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Transporte Sentimental



Sábado, 30.11.13

rua prof. sousa da câmara nº 156 aos sábados uma feira diferente

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Funciona todos os sábados das 10 às 19 horas na Rua Professor Sousa da Câmara nº 156 ali a Campolide perto das Amoreiras e vende Banda Desenhada e Poesia. Tem Revistas antigas e Álbuns raros - informa a publicidade. Tem tudo o que se possa imaginar e também o que não esperamos encontrar. Livros de poetas como João Candeias, Vergílio Alberto Vieira, J.H. Santos Barros, Nuno Costa Santos, Egito Gonçalves ou Mahmud Darwich, o poeta que em 2002 escreveu em Ramallah: «Para mim os meus amigos preparam sempre uma festa / De despedia, uma sepultura tranquilizante à sombra de carvalhos / Um epitáfio de mármore do tempo.» Banda Desenhada, Poesia, Prosa Narrativa, Revistas Literárias, livros raros, enfim é uma festa para quem gosta de livros mas o mais surpreendente é o facto de haver uma grande mesa com um letreiro impossível «Livros grátis». Pois por estranho que pareça são mesmo oferecidos os livros dessa mesa e do pequeno balcão abaixo da mesa pois não cabem todos em cima. A mim calharam-me dois livros – um para a minha filha mais velha sobre aldeias inglesas e outro para o meu neto mais velho com as histórias do menino «Tó». Chama-se «Tó e as árvores» e o Tomás vai adorar, como eles dizem agora em vez de gostar. No meio da amável confusão apareceu o Geraldes Lino com mais um fanzine e por ali ficámos às volta com a «Balada do mar salgado» e o «Tintim», o mesmo é dizer em boa companhia. Apareceu também o poeta Rui Almeida que tem lá um livro na Feira e fizemos os quatro uma tertúlia à volta do café da casa. A Inês Ramos organiza a mais espantosa feira que até hoje vi. Tem tudo; até tem livros de graça que as pessoas podem levar. Eu trouxe dois e mais um para o poeta Ruy Ventura que um dia destes virá até Lisboa buscar os «Cristos» duma exposição de 1966 em Évora. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 18:38

Sexta-feira, 29.11.13

da rapaqueca aos calhabardais - jorge perestrelo e manuel sequeira

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O texto recente de Manuel Sequeira no Facebook sobre as suas memórias de Jorge Perestrelo veio recordar em mim (coisas desencadeadas) não só as minhas memórias pessoais do homem da rapaqueca em Bolonha aquando do Bolonha-Sporting de Setembro de 1998 mas também a memória do jogo AZ Alkmar-SCP para a Taça UEFA de 5.5.05, ou seja, uma capicua perfeita: dia cinco, mês cinco e ano dois mil e cinco. Eu tenho os bilhetes desse jogo em Alkmar e julgo poder coloca-los «on line» com este texto. Vamos a ver, pois não sou um artista da informática. A nossa viagem de Lisboa para Bolonha foi atribulada porque não foi directa, antes passou por um voo Lisboa-Malpensa seguido de uma viagem nocturna num velho autocarro de turismo entre Malpensa e Bolonha. A meio da viagem o condutor adormeceu e as chispas das jantes contra os rails de protecção da auto-estrada acordaram toda a gente que ia a dormitar. Foi por um triz que não morremos todos; todos não, porque os repórteres de A BOLA foram num voo directo Lisboa-Bolonha e não passaram pelo nosso susto. Estávamos em 1998 mas já havia telemóveis por isso quando chegámos ao hotel o pequeno-almoço estava a postos; nada melhor para um susto do que uma boa refeição. Conheci de perto Jorge Perestrelo nessas circunstâncias em Bolonha. Tivemos intermináveis conversas sobre tudo e sobre nada, sobre a vida que quase terminava nessa noite de auto-estrada entre Malpensa e Bolonha mas também sobre a morte. Nessa altura ficou combinada uma muamba de galinha na Costa da Caparica. O desastre de 5-5-05 não permitiu que se concretizasse. Nota final sobre as palavras: nem os calhabardais que o Manuel Sequeira utiliza no Facebook nem a rapaqueca que o Jorge Perestrelo gritava aos microfones estão, de facto, nos dicionários. Mas existem. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 14:26

