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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 30.10.13

cristiano ronaldo e o relógio suíço avariado

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Horas antes de ter visto um repugnante vídeo dum abominável velho que, num encontro com estudantes universitários (ou coisa parecida) procurou (sem o conseguir) destruir não Cristiano Ronaldo (que não pode) mas a sua imagem através de uma conversa miserável sobre um «menino que gostava que fosse seu filho» dando a entender que não gostava de ser pai do melhor jogador de futebol do Mundo, pois horas antes desse encontro eu tive uma aproximação. Nas Escadinhas do Duque um velho maluco falou para o monte e disse umas coisas mas ninguém ligou. O grupo estava à espera do poeta brasileiro Alexei Bueno mas, por azar, eu estava voltado para o velho maluco. Por isso o fulano disse-me «Estou a falar consigo» ao que respondi «Eu não estou interessado em falar consigo». Mas ele estava imparável: «Sou algarvio, tenho quarenta filhos. Vou deserdar os meus filhos.» Tinha a corda toda, parecia um relógio suíço avariado, parecia o presidente da FIFA a debitar asneiras e parvoíces. Conheço o Cristiano Ronaldo desde os 11 anos, convivi com ele no Sporting Clube de Portugal, sei como Aurélio Pereira e Isabel Trigo de Mira convenceram Simões de Almeida a recebê-lo em Lisboa, sei como Marques de Freitas se chegou à frente para que ele viesse mostrar os seus dotes aos técnicos do SCP – Paulo Cardoso e Osvaldo Silva. Eu sei, eu estava lá. Ainda hoje recordo uma reprimenda do Paulo Cardoso em Sarilhos Pequenos num jogo de juniores entre os «leões» e os «canarinhos» do Estoril. E como ele olhou para a tribuna de honra onde estava o Manuel Fernandes ao lado do presidente do Sarilhense. Olhou e percebeu como eu percebi hoje esta triste realidade: um pobre palerma, um velho maluco, continuará a dizer que quer ser pai do outro. Tenho a certeza que o Cristiano não o queria para avô, mesmo torto. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 22:57

Terça-feira, 29.10.13

sobre um desenho de martins barata - bairro alto não tem becos

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Peço desculpa aos meus leitores pois num texto anterior confundi «quadrado» com «quadrilátero» ao referir os quatro limites do BA – Camões, Príncipe Real, S. Pedro de Alcântara e Rua de O SECULO. Na verdade o BA é um rectângulo; assim está certo. Não é de estranhar a minha paixão pelo BA. O prédio onde vivo ostenta a data de 1899 e tem passado. Além de no rés-do-chão ter existido o jornal de banda desenhada «O Mosquito» e de no segundo andar ter tido escritório o jurista Lucas Pires, Norberto de Araújo (1938) no livro VI das «Peregrinações em Lisboa» refere-o na página 25: «Não há muito mais de meio século no sítio ocupado por este prédio erguia-se o Palácio dos Galvões Mexias, sobre o casco do qual se levantou, no século passado, este conjunto de casas.» Por isso a minha homenagem à casa de Martins Barata que o autor considera a mais representativa do BA no livro de Norberto Araújo. Esse autor define o BA em sucessão de nomes (Guedelha, Atouguia, Andrade) e de realidades: Frades, Conventos, Palácios, Teatros, Jornais, Editoras, Livrarias, Cafés, Restaurantes, Pregões e Tropel de Gentes. É no «tropel de gentes» que registo a vida e a morte. Há 60 anos morriam raparigas tuberculosas exploradas pelos chulos e pelas patroas, hoje morrem idosos por omissão dolosa e por acção errada da CML e seus vereadores enlouquecidos. Valha-nos a chuva que faz desaparecer os estudantes do Erasmus, os bêbados profissionais, os gritos das tunas académicas, os copos de plástico, a urina e as fezes entre os automóveis, enfim todo o lixo humano que por aqui se instala. A chuva é o único aliado dos moradores que já nada de bom esperam da CML, da Junta de Freguesia, da EMEL, da PSP ou da Polícia Municipal. O BA é o único espaço do País onde a Lei do Ruído não se cumpre. Só a boa chuva os cala e afasta. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 10:41

