quatro vezes: «A minha maternidade é universal e não biológica». Outras figuras da vida portuguesa como (por exemplo) Virgínia Moura e Catarina Eufémia (acção política), Amália Rodrigues e Cândida Branca Flor (música), Irmã Lúcia (vidente de Fátima), Vera Lagoa (jornalista) ou D. Branca (banqueira do povo), são também biografadas neste volume num total de 30 personalidades da vida portuguesa do século XX. Um olhar bem diferente sobre o tempo português. (Editora: Círculo de Leitores, Grafismo: António Diogo, Foto sobrecapa: óleo de Amélia de Sousa) --

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por José do Carmo Francisco às 19:18

Terça-feira, 27.05.14

«uma taça uma vida» de pedro gomes

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Depois da estreia em 2011 com um livro de 11 contos («Linha de cabeceira») em edição da «Padrões Culturais», Pedro Gomes, natural de Parceiros de S. João (n.1941) publica o seu segundo título – uma memória pessoal da odisseia «leonina» na conquista da Taça das Taças em Maio de 1964. A sua narrativa incide não só nos companheiros de aventura na época desportiva de 1963/64 mas também nos que, fora do campo, contribuíram para este sucesso europeu dos «leões»: «O homem da relva, os roupeiros, os massagistas, os médicos, os treinadores, os dirigentes, os familiares dos jogadores, a comunicação social». Além de Pedro Gomes, participaram nesta conquista desportiva europeia os seguintes elementos: Carvalho, Alexandre Baptista, Alfredo, Augusto, Bé, Ferreira Pinto, Fernando Mendes, Figueiredo, Géo, Hilário, José Carlos, David Julius, Louro, Lúcio, Mário Lino, Mascarenhas, Monteiro, Morais, Osvaldo Silva e Pérides. Os adversários sucessivamente derrotados pelos «leões» até aos jogos decisivos de 13 e 15 de Maio de 1964 em Bruxelas e Antuérpia com o «MTK» da Hungria foram os seguintes: Atalanta, Apoel, Manchester United e Lyon. Dois pormenores apenas: com os actuais regulamentos não haveria terceiros jogos de desempate e o SCP teria sido eliminado, foi a lesão de Hilário que possibilitou a chamada de Morais que marcou o golo da vitória na finalíssima. Há pormenores espantosos nestas páginas: Pedro Gomes revela que os cipriotas do Apoel eliminaram os noruegueses do Gjoevik Lyn por 7-0 no conjunto dos dois jogos quando o futebol na Noruega não eram assim tão «tosco» como muita gente julgava. Daí o mérito «leonino» na vitória de 16-1 sobre o Apoel de Chipre, ainda hoje record nos jogos da UEFA. Na esteira de uma frase de um dirigente do SCP («A grandeza do clube é devida aos sócios, a glória deve-se aos atletas») Pedro Gomes dedica a todos os 21 jogadores uma nota biográfica. Lembrando os vivos e os mortos, os ínfimos pormenores e os grandes momentos, as fraquezas e as forças de todos e de cada um, Pedro Gomes alcança aquilo a que a Literatura aspira – tal como numa oração que religa dois Mundos, junta de novo, na Palavra, tudo o que a Morte separou. (Prefácio: Bruno de Carvalho, Capa: Nuno Gomes, Título: Fernando Gomes) --

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por José do Carmo Francisco às 09:14

Segunda-feira, 26.05.14

com que então adoptar um cão é melhorar o nosso país?

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Lembro-me de uma crónica de Joel Neto no «Diário de Notícias» sobre um trambolho que integrado num grupo a falar para a TV se destacava dos outros por ter um cão ao colo. Ao ser questionado sobre o abraço ao animal, respondeu: «Então, é um ser humano como nós». O erro é transversal aos boçais e aos outros. Por exemplo Carlos Cupeto (professor na Universidade de Évora) escreve em O MIRANTE de 22-5-2014 um arrazoado («Simão e Matias») no qual tenta provar, com uma citação de Ghandi, que quanto mais animaizinhos de estimação forem adoptados pelas pessoas que nele vivem melhor será um país. Em primeiro lugar nem tudo o que Ghandi afirmou é, só por isso, uma verdade sem contestação. Todos os que estudámos os rudimentos do Direito, sabemos que os animais não têm direitos porque não podem ter deveres. Não é possível criar uma ordem jurídica de punição a delitos cometidos pelos bichos. As pessoas, por exemplo, têm direito ao bom nome mas, ao mesmo tempo, o dever de, no seu comportamento social, tudo fazer para manter esse bom nome. Todo o direito tem o seu reverso. No caso de Carlos Cupeto é de realçar o péssimo gosto de chamar «Simão e Matias» a dois animais, ofendendo as pessoas com esses nomes no seu Bilhete de Identidade. Simplesmente repugnante, este artigo. Já em «Notícias Magazine» de 25-5-2014 aparece Sandra Isabel Correia numa entrevista de página inteira na qual afirma que a sua família é constituída por si («eu») e pela «Corky» a quem chama «um cão de água português de 2 anos». Primeiro absurdo – se é «uma» (a Corky) não pode ser «um» cão de água. Será então uma cadela, a Corky. Segundo absurdo – a senhora tem mesmo uma família mas no momento de dar a entrevista repudiou, esqueceu e obliterou as suas origens. --

