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Transporte Sentimental



Sábado, 24.08.13

manuel cintra - «ruas desertas cheias de gente deserta»

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Quando em 1986 publiquei na revista «Seara Nova» o estudo intitulado «Poesia Portuguesa anos 80 - algumas direcções», os poetas referidos foram José Agostinho Baptista, Joaquim Pessoa, Paulo da Costa Domingos, Manuel Cintra, J.O. Travanca-Rego, João Candeias e Emanuel Jorge Botelho. Passados 27 anos, o diagnóstico de então mantém-se e a suas obras poéticas continuam na primeira linha. Não surpreende, portanto, a recente segunda edição de «Caruma» de Manuel Cintra com um desenho de Luís Manuel Gaspar. No seu primeiro livro em 1982 («Do lado de dentro») já o autor avisava: «Eu era um homem e escrevia / não que aspirasse pela fama / mas com um certo desdém pelo silêncio no ouvido alheio». Não é de estranhar esta advertência num poeta que é filho de um homem de letras, irmão de um actor/encenador e é (ele próprio) um homem de teatro. A sua lucidez percebe a ínfima parte dos leitores que, num país de analfabetos, pode dar alguma atenção à poesia. No poema que dá o título ao pequeno livro de 20 páginas («Caruma») o poeta dirige-se a si mesmo e adverte: «Não não, não é obra perdida, choram-se litros e choram-se mares e pensa-se em pontos finais e vasculha-se ruas desertas cheias de gente deserta e talvez, apenas talvez por entre as covas os côncavos vazios de banalidades que saturam, estejas tu, sejas lá quem fores, tu com as tuas chuvas de sol que iluminam as almas, com as tuas raízes novas que prendem amor à terra, com a tua seiva inesperada que manda crises à merda e abre braços à fome e à vontade de comer…» Entre o precário da vida («chorei oceanos») e o inevitável do fim («a morte está no caminho») só o amor pode salvar porque resgata o quotidiano. Como diz o poeta em «Água»: «mas um dia vi-te num curto silêncio / e compreendi a partilha / e decidi renascer». (Impressão: Artes Gráficas de Lisboa, Desenho: Luís Manuel Gaspar) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 17:26

Sábado, 24.08.13

para um postal do rossio na rua da misericórdia 94

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As cidades são, como as pessoas, camadas de memória, pedra e areia umas em cima das outras e cada camada corresponde a uma década mais ou menos. Este exemplar que vi na Rua da Misericórdia 94 é uma edição especial (18 postais) da «Editora 19 de Abril» e corresponde a um Rossio do início do século XX. Em Setembro de 1966, quando comecei a trabalhar na Rua do Ouro (ou Rua Áurea) o lado de cá do postal mostraria, se pudesse, um eléctrico «28» pronto a iniciar a marcha para a Estrela. Já só circulava aos fins-de-semana e chegava da Estrela ao Rossio subindo a Rua Augusta. Muitas vezes saí do Metro no Rossio e o apanhei para a Calçada do Combro para sair perto da Escola D. Maria. Eu vivia nas traseiras dessa Escola, na Travessa do Caldeira. Aliás em Lisboa sempre morei em Travessas – Travessa de São Pedro e Travessa do Barbosa além da Travessa do Caldeira, ali à Fernandes Tomás. É uma curiosidade pessoal num destino de 47 anos que não escolhi mas veio sempre ter comigo. Não vou desistir e talvez a Marina Tavares Dias o tenha no seu imenso arquivo da cidade desaparecida. Continuo à procura do postal que mostre o «meu» eléctrico «28» dos sábados e dos domingos de 1966 e tudo isto acontece porque estão a levantar as travessas e os carris da Rua do Ouro e no seu lugar vão colocar uma nova camada de asfalto negro. Para o homem do camião é mais um ferro mas para mim é a minha vida que ali ficou em parte. O destino das ruas, como as artérias e as veias das pessoas, é transportar o sangue que dá vida ao corpo da cidade. Tudo se transforma, tudo se altera, tudo parece novo porque as camadas novas nas ruas da cidade escondem as velhas camadas de memória, de pedra e de areia. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 08:37


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