Segunda-feira, 28.10.13

«mergulho as mãos / nos bolsos da minha alma» - álvaro luís

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A vida é breve, a morte é inevitável e o amor é precário mas no tráfego do Mundo, na viagem da vida, no absurdo do quotidiano, o amor ainda é a resposta ao tempo hostil de todos os dias. Mesmo que o esquecimento seja uma ameaça ao amor como no poema «Tráfego»: «Afinal tudo ficou acordado/ Destrocaremos as prendas e os retratos / Não vacilaremos / Os beijos e os abraços / Não são considerados / Passaste depressa / Na fluidez do tráfego». Vencedor do Prémio de Poesia 2002 da Escola António Arroio, este livro de Álvaro Luís integra 24 poemas e tem como ponto de partida um lugar - «Lisboa»: «Contemplo-te / Deitada na margem / Do teu rio / Colinas ruas e vielas / As curvas / Teus jardins floridos / O perfume / Invadindo-me o peito / Quando me debruço / Sobre ti / Te beijo / E amo». Numa dupla inscrição, o poema pode ser lido tendo por destinatária a cidade mas também a mulher. A mesma dupla inscrição surge no poema «O lado do pensar» pois nele o homem (o poeta) para quem viajar é um ofício («No comboio/a trabalhar») perde o cacilheiro («Vi-te partir») a ligar dois lados do mesmo rio: «Aqui fico na tarde calma / Junto ao cais». Em frente fica o Cristo Rei («um rei completamente restaurado / que mantém os braços abertos») e do lado de cá do rio a angústia portátil do poeta: «Mergulho as mãos /Nos bolsos da minha alma». No ritmo e na parte real da vida surge a força do relógio («Batem as horas do destino») que pode ser um aparelho de marca («Tissot») como no poema homónimo: «O tempo passa / Confirmo-o / No relógio novo / Ali do largo / É velha a esperança / De chegares». A viagem, o movimento e o tráfego tanto acontecem na cidade (Lisboa) e no seu rio (Tejo) como no Oriente: «No delta do Rio das Pérolas /Ao cair da tarde / Na minha última viagem / Estavas ao lado da água / Olhando a margem». No intervalo da viagem fica o poema, o poeta e a sua voz, entre o real e o imaginado: «Onde tudo conta / E nada conta / Estou eu / Envolto na tempestade.» Porque escrever é sempre navegar na parte real da vida. (Edição: Escola António Arroio - Curso de Arte e Tecnologias de Comunicação Gráfica, Apresentação: Cristina Peres, Risoleta Pinto Pedro e Maria Azenha) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 11:33

Domingo, 27.10.13

rui jordão no casino estoril - a segunda liturgia

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O título da exposição na Galeria de Arte do Casino Estoril não enganava - «Artistas dos Países Lusófonos» - e o âmbito era vasto - «Pintura, Escultura, Desenho, Gravura». Estão aqui obras de 39 artistas originários do espaço onde se fala português: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. No meio da alegre confusão da Galeria em dia de festa fui descoberto pelo Mário Jorge (ex-jogador do Sporting Clube de Portugal e da selecção nacional) que me apresentou ao pintor Rui Manuel Jordão, o antigo «Bola de Prata» de Portugal Rui Jordão. Nascido em 1953 numa Benguela onde ainda se jogava na rua, entrou aos 16 anos para os juniores do Sporting de Benguela levado pelo irmão. Duas épocas depois, vem para o Sport Lisboa e Benfica, ainda apanha o Lar do Jogador mas depois acaba por viver numa casa alugada onde a dona lhe dava alimentação e dormida. Seguiu-se o Saragoça em Espanha, o Sporting em Portugal e mais tarde o Vitória de Setúbal. Para a história de todos nós ficam os golos na selecção à URSS e à França mas num dia em que Platini partiu a loiça toda. Há uma frase marcante no Jordão jogador a anunciar o Jordão licenciado em História de Arte, fundador do projecto «Metamorfosis», aluno da SNBA e pintor: «No fim do jogo, chuveiro, casa…» Rui Jordão não ficou agarrado à fama, ao pequeno mundo e à liturgia do futebol. Manteve algumas amizades (Mário Jorge, Manuel Fernandes, por exemplo) mas hoje o seu tempo é todo para a arte, essa segunda liturgia onde o aplicado aluno da SNBA teve como professores gente de alto gabarito: Jaime Silva, Quintino Sebastião, Maria Calado, Cristina Azevedo, David Lopes. Na Galeria de Arte do Casino Estoril o artista da bola deu lugar ao artista da tela. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 10:18