Quinta-feira, 28.11.13

música nos calhabardais - no mundo de fernando alves

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Começa o dia com muito frio mas o sol invade o vale do Pocariço onde passa uma ribeira com pouca água. O seu som a bater nas pedras levanta uma melodia mas o som do transístor trazido pelo dono do olival vence a beleza deste som. O timbre roufenho domina o vale. À direita um coro formado pelo vento a bater nos pinheiros; à esquerda o som da água no ribeiro. No intervalo a telefonia de baquelite atira para o ar uma música estranha, estrangeira, imposta. Percebe-se na sua diferença como funciona uma «play list»: alguém sem rosto num corredor ou num gabinete impõe um gosto. Do alto do ramo da oliveira Alfredo sorri enquanto usa o serrote para a podar. Ele também pensa: mal por mal antes os fadistas de aviário de António Macedo nas manhãs da Antena Um. Quem diz esses fadistas diz o cantor que não canta. Ao menos são portugueses, os da «play list» não. Há 55 anos os cantores equivalentes aos Zambujos, Marizas e Anas Mouras eram Manuel Monteiro, Frutuoso França e Ricardo Isidro. Deram o seu recado, cantaram os seus versos na sua música, os seus discos foram passados no programa dos doentes dos Emissores Associados de Lisboa (serviço 6, sala 4, cama 2) mas o tempo foi apagando aos poucos a sua memória. O seu nome foi quase esquecido. Depois de um almoço de maranhos, batata frita, salada de almeirão e o vinho tinto da casa, a tarde foi passada a trabalhar de novo no pequeno olival junto à ribeira do Pocariço. No fim foi a música da água que venceu: o pequeno rádio de pilhas calou-se e entrou no saco com os serrotes do Alfredo. O pinhal nunca descansa, o vento não deixa, o rumor não pára. A música da água entra pelas telhas das casas da aldeia, entre o trabalho e o sono, entre o fim do dia e o princípio da noite. E essa palavra calhabardais nem sequer aparece no dicionário. José do Carmo Fra --

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por José do Carmo Francisco às 11:56

Quarta-feira, 27.11.13

irene flunser pimentel - espiões em portugal na II guerra mundial

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Com o subtítulo de «Como o nosso país se tornou local de passagem de agentes ingleses e alemães», este livro com 479 páginas de texto e 14 páginas de fotografias mais os anexos, as notas, a bibliografia e índice onomástico, começa com uma advertência: «não se espere ver aqui um estudo exaustivo mas apenas uma visão parcelar sobre o tema da espionagem durante a II Guerra Mundial em Portugal». Este Portugal de 1939/1945 surge como o resultado do que aconteceu desde 1932 quando o Estado Novo foi edificado a partir de cima, ficando sempre o movimento partidário único – União Nacional – na dependência do governo, havendo por isso quem o qualifique de fascismo sem movimento fascista». A sombra de Salazar domina: «O regime salazarista tolerava os não-políticos mas vigiava os estrangeiros que se opunham ao fascismo e ao nacional-socialismo e que pudessem tornar-se seus potenciais adversários». Lisboa era uma cidade «onde se cruzavam espiões, refugiados, diplomatas ou dirigentes estrangeiros», uma placa giratória onde conviviam três partidos: «o partido francês para quem a vitória francesa acarretará o triunfo do liberalismo e do radicalismo, o partido inglês que acredita que a sua vitória trará a derrota de Salazar e o fim do regime enquanto o partido germanófilo vê na vitória da Alemanha a garantia da continuidade de Salazar no poder». O Estado Novo criminalizou a espionagem em 1943 mas em 1944 o desembarque na Normandia aconteceu com o desvio das atenções dos alemães - foram induzidos pelos espiões a pensar que o mesmo ia acontecer no Pas-de-Calais. Foi um templo de aventuras mais tarde passadas a livro por Ian Fleming (o Casino Royale é o Casino Estoril) ou por Graham Greene e Thomas Muggeridge, além do autor romeno Mircea Eliade sem esquecer que a figura de James Bond nasceu aqui. Mas também tempo de ridículo: «A Fábrica de Licores e Xaropes Victoria foi obrigada a retirar os cartazes com esse nome, por receio de que estivesse a propagandear a vitória dos Aliados.» A luta chegava ao circo: «Weltzien conseguira levar para o seu serviço o palhaço do Coliseu dos Recreios, François, que ficou encarregue de arranjar espiões entre o pessoal de circo». Mas também ao amor, como na teia organizada por John Beevor, pai do historiador Anthony Beevor (The Battle of Spain): «uma agente do MI6 arrastou um oficial da Abwehr para uma armadilha numa praia isolada fora de Lisboa. O alemão foi apanhado e transportado por via aérea para Inglaterra antes de a sua embaixada ter tempo de alertar as autoridades portuguesas». (Editora: A Esfera dos Livros, Capa: Compañia, Foto capa: Arcangel Images) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 11:30

