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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 28.02.14

outras leituras de 2008 - antonieta preto

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Quatro anos depois de «Chovem cabelos na fotografia» Antonieta Preto regressa com «A ressurreição da água». Num espaço e num tempo plenos pelas novidades uniformizadoras (automóvel, TV, Internet, telemóvel, hipermercado) a autora constrói narrativas nas quais os protagonistas se defrontam com problemas essenciais e antigos. A falta de água por exemplo: «Era uma tristeza já a gente olhar para o campo. Lembro-me quando houve as últimas novenas. Pedimos água a cantar, enxurradas de força. Perdemos todas as criações: o nosso campo inteiro. Perdemos também as mulas e as cabras a pastarem. Perdemos as romãs nas romãzeiras. Perdemos as batatas, as favas, os alhos, as cebolas.» A água é a fonte da vida; a terra é o lugar da morte. A autora explica que «Antigamente os mortos não morriam» porque eles «iam vivos para dentro da terra.» Surge aqui uma dualidade: a narrativa e o Mundo: «Tenho os olhos cheios de estórias como os meus olhos estão cheios de mundo. Aquilo que se conta sonha-nos e transforma-nos e dá-nos um mundo dentro de outro mundo. O mundo nunca é verdadeiro sem todos os mundos dentro dele». Entre o Mundo e a Escrita a autora não pára de inventar («Invento todos os dias a vida que existe») criando novas realidades em si («criei um céu no meu quintal») e nos outros: «Às mulheres desta aldeia oiço dizer coisas esquisitas: que os seus homens não querem amá-las.» Contra a secura da terra e a aridez do Mundo só a alegria da água pode salvar e fazer a ressurreição das vidas perdidas: «A vida lá fora é insalubre. A vida lá fora é pantanosa. A vida lá fora é desperdiçada.» (Editora: QuidNovi, Foto: Daniel Mordzinski, Notas: Paulo Barriga, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel Silva Ramos, Jorge Listopad e Miguel Real) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 19:07

Quinta-feira, 27.02.14

outras leituras de 2008 - graça pires

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O título deste livro de poemas é uma homenagem a «El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha», a obra-prima de Cervantes. Graça Pires, vinte anos depois de ter recebido com «Poemas» o Prémio Revelação de Poesia da A.P.E., ergue do silêncio o desenho da voz de Dulcineia, a heroína do romance de Cervantes. Começa a voz nas bocas do Mundo: «quase um peregrino / quase um nómada / quase um louco / Um homem deambulando / no rumo dos animais bravios / que povoavam sua mente. / Uma vasta mancha de sonhos / me perturbou para sempre». Continua a voz no encontro impossível: «Foi secreto e breve o nosso encontro / Nenhum registo o mencionou / Vieste, lembro / como quem vem por uma noite: / ansioso e clandestino». Conclui a voz na morte de D. Quixote: «Numa aldeia da Mancha / um homem recuperou a razão / e começou a morrer». O gentil-homem camponês só morre quando o abade e o barbeiro queimam os seus livros de aventuras de cavalaria – o mesmo é dizer, a sua «extensa mancha de sonhos», que é, não por acaso, o título deste excelente livro de poemas. (Editora: Labirinto, Capa: estúdio gráfico da Editora) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 14:17