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por José do Carmo Francisco às 08:45

Sábado, 24.05.14

crónica breve para cr7 - mais do que alegria, o rumor do júbilo

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Escrevo hoje para ti na noite fria de Lisboa uma lenta, feliz e comovida crónica para a tua felicidade efémera mas forte no esplendor da relva verde. A décima Taça dos Campeões do teu Clube, o Real Madrid, leva também a tua assinatura no quarto golo. Uma época em cheio pois marcaste 17 golos em 11 jogos só na Liga dos Campeões, uma média espantosa e difícil de ultrapassar. Uma coisa do outro Mundo. Durante os 120 minutos deste jogo revoltei-me com o árbitro que teve medo de mostrar um vermelho logo de início, zanguei-me com o falhanço do guarda-redes da tua equipa que deu o golo do adversário mas o mais importante foi ter pensado nas pessoas para quem esta tua vitória também transporta um tempo de felicidade. Conheço-te desde os teus 11 anos quando chegaste a Lisboa vindo do Funchal (foi o Dr. Marques de Freitas que fez tudo para vires com o teu padrinho senhor Fernão), entrevistei-te muitas vezes nas páginas do jornal do nosso Sporting. Já morreu o jornal mas não morreu a nossa memória. Muitas vezes fui mais que jornalistas, fui amigo, ouvi os teus desabafos como uma vez no campo do União de Coimbra, um pelado ao pé da linha do comboio para Serpins. Estive ao teu lado quando pessoas como Aurélio Pereira, Carlos Pereira, Isabel Trigo de Mira, Paulo Cardoso, Leonel Pontes e Osvaldo Silva quiseram o melhor para ti. O Osvaldo Silva, onde quer que esteja lá na «terra da verdade», sem dúvida está feliz por ti. Como eu quando lembro os delegados, o senhor Atanásio, o senhor Rui Vide, todos os delegados daqueles anos em que andámos com a casa às costas (Óbidos, Rio Maior, Sarilhos Pequenos) e também o enfermeiro Fontinha, o discreto e competente Fontinha, que te valeu no célebre jogo de Outubro de 1999 em Pina Manique numa terrível manhã de Domingo, entre o nevoeiro, o frio e a chuva. --

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por José do Carmo Francisco às 23:32

Sábado, 24.05.14

novas leituras de 2009 - «histórias de amor» de josé cardoso pires

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Mais do que um livro trata-se aqui de uma lição de história da literatura. Estamos no ano de 1952: Victor Palla e Aurélio Cruz na editora Gleba criam a colecção «os livros das três abelhas» e publicam em Julho estas «Histórias de amor» que em Agosto os serviços da Censura retiram do mercado. José Cardoso Pires, então com 27 anos, escreve uma carta ao director dos serviços de Censura reclamando contra o abuso mas nada consegue. Ficou a história de proveito e exemplo para hoje: é possível pelo sombreado verificar no texto as palavras e expressões cortadas pela Censura: «dor de corno», «filhos da mãe», «saliva de beijos», lábios húmidos», «não me beije», «sua tonta» ou «conversa do catano». Sem esquecer que também cortou nomes de autores como Maiakowski, Eluard, Gide, Pessoa e Debussy. Além dos contos e da novela, este livro inclui as críticas de Óscar Lopes, Mário Dionísio e Luís de Sousa Rebelo – o único a quem, por viver em Londres, foi permitido denunciar o facto de a Censura ter retirado este livro do mercado. Lido em 2009, há neste livro de 1952 o vigor dum jovem escritor que queria dar o seu recado ao Mundo ao descrever a «rapariga dos fósforos»: «Deixei-a é certo, sozinha e a trincar fósforos. Mas que poderá uma pessoa, unicamente por si, quando se lhe depara uma rapariga tão jovem e com o corpo traçado pela boca esfaimada duma velha, uma rapariga que nada sabe do mundo nem nunca beijou um homem? A menos que um vento sagrado de justiça venha dignificar as razões ultrajadas, os gestos, o olhar.» (De notar na referência biográfica de JCP a ausência de Vila de Rei; passando da freguesia ao distrito sem referir o concelho) (Edições Nelson de Matos, Capa: Paulo Condez, Ilustração: Sónia Oliveira, Contracapa: Júlio Pomar) --

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por José do Carmo Francisco às 11:40

Sexta-feira, 23.05.14

novas leituras de 2009 - camilo castelo branco

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por José do Carmo Francisco às 11:02

Sexta-feira, 23.05.14

novas leituras de 2009 - camilo castelo branco

O espírito e o humor de Camilo iluminam estas páginas: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes». Camilo comenta o problema dos direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras». A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa», dirigida por Fernandes Tomás, merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização». (Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia) --

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por José do Carmo Francisco às 11:01

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