Sexta-feira, 25.10.13

bairro alto - um coração em forma de quadrado

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Já antes de aqui viver gostava do Bairro Alto. Nasci em 1951 e desde pequenino vinha com o meu pai na camioneta e no trânsito lisboeta do final dos anos 50 era fácil encontrara lugar para estacionar. Depois vim em 1966 para a Travessa do Caldeira ali a Santa Catarina e passava pelo BA várias vezes por dia. Até para ir ao cinema ao São Jorge atravessava o BA ao tempo cheio de jornais e eléctricos: o 5, o 20, o 24, o 29 e o 30. Em 1976 vim para o coração do BA e tudo se tornou mais fácil: comecei a escrever no «Diário Popular» em 1978 (Rua Luz Soriano), em ABOLA no ano de 1979 (Travessa da Queimada) e o meu primeiro de poemas livro foi editado em 1981pela Editora Moraes na Rua de O Século. Comecei a gostar do BA como se gosta de uma pessoa de família, aceitando os lapsos, os defeitos e as falhas com toda a naturalidade. Aqui nasceram os meus filhos e todos vivem agora longe. Nem emprego nem casa aqui conseguiram, são três e só um é que vive em Lisboa, noutro bairro da cidade. Nunca sistematizei nada sobre o BA mas aqui há tempos em conversa com o arquitecto Hélder Carita, uma das pessoas que melhor conhece a história do BA, percebi então que o BA tem um coração em forma de quadrado e os seus extremos são dois jardins, uma praça e uma rua. Os dois jardins (é tudo relativo) são o de São Pedro de Alcântara e o do Príncipe Real. A praça é o Largo de Camões. A rua é a Rua de O Século, antiga Rua Formosa. Que Camilo nasceu em 1825 na Rua da Rosa é importante, que Vitorino Nemésio aqui viveu em 1919 e fez em 1942 da Rua da Rosa cenário para o «Mau tempo no canal», é importante, que Alves Redol aqui escreveu nos anos 60 «Os Reinegros» é importante mas este olhar sistematizado pode ajudar (e muito) a organizar melhor esta paixão pelo velho BA a caminho dos seus 500 anos. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 15:09

Quarta-feira, 23.10.13

guimarães - paisagem e povoamento por vergílio alberto vieira

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«Guimarães – paisagem e povoamento» poderia ser este o título do livro de Vergílio Alberto Vieira (n. 1950) com 37 páginas em digressão pelo espaço e pelo tempo da cidade. Seria «paisagem» porque o texto deambula pelos lugares de forma didáctica: «Vindo da Rua de Santo António ou da D. João I, é certo que já o afã de outras épocas não embaraça o andarim, sem saber para onde se dirigir: se pelo Largo do Pão ou do Leite, hoje da Condessa do Juncal, com passagem pela Rua Egas Moniz, dobrando à direita rumo ao Campo da Feira; se pela Rua da Rainha, de passo andado que, para o Terreiro do Carmo, não há que se enganar». Seria «povoamento» porque as figuras da terra («burgo, reino, império, nação») por aqui circulam desde Afonso Henriques, Camilo Castelo Branco, José Bandeira, Morais Sarmento, Alberto Sampaio, Abel Salazar ou Raul Brandão: «talvez o autor de «O pobre de pedir» gostasse de aqui ter sido sepultado junto à oliveira que hoje cobre de paz o espírito do lugar». Guimarães, terra de trabalho e de paixão, tem neste livro lado a lado as fábricas («curtumes, cutelarias, moagens, chapéus, atoalhados, algodões, sedas e papel») e o santuário do futebol: «Hoje todas as ruas da cidade irão ter ao estádio D. Afonso Henriques que se ergueu, há um bom par de anos, no lugar do imortal Campo da Amorosa.» Conclusão, precária embora: «Com todas e com nenhuma se parecem as cidades» porque «embora diferentes, embora iguais, o que no fundo as distingue é o que há de nós em cada uma». (Editora: Papéis de Fumar, Fotografias, Rui Sousa, Escultura: João Cutileiro) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 13:15