Terça-feira, 26.11.13

«expresso» - passar pelo bairro alto como cão por vinha vindimada

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Não nos bastava a ligeireza, o desdém e a agressividade da «Time Out» perante os moradores do Bairro Alto, logo nos cai em cima a revista do «Expresso» em 23-11-2013 com o louvor da actividade comercial sem regras nem limites ao lado do desprezo pela vida e direitos dos moradores. Na página 25 surgem os topógrafos quando a palavra certa é tipógrafos. Na mesma página se refere o ano de 1755 e os nomes das ruas (Loreto, Misericórdia e O Século) quando há bem pouco tempo essa rua se chamava «Formosa» e era «do Mundo» a hoje rua da Misericórdia. Na página 26 aparece Maria Antónia Palla como primeira mulher a assinar reportagens mas esquecem Maria Lamas e Manuela de Azevedo. Na página 31 um erro crasso: «as esquinas e os becos são autênticos urinóis públicos». Ora o Bairro Alto não tem becos e basta ler Norberto de Araújo para saber: aqui não há becos, só travessas e ruas. Na mesma página lá surge a referência aos residentes - «muitos moradores amaldiçoam a vida» mas o mais complicado é nas palavras do vereador Sá Fernandes. Terá dito ao «Expresso» que tinha soluções para o caos instalado no Bairro. Uma delas será medir os metros quadrados de cada bar; menos de 50 m2 e fecha. E prossegue: «seremos rigorosos na fiscalização da venda ambulante, vamos estudar medidas para proibir a venda de bebidas para a rua.» O desabafo final: «Não queria chegar a esse ponto mas se tiver de ser…» Num texto que ignora a Marcha do Bairro Alto e o Clube Rio de Janeiro (Alfredo Trindade ganhou a Volta a Portugal)e não vê as livrarias fechadas (Biblarte, Barateira, Camões, Guimarães, Bocage) ou as que vão fechar no largo Trindade Coelho mas valoriza um «Teatro» que na Luz Soriano soma contra-ordenações e subaluga o espaço aos DJ depois das duas da manhã, podem limpar as mãos à parede. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 09:45

Quinta-feira, 21.11.13

o arnaldo vinha todas as manhãs do bairro da mata

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A minha relação com a informática sempre foi complicada. E perdedora para o meu lado. Desde cedo percebi que, embora trabalhando num departamento operacional (Estrangeiro), as promoções melhores iam para os informáticos – entre 1976 e 1996 só fui promovido quatro vezes quando poderia ter sido promovido seis ou sete. E havia ainda os que vieram de Moçambique e passavam à nossa frente por ordem superior – era preciso tirá-los do Rossio. Tudo isto a propósito de uma fotografia tirada em Vila Franca de Xira no ano de 1966 mas que não tenho a certeza de poder colocar «on line». Já fui ao ficheiro, procurei mas não a encontrei de maneira a não ter dúvidas. Só sei a data em que a gravei no ficheiro respectivo – Agosto de 2012. Coisas da Informática que nessa altura era apenas «o IBM» como se dizia no meu local de trabalho no BPA da Rua do Ouro. Pois o Arnaldo da Silva Ribeiro apareceu no Facebook e saudou-me, encantado com as novas tecnologias. Depois de um breve encontro em 2007 num restaurante de Vila Franca nunca mais tive oportunidade para o encontrar. Esta fotografia, se tudo correr como espero, pode ajudar a marcar pontos nesse encontro. Isto porque os encontros também são sentimentais e não apenas físicos. Olhar aquela fotografia e ver a Marieta, cheia de força e de vida, ver o Paplicas, a beleza das meninas e o nosso olhar já a pressentir uma guerra colonial de quem só se safava quem fosse para o Parque de Alverca. Há por ali um frémito de medo, pelo menos no meu olhar. É uma fotografia a preto e branco. Hoje sei que a vida é a preto e branco, não a cores como muitos pensam de modo errado. A vida é feita de luto, de lágrimas e de sangue pisado; quando não é, então foi porque alguém se enganou a si ou enganou os outros. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 15:27