Terça-feira, 25.02.14

bruno vieira amaral - as primeiras coisas

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A literatura é o estilo da escrita mais o sangue pisado da vida. Se é só estilo fica-se pelo exercício; se é só sangue pisado fica-se pelo testemunho. Bruno Vieira Amaral (n.1978) tem o segredo feliz da mistura que resulta. O ponto de partida é o Bairro Amélia e a sua paisagem («candeeiros de globos partidos, balizas ferrugentas, paredes encardidas, bancos lascados») mas a paisagem não existe por si. É povoada por gente: no «bairro dos retornados» vive um «exército de derrotados». O protagonista descobre um livro com poemas de Pablo Neruda num caixote do lixo e percebe: «encontrar consolo na arte é um razoável substituto da religião». O seu regresso ao Bairro de onde saiu é impossível: «Os meus amigos já lá não estavam, as pessoas que eu amara tinham morrido, a idade não me permitia visitar aos lugares queridos sem sentir que o meu corpo era demasiado grande para o tamanho desses espaços na memória, que eu era demasiado novo para o conforto da nostalgia». O Bairro Amélia é o pretexto para a viagem no tempo e na memória. Também no amor: «Os amores de infância duram para sempre, como múmias. São mausoléus erigidos à própria ideia de amor. Cuidamos deles como da campa de um ente querido». Ou então na luz da realidade: «Ao contrário das fotografias, a realidade tem pouca luz». O que mais impressiona nesta escrita sobre uma cartografia particular é a sua segurança. Bastam dois exemplos. Na página 92 um texto sobre a Mãe: «Os filhos são os parasitas da mãe. Comem-lhe o coração que cresce da noite para o dia para que nunca lhes falte o pão-coração. O que é que a mãe quer? A mãe não quer nada. Quem tem mãe, tem tudo, diz a quadra, e quem é tudo não precisa de nada». Na página 117 um texto sobre a morte: «O bailado de Ernesto, o seu lábio descaído, as suas rotinas, o chocalhar dos trocos na bolsa, a casa onde não tinha ninguém à espera, a sua tristeza imponderável, os pensamentos íntimos, a sua felicidade secreta, a morte rápida sem demasiado sofrimento, a perfeição». Uma confusa distribuição de itálicos, deixando de fora palavras como palyboy, collants ou old spice e marcas como Pingo Doce, Ovolmatine ou Teobar, a referência a Sarilhos por Sarilhos Pequenos ou Sarilhos Grandes (71), a troca de letras em Loanda e Luanda (194-196), o tabaco SG Ventil ou só Ventil (162-163) ou a troca de Alto por Baixo Alentejo (249) são pequenas discrepâncias que em nada alteram a cotação deste primeiro romance: muito bom. (Editora: Quetzal, Capa: Rui Rodrigues) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 18:06

Segunda-feira, 24.02.14

para anabela natário - um recado onde quer que esteja

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Aqui estávamos na Figueira da Foz em 1983 depois de uma conferência de Imprensa para preparar o I Encontro de Poesia Peninsular. Descobri a foto à bocado numas arrumações. Estamos todos muito novos, Anabela. Mas isso já tu sabias. O que eu queria dizer é que recebi uma mensagem no telemóvel para o lançamento de um livro na Bertrand mas atrapalhei-me com aquilo (novas tecnologias…) e perdi o contacto. Só percebi que era um livro teu porque fui directamente à Livraria Bertrand. Já tenho o livro, agora só falta lê-lo e fazer uma resenha. Assim de repente vejo a primeira fila e lembro-me de ti, do Joaquim Pessoa, do Francisco Belard, do Rogério Ferreira, do Fernando Dacosta, do Jorge Trabulo Marques, do Acácio Barradas, da Maria Antónia Fiadeiro, do Pina Cabral, do Luís Machado, do António Viana, do senhor Palma do Jornal «Poetas e Trovadores». Algumas das caras já não as conjugo com os nomes mas os anos passam – já lá vão mais de 30 anos, é muita coisa, muita vida, muita morte e muito sangue pisado. Do teu livro sei apenas que trata da vida rocambolesca do Diogo Alves, o ladrão que aterrorizou meia Lisboa no século XIX. Ainda não o li porque tenho tudo em caixotes, estou a arrumar de novo 38 anos de vida mas como vês até as coisas desagradáveis podem trazer boas surpresas. Descobri esta fotografia de 1983, quando todos éramos muito novos ali na Figueira da Foz onde mais tarde fui membro do Júri do Prémio Joaquim Namorado e também ajudei a descobrir a escrita da Dulce Maria Cardoso. Mas isso foi mais tarde, já nos anos 90, muito depois da nossa fotografia. Estamos todos muito novos na fotografia, o tempo passou, deixou marcas e só tu continuas a ser hoje a menina da primeira fila. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 17:40