Terça-feira, 22.10.13

bairro alto sonhos e pesadelos - gostava que fernando alves pegasse no tema

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Dos chulos e das patroas de antigamente aos vereadores de agora Morrer duas vezes é um risco que todos nós corremos. Morre-se no registo civil, na igreja paroquial e no cemitério do município mas a morte só tem mais peso específico se não acontece em vão. Esta senhora, Isilda Simões de seu nome, morreu no Bairro Alto depois de uma série de acções criminosas (algumas por omissão) do que chamamos «autoridades» mas que não passam de cenários de papelão que qualquer chuvada destrói em minutos. Esta senhora morreu vítima da omissão de quem não podia autorizar uma alteração ao estabelecido pela EMEL no espaço público com um lugar de estacionamento. Sabe-se hoje que o estabelecimento de espaços na calçada e nos passeios já foi um abuso ao lado do fechamento do BA pois assim, ao proibir a circulação, a vereação e o presidente na altura sancionaram o facto de os jovens se sentarem nos passeios fazendo do nosso BA um bar a céu aberto. E como os bares são do tamanho de casas de banho não podem dar casas de banho aos clientes. Por isso eles urinam nas nossas paredes, contra as portas dos nossos automóveis e dentro dos óculos da gasolina das viaturas. Esta senhora morreu e não queria que o BA ande para trás e haja de novo «casas de meninas» que despejavam as tuberculosas nas escadas porque já não davam para a caixa. E depois vinha o padre Abel Varzim pagar um táxi até ao Hospital de S. José para, dias depois, abrir a igreja da Encarnação a um velório de noite inteira. Estamos em 2013 não em 1953 mas haja vergonha na CML e cada um assuma as suas responsabilidades. A culpa não pode morrer solteira. No tempo do padre Abel Varzim eram os chulos e as patroas que matavam as raparigas; agora são os vereadores que matam os idosos para que no BA apenas existam bares e restaurantes. O seu sonho é o nosso pesadelo. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 13:33

Segunda-feira, 21.10.13

«a noite das mulheres cantoras» de lídia jorge

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A literatura está sempre à frente da sua época, os escritores conseguem ver mais longe do que os políticos. Basta lembrar Carlos de Oliveira («Uma abelha na chuva») que adivinha e anuncia o regresso dos retornados a Portugal ou Milan Kundera que em vários livros antecipa a queda do Muro de Berlim. Lídia Jorge (n.1946) escreve e descreve a noite das mulheres cantoras numa Lisboa de 1987 que a escrita recupera em 2008 – 21 anos depois. Mas essas cinco mulheres cantoras («sou o quinto elemento de um agrupamento de música») fazem um pacto de não-amor («prometemos que não manteríamos ligações de amor de espécie alguma») mas a morte de uma delas («Madalena») faz lembrar os mortos de Lampedusa em Itália. A África expulsou os europeus («Expulsá-los-emos até à sua última pegada») mas os filhos desses apanhadores de chá morrem às portas da Europa em barcos superlotados, frágeis e clandestinos. Numa narrativa que se comenta a si própria há sempre duas hipóteses. Ou o geral («ainda haveria quem dissesse que foi uma história de vingança entre colonos e colonizados») ou, na voz de Gisela, o particular: «foi apenas uma história de gente, a história de um grupo vítima de uma mulher estúpida e sem escrúpulos e esse mulher sou eu».

Nesta história surge uma dupla inscrição: ora mágica ora realista. Começa num piano cujas teclas se movem sozinhas e acaba num tempo determinado: «esqueço a harmonia da noite estupenda criada por Gisela Batista para regressar a esse dia, último trimestre de oitenta e sete. O tempo era outro.» Em termos simples podemos afirmar que a arquitectura do livro se organiza à volta do grupo de mulheres que quer gravar um disco mas alcança as mudanças nas pedras e nas almas (A Ideal das Avenidas é hoje um Hotel) oscilando sempre entre a verdade e a mentira, entre a ficção e a memória, num Mundo dividido pelo Muro de Berlim: «Ou os homens se tonam irmãos e a Humanidade se salva ou a desigualdade campeará, a mentira vencerá e a Terra irá começar a desintegrar-se». A vida pode ser uma simples oportunidade, a vida é só uma e ficam sem resposta os «que exigem que nos separemos em partes que são inseparáveis. Não podemos ser de dois mundos». Viver será, por isso, «atraiçoar» porque «sobreviver implica trair.» As mulheres cantoras querem ser alguém, logo serem vistas do lado de fora e não do lado de dentro: «àquela hora uns trinta ou quarenta grupos portugueses ensaiavam como nós, cada um em sua garagem e todos com a mesma ambição». É a competição, a TV, o esplendor do efémero. Em resumo – um livro inesquecível com personagens que nos vão acompanhar mesmo depois da última página. (Publicações Dom Quixote, Capa: Rui Garrido, Foto: Pedro Loureiro, Revisão: Clara Boléo, Edição: Cecília Andrade) José do Carmo Fra --

