Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Transporte Sentimental



Quarta-feira, 23.04.14

crónica na pátria da chuva - à maneira de fernando alves

Image.jpg


Na varanda da casa das três meninas, o olhar de Paula suspende o tempo. É a mulher-menina no seu esplendor. Entre Ana e Margarida, o sorriso sereno de Paula faz, na tarde a declinar entre a campina e a serra, o que só um poema pode fazer: anular o presente porque alcança ser duas coisas. Ou sonho ou saudade. Sonho do futuro, saudade do passado. Sonho no olhar de mulher, saudade na voz de menina. No meio da pátria da chuva, o olhar de Paula respira um tempo que mistura a luz feliz da infância com as nuvens escuras do porvir. Sobe da terra, minutos depois do fim dos aguaceiros, uma placa escura de dúvidas sobre o dia de amanhã, os nomes das primas e das amigas da Faculdade que emigraram à procura de pão menos incerto e mais seguro seja na Grâ Bretanha ou na Austrália, seja nas Franças e Araganças onde foram parar. O sino da capela dá as horas da tarde mas não está ninguém para as receber. A vida não pára: o pastor saiu de manhã com os animais, Margarida acelera para Vila Velha, Ana foi a Évora, a mãe organiza o sabor e a paciência dos queijos, o pai desce vagaroso do tractor com abóboras entre o pó da terra e o óleo negro da máquina. Na varanda da casa das três meninas, o olhar de Paula é a mais inesperada vírgula na tarde. A tristeza, a melancolia e as sombras surgem no horizonte sem causa definida. Como as linhas invisíveis de uma música triste, uma velha pauta esquecida, uma canção levada pelo vento, uma alegria abreviada pelo peso do quotidiano e suas solicitações. A vida é um mistério. Nunca saberemos, no meio da pátria da chuva, quais os limites do sorriso e da tristeza no olhar de Paula. Qual a força serena que, nesta foto, está a empurrar Paula, na esquina dos dias, entre a cinza da morte e a luz da vida. José do Carmo Francisco --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 19:59

Quarta-feira, 23.04.14

novas leituras de 2009 - fernando botto semedo

96.jpg


A partir de uma citação de João Rui de Sousa («Azul é quando um homem se ultrapassa») e de uma dedicatória («para o avô Diogo»), organiza-se este volume de poemas. O ponto de partida é a infância: «Na minha infância já escrevia poemas sem o saber: / era a minha surpresa perante tudo novo / a cada dia era o meu sonho, a minha dor / o meu afastamento da realidade como hoje». O ponto de passagem é a alma: «A minha alma é um sol de lágrimas puras / bailando pelos campos de uma Primavera eterna / onde todos os seres mortos ressurgem, límpidos / aos olhos das papoilas brancas que existem / quebradas de dor em nuvens / de uma música simples e irreal / onde coloquei o meu primeiro poema, rasgado (…)» O ponto de chegada é o amor: «Doem-me estes poemas tão pobres, tão humildes / eles são a minha mais pura alegria na casa / da dor e do absurdo e trazem sempre consigo / todas as namoradas que perdi quando caí / por todos os abismos pelos quais tento transpor-me» Só assim poderá concluir: «Planto aqui um poema humílimo. / Sou o poeta feliz que desde sempre criança foi / em chama de água, em coração de vigília». Depois de «Poemas simples» e «Poemas de um livro rasgado» de 2007, este «Chama de água» confirma a coerência dum trajecto poético iniciado em 1982 com «Ágoas Livres» (Capa: Fernando Botto Semedo, Execução Gráfica: Gráfica 2000) José do Carmo Francisco --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 14:30


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Abril 2014

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930





Visitas