Quinta-feira, 21.11.13

time out - varrer o lixo para debaixo do tapete não é solução

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Esperei com paciência mas sem esperança que a revista Time Out publicasse a carta da AMBA ou algo que pedisse desculpa aos moradores pela repugnante abordagem do Bairro Alto no número anterior. De facto em vez do nome dos dois mortos na noite do Bairro Alto eles escreveram os nomes de dois comerciantes mostrando assim a sua posição na barricada. Em vez de ouvirem os moradores do Bairro Alto que se queixam do lixo, do ruído, dos assaltos e da «toilete» a céu aberto eles lamentam que o «wine bar» feche à meia-noite, coitados deles. Em vez de ouvirem a Polícia Municipal eles ouvem apenas os comerciantes e tomam partido escrevendo do seu lado e a seu lado. Em vez de ouvirem a EMEL e a ASAE, eles preferem louvar a festa, aquilo a que chamam festa e não passa de uma exploração infame do tempo de descanso de quem teima em viver no Bairro Alto. Em vez de ouvirem a PSP cujo chefe de esquadra local não consegue dormir no quarto que lhe foi destinado, eles embarcam na descrição laudatória do consumo de álcool na rua e nos bares a céu aberto. Em vez de explicarem a falta de «WC» porque muitos bares são do tamanho de «WC», eles escrevem como se tudo estivesse muito bem e tudo isto fosse natural. Viver no Bairro Alto hoje em dia é como caminhar sobre uma botija de gás mas a «Time Out» fica ao lado do problema e não quer saber do sofrimento dos moradores, não quer perceber e tem a cabeça na areia. Varrer o lixo para debaixo do tapete não é solução nem nunca foi. O lixo aparece sempre. Ao publicar duas cartas de aplauso ao trabalho em que dois ingénuos dão os parabéns e pedem mais do mesmo, a revista mostra de que lado da barricada se colocou – com todas as consequências que isso implica. Na «Time Out» o horror não tem limites, a demagogia é repugnante. Safa! José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 12:27

Quarta-feira, 20.11.13

cristiano ronaldo - um motor ao lado do coração

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A foto é de Vinícius Carriço; eu apenas tenho uma cópia. Tudo ali era natural como na Bíblia. Em vez de «o menino entre os doutores» é bem «o doutor entre os meninos». José Travassos via o jogo dos juniores num banco de madeira que o coronel Cunha Bispo emprestava. Quem o ia buscar a um Lar em Alvalade era o Maurício do Vale. No caso do Cristiano Ronaldo ninguém lhe disse para se sentar ali mas havia uma espécie de intuição; ali ele estava bem. No tempo da fotografia o Zé da Europa era o José Travassos, hoje em 2013 o Zé da Europa é o Cristiano Ronaldo. Por tudo o que fez no Sporting até 2003, por tudo o que fez no Manchester United e por tudo o que tem feito no Real Madrid, ele merece ser o Zé do Mundo. Pese embora o que alguns cães raivosos fazem, tentando de modo alucinado negar o óbvio, apagar o evidente e esquecer os golos. Porque de golos se trata, aquilo a que Vitorino Nemésio chamou o momento do erro na sua visão de um Vasco da Gama-Sporting no Rio de Janeiro. No caos dos golos do CR7 na Suécia nem se pode falar em erros da defesa. O que eles não tiveram foi resposta para as acelerações do português. A sua explosão no momento do arranque fez-me lembrar uma frase de Dinis Machado a propósito de Ian Rush - «o futebol de motor». Dá a ideia de uma desproporção total entre quem defende e quem ataca. Uns correm com os pés, outros recebem velocidade da caixa de transmissões. Existe neles um motor ao lado do coração. José Travassos era assim, Cristiano Ronaldo é assim. Eu, que o vi quase morrer numa manhã em Pina Manique (24-10-1999), eu que estava lá com o delegado Atanásio e o enfermeiro Fontinha, eu fiquei mais feliz com os três golos na Suécia. Uma bofetada no velho suíço e na ministra francesa, obrigados a engolir os disparates que disseram sobre CR7. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 16:00