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por José do Carmo Francisco às 17:00

Domingo, 20.10.13

mais uma morte no bairro alto por conta da cml

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Na passada quarta-feira morreu mais um habitante do Bairro Alto em consequência de uma acção criminosa por parte da Câmara Municipal de Lisboa ao transformar um lugar de estacionamento num espaço de esplanada. Escrevo «mais um» porque há tempos, noutra rua do Bairro, morreu um senhor que teve o azar de morar por cima de uma «bar» onde um grupo de «músicos» fazia um terrível batuque de portas abertas. E a CML mais a ASAE mais a Junta de Freguesia mais a Polícia Municipal mais a PSP nada fizeram. O senhor morreu porque o coração não aguentou e foi da morte dele que nasceu a «AMBA», uma associação de moradores com boa vontade mas poucos meios. Em tempos acreditei no vereador Sá Fernandes e participei num encontro com a direcção da AMBA e o realizador de cinema José Fonseca e Costa. O vereador mostrou-se surpreendido com o barulho e percebeu que a nossa vida é um inferno. De facto a nossa conversa não chegava ao fim da mesa. Digo que acreditei mas já não acredito. Não só pelo que ele fez no Príncipe Real com o abate de 64 árvores mas também pela rua que foi vendida no Cais do Sodré a uma empresa de bebidas, a Rua Nova do Carvalho. Estes vereadores enlouquecidos não percebem que a cidade não é deles. Repare-se que venderam o largo Trindade Coelho à Misericórdia e também um logradouro na Rua D. Pedro V e também a Rua António Enes à embaixada de Israel fazendo de Portugal um dos poucos países da Europa que tem um «check point». É repugnante mas é o que temos. E esses pobres vereadores continuam a sonhar com as esplanadas e o turismo, fingindo não saber que o nosso país importa grande parte daquilo que tem na mesa para comer. Nós e os turistas. Só os mortos já não podem comer e é isso que eles querem. Que o Bairro deixe de ter habitantes.
José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 10:39

Quinta-feira, 17.10.13

bairro alto - velho de 500 anos adapta-se e resiste

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Texto dedicado a Luís Paisana da AMBA – o Bairro Alto velho de 500 anos Quinhentos anos são muito na vida de uma pessoa mas pouco no tempo da cidade. O percurso do ser humano vai dos avós aos netos; no meu caso são cem anos. O meu avô José Almeida nasceu em 1906 e o meu neto Thomas em 2006. Para um Bairro quinhentos anos é pouco mas percebe-se nas casas e nas ruas a passagem do tempo, na paisagem há gente diferente da gente anterior. Hélder Carita defende que o BA nasceu em 1498 e exibe documentos mas 1513 tem mais seguidores. Hoje afirmo uma esperança (o BA adapta-se e resiste) no meio de tanta tristeza. Vivi na periferia do BA desde 1966 a 1976, ano em que passei para o seu interior. Aqui nasceram os meus filhos, aqui andaram no infantário, na escola e na catequese mas todos foram obrigados a emigrar para fora: um para a Graça e duas para o estrangeiro. Vejo com apreensão as hordas de estudantes estrangeiros, gritando a alegria de preços baixos nas bebidas alcoólicas, coisa que no seu país não existe nem no preço nem no ruído que lhes é permitido. Mas além do ruído que todos os moradores sofrem, há o lixo e a urina nas paredes e nos automóveis além dos outros malcheirosos dejectos no escuro das ruas e que só a manhã descobre junto com os copos das caipirinhas, outras porcarias e copos da cerveja às centenas numa terra queimada perante a indiferença da Polícia e o silêncio da CML. O BA deu sentido à minha vida. Foi no Diário Popular que comecei a escrever em 1978, foi na Moraes Editora que saiu o meu primeiro livro em 1981.Escrevi em A BOLA e no RECORD. Aqui nasceu Camilo Castelo Branco na mesma Rua da Rosa onde Vitorino Nemésio viveu e desenhou o João Garcia em «Mau tempo no canal» e onde Alves Redol fez «Os Reinegros onde um operário não sabe ler. A Rua do Diário de Notícias ainda é a mesma. O BA respira pelos seus jardins e resiste. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 21:56

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