Segunda-feira, 24.02.14

cristiano ronaldo - ao terceiro jogo vai nascer de novo ou a vida contra a morte

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A vida é mistério e não um negócio. Por um destes acasos que não se explicam, eu vi dois jogos da equipa B do Real Madrid (Castilla) na TV - um contra o Barça B e outro contra o Saragoça. No primeiro jogo vi duas expulsões de jogadores do Castilla e no segundo vi uma expulsão: os resultados foram de 3-1 e 2-0 para o clube satélite do Real Madrid. Ao mesmo tempo também tinha visto a miserável cena da expulsão do Cristiano Ronaldo e tinha sabido do seu castigo exemplar: três jogos. O árbitro desse jogo tinha umas olheiras de patíbulo, era aquilo a que em Espanha se chama um verdugo e nós aqui um carrasco. O maloio antes de mostrar o cartão vermelho olhava com aqueles olhos tristes e parecia dizer sem palavras: «Tu és o melhor do Mundo mas eu sou melhor do que tu porque te vou expulsar e vou ser herói na minha terra». E nem viu ou nem quis ver o «peitaço» que um destrambelhado da outra equipa deu no jogador português vindo em louca correria do outro lado do campo. Isso não porque podia estragar o efeito e o homenzinho queria ser herói na sua pequena terra e na pequena «bodega» que frequenta e onde se gaba dos seus feitos desportivos. A vida é um mistério e não um negócio. Eu sei que é assim mas muitos não sabem a começar pelos árbitros que perseguem o Real Madrid e o Castilla com expulsões do outro Mundo. É uma pobre gente que nunca teria lugar mesmo na pequena história desportiva de Espanha se não tivessem a ousadia de expulsar jogadores da equipa de Madrid e do seu satélite. A vida é um mistério mas eles não sabem. Para eles tudo se resume ao pequeno negócio da espuma dos dias – ser conhecido nas primeiras páginas dos jornais. Mas o Cristiano Ronaldo é um jogador importante e ser importante é muito, muito mais do que ser conhecido. --

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por José do Carmo Francisco às 08:53

Sábado, 22.02.14

outras leituras de 2008 - josé cardoso pires

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No dia 1-5-1962 houve em Lisboa uma grande manifestação popular: muita pancadaria, tiros, mortos, feridos, correrias, cacetada brava, o carro da água e o da tinta azul que sujava tudo e marcava os manifestantes. É nesse tempo e nesse espaço que decorre a acção desta narrativa que tem o subtítulo de «encontro desabitado». Cecília («cabelo claro, busto pequeno, pernas e pés sólidos, uma fria altivez») encontra Daniel num café de estudantes e diz-lhe sem mais nem menos «Importa-se de me levar a casa?» acabando por «ficar uma hora dentro do carro a conversar». Os dois falam de si e do mundo: «Estamos em plena Idade Média com astronautas a voar por cima de nós». Nesse dia 1-5-1962 «enquanto Daniel tratava dos feridos e a cidade andava em guerra, Cecília, no seu quarto de mulher só, fumava cigarros atrás de cigarros». Daniel esteve preso 52 dias e foi libertado ao 53º dia com uma carta de Cecília que explica tudo: «Não me podes levar a mal. Perder-te! Vê tu ao que eu cheguei: perder-me para te salvar! Cheira a fado lamechas que tresanda mas que queres?». O PIDE a quem Cecília se entregou em troca da libertação de Daniel é o lavagante, o animal «de tenebrosa memória, paciente e obstinado que, depois de alimentar o safio e de o ver engordar vem, de garras afiadas, devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo». Dez anos depois da morte (apenas civil) de José Cardoso Pires a publicação deste inédito surge num duplo registo: descoberta para o leitor actual e homenagem a um grande escritor português. (Editora: Edições Nelson de Matos, Capa Paulo Condez, Ilustração: Sónia Oliveira, Fixação de texto: Ana Cardoso Pires) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 19:41