Terça-feira, 19.11.13

J.H.Santos Barros e Ivone Chinita - memória 30 anos depois

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Nesta imagem de Filipe Medeiros a data (1983) veio recordar a minha ligação aos dois poetas que morreram num acidente de viação no Sul de Espanha. Lembro hoje Ivone Chinita. Do seu livro de 1970 («Digo Fome») editado em Angra do Heroísmo fixei o último poema do volume de 34 páginas («Emissor marítimo») deste modo: «últimas informações / do nosso emissor / mar cavado a grosso / fome até ao pescoço». Não tenho o original mas apenas fotocópias onde se percebe que a capa é de Rogério Silva, o pintor. Em «Relatório fragmentado» (1970-1973) estão presentes dois lados da sua vida: a Ilha e a Planície. Um poema ilhéu em excerto: «Quem vier da cidade vira à igreja, pode entrar, a igreja da nossa freguesia é limpa e asseada, tem madeirame para consolar. Sai da igreja, vire à esquina a primeira canada à sua direita.» E um poema alentejano em excerto do livro «Mulher em horas de ponta»: «Veio a ordem de levar meu irmão do meio e nós ficámos todos em casa à volta da mesa maior a olhar uns para os outros, pacientemente. Meu pai lentamente fumava e mastigava pevides secas». Do seu livro «Outra versão da casa» de 1980 segue o excerto de um poema dito «urbano» por ser escrito na cidade, dentro de um amarelo: «Dei-te um bofetão porque cresceste / no eléctrico impaciente assim / a mudares de lugar, a mexer / a mexer, a pagar bilhete». Na minha antologia «O Desporto na Poesia Portuguesa» de 1989 parte do poema sobre o Mundial de 1978, hoje é o Mundial 2014: «É tão dura, rija, firme a educação / que a ternura nos homens dá sopapos / pontapés, palmadas fortes nas costas / só no futebol, perante milhões / os homens têm coragem de afagar-se / estou frente a um écran em busca / de emoções, dez homens / acariciam um deles nos cabelos / só por isto vale a pena o futebol / o golo». José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 16:43

Domingo, 17.11.13

à maneira de fernando alves ou a música na cidade de lisboa

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Existe uma música distinta e própria da cidade, a minha cidade de Lisboa como a amei em Setembro de 1966 quando aqui cheguei para trabalhar com quinze anos de idade. Era a música dos cacilheiros, das varinas, das mulheres da fava-rica, dos sons dos eléctricos de atrelado que eram muitos e circulavam por quase todas as ruas. E também das cégadas ao fim-de-semana com uma história sempre igual e no fim um lençol velho com moedas para o jantar da rapaziada que entrou na função. Quando eu morrer (já falta pouco) talvez alguém olhe para este Blog (e também para o aspirinab) e descubra o peso da música nos meus textos. A música da cidade de Lisboa passa por Carlos Paredes mas também por Ricardo Parreira, pelos músicos dos jardins e miradouros (o português Manuel Gaspar e o argentino Valentin) ao lado dos minuetos de Pedro António Avondano, da opus 63 «Une nuit à Lisbonne» de Camille Saint-Saëns e do «Prelúdio sobre um pregão de Lisboa» de Frederico de Freitas. Na música da cidade cabem também as marchas graves das procissões como a de São Roque entre bandeiras e estandartes, entre incenso e lágrimas feitas de sangue pisado. Tudo é memória a partir de uma certa idade. Na Filarmónica da Cruz Quebrada o que eu oiço é a marcha grave do Ateneu Artístico Vila-franquense em 1969 no funeral de Alves Redol ou a Filarmónica Catarinense da minha terra natal na festa da Padroeira quando eu segurava a naveta e aprendia uma regra de oiro – quem toca o sino não vê a procissão. E o Zé Pombo que tocava os sinos a pedido do meu tio Álvaro (sacristão e músico) só sabia da procissão pelo que ouvia contar. Existe uma música distinta e própria da cidade, a minha cidade de Lisboa. Disso não tenho qualquer dúvida. Procuro que as minhas crónicas sejam também o que ficou dessa música de Lisboa. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 18:48

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