Sexta-feira, 21.02.14

outras leituras de 2008 - carlos garcia de castro

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Sexto livro do poeta que se estreou em 1955 com ‘Cio», é irónico o subtítulo: «Não-poemas». Não-poemas (nesse sentido) eram também os poemas de Cesário Verde que foi o grande mestre de Álvaro de Campos e de todos nós. O ponto de partida é a idade cronológica do poeta: «A minha idade é já de senador. / Classicamente quer dizer sou velho». Essa idade é inserida no espaço da casa: «Quando à noitinha vou ao nosso quarto / de algumas vezes sou eu quem abre a cama.» Mas também no espaço da cidade: «Escrever é vício, amar é condição. / Não é com versos que se prega um prego / nem é com versos que o amor se faz. / Fico sentado no canto da cozinha. / Vou lá para dentro, aqui não faço nada.» E também na memória do Liceu: «Tínhamos medo de pensar com arte / e em quase nada a vida se aprendia. / Bastava uma janela mais acesa / para a noite logo ser uma aventura.» Essa memória choca com a realidade de hoje: «Sei lá quem foi Romeu e Julieta! / O que é que interessa se eu não sei quem são? / Fico marado à noite, eu quero é bares / o mais são gajas a fazer linguado / por tanto tempo que se deixam vir. / Mas não me fico só por marmeladas. / A gente ter um sonho? Não percebo. / A gente sonha mas é quando dorme.» Entre o precário do amor («Os netos são pavor ou são saudade») e o inevitável da morte («Não me convinha se morresse agora») fica a memória: «O que mais custa é sermos só memória / (Poetas há que abusam da palavra) / Porque a memória, para vocês lembrança / é coisa meramente cerebral / que tem neurónios, linfas e sinapses / sem mais qualquer valia na esclerose. / É mais confusa do que persistente.» Um belo livro de poemas dum poeta que por ironia os designa como «Não-poemas». (Editora: Edições Sempre-em-Pé, Capa: Raul Ladeira) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 21:49

Quinta-feira, 20.02.14

outras leituras de 2008 - fernando venâncio

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Este livro é dedicado a Fernão de Magalhães Gonçalves (1943-1988) e ao seu «Manifesto por uma literatura legível». Mas a sua referência pode ser «O aprendiz de feiticeiro» de Carlos de Oliveira. Nesse livro de 1971 o autor de «Uma abelha na chuva» viaja à volta da obra de Afonso Duarte, Abel Botelho, Fernando Pessoa, Raul Brandão, Camilo, Alves Redol, Abelaira, José Gomes Ferreira, Irene Lisboa, Cesário Verde, Caldwell e Tchekov. Polémico, sábio, informado, Carlos de Oliveira afirma: «Começar outra vez a poesia portuguesa como se ela acabasse de nascer? Desculpem a imagem camponesa mas a enxertia faz-se na árvore que já existe.» Fernando Venâncio (por igual polémico, sábio e informado) inventa cavaqueiras: Jorge de Sena e José Saramago, Camilo Castelo Branco e Almeida Faria, Florbela Espanca e Mário de Carvalho, Castilho e David Mourão-Ferreira, Eça de Queirós e José Cardoso Pires. Sobre «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio escreve que ele «não é um dos grandes romances portugueses do século» embora a sua linguagem seja «enxuta e sem redundâncias.» Depois afirma: «chega, aqui e além, a ser luminosa.» Outros autores relidos são Pinheiro Chaga, Machado de Assis, Abelaira, José Cutileiro, Nuno Bragança, José Saramago, Alexandre Pinheiro Torres. E surge ficção sobre o Barão (Branquinho da Fonseca), o Júri do Grande Prémio APE de 92, o magala (Luiz Pacheco), o livro escrito na Ericeira e perdido porque o jump foi roubado e ao autor não tinha feito o print. Espaço de desencontro, a literatura é o lugar onde a maioria dos prosadores e poetas não anda satisfeita mas isso é positivo, com conclui Fernando Venâncio: «Não há, sinceramente, melhor espectáculo do que a dor dos que sabem contá-la». (Editora: Assírio & Alvim, Colecção Peninsulares) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 16:27

Quarta-feira, 19.02.14

outras leituras de 2008 -

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Paulo Ferreira Borges pertence à família dos poetas (como Vitorino Nemésio) para quem a Geografia vale mais do que a História. Pataias, Caldas da Rainha, Nazaré, Óbidos, Foz do Arelho, Salir do Porto, S. Martinho do Porto, Paredes da Vitória, Peniche, Vale Furado, Ilha da Berlenga, Alcobaça, Praia da Consolação, Leiria, S. Pedro de Muel, Praia da Légua e Santa Catarina – são os lugares dos poemas deste pequeno/grande livro. De um lado temos a terra, veja-se poema da página 27: «As mães trazem cerejas numa cesta de vime / Nas noites de vésperas, os seus dedos / cheiram a pão-de-ló, a erva-doce, a canela, / a raspa de limão, e nos seus olhos vertiginosos / derrama-se uma cor de fogo escuro, semelhante / à do licor de ginja que dorme na paciência de vidro / das garrafas depois de incorporar as últimas pétalas de sol.» Do outro lado temos o mar, como na página 44: «As traineiras escoavam dos olhos / os seus nomes marejados. Amor de Mãe. / Celacanto. Estrela da Tarde. Nossa Senhora da Nazaré. / Três Irmãos. Xixão. Refrega. / E no rosto penitente de uma / sobrevivente de fainas e virações / incandescia-se de sal um epigrama / ou um lampejo: Olhos de Deus. / Claríssimos tons / na avidez das águas.» Só um poeta no completo domínio da sua escrita pode assinar este poema: «As mulheres tinham varandas, pequenas cercanias / que se prolongavam dos olhos, da boca, do ventre / onde penteavam os seus longos cabelos pretos / e se punham a pensar, a tecer os filhos, a estender a roupa branca / com uma mola de madeira apertada nos dentes. / Nas varandas mais recônditas / as mulheres labiavam preces, terçavam promessas / intercediam, mediavam, nutriam as lamparinas / de azeite, até ao dia em que os filhos / regressavam das guerras ou de outras tormentas. / As mulheres tinham varandas. E quando morriam / era numa toda envidraçada / que dava para dentro dos seus corações.» (Editora: Textiverso, Capa: Aguarela de Mário Botas, Patrocínio: Junta de Freguesia de Pataias) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 09:02

Terça-feira, 18.02.14

do «enterro de anjinho» à sarjeta no altar

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Nasci em 1951. Tenho 36 anos no dizer do Joaquim Vieira. A aguarela de Bernardo Marques surge-me ao lado do «Almoço do trolha» de Júlio Pomar como elemento representativo dos anos de chumbo em Portugal. Embora datado de 1937 o quadro «Enterro de anjinho» conheceu grande divulgação nos anos 50 na Revista Panorama. Há dias vi um carpinteiro a almoçar. É um homem bom, competente e honesto que come devagar (como os pedreiros de Alexandre Herculano) depois de ler o «Credo» junto ao volante. Muita gente não lhe paga o excelente trabalho por ele produzido. É o equivalente ao trolha de Júlio Pomar no século XX e aos pedreiros de Alexandre Herculano no século XIX. O quadro de Bernardo Marques arrepia pois vejo nele o resultado da política actual no nosso País. Alguém que saltou directamente da sarjeta para o altar. Alguém que passou a vida a colar cartazes e de repente toma de assalto o Estado com as rédeas do Governo. O que foi o sonho de Sá Carneiro (1 governo, 1 maioria, 1 presidente) tornou-se o pesadelo dos portugueses. Mas este bando de mentirosos está neste lugar porque dois partidos votaram contra o PECIV e sabiam que o resultado seria um desastre mas preferiram o «quanto pior, melhor». Há cada vez mais anjinhos a enterrar mas o Correia da Campos é que era «mau» por fechar maternidades com 30 partos/ano. Nasci em 1951. Com o fim da guerra de 1939-1945 os circuitos comerciais estavam destruídos – na minha terra não havia café nem açúcar, usava-se cevada e mel. AS mulheres guardavam os ovos para os venderem e trocavam o seu valor pela barra de sabão azul ou meio quilo de arroz. A vida está a andar para trás. Como os coladores de cartazes não podem desvalorizar a moeda, desvalorizam a vida. Mas isto tem que ter um fim. A sarjeta não pode ficar sempre no altar. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 10:32

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