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Transporte Sentimental



Sexta-feira, 16.08.13

entregávamos resina e levantávamos açúcar, arroz, botas, camisas e calças

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«Viver e resistir no tempo de Salazar» de Maria Alice Samara e Raquel Pereira Henriques Com o subtítulo de «Histórias de vida contadas na 1ª pessoa», este trabalho com 151 páginas foi feito por duas autoras de gerações diferentes (uma nasceu em 1974 e outar em 1962) e surgiu a partir de entrevistas a seis homens e dez mulheres. Foram depois consultadas cinco pessoas, todas com diferentes percursos pessoais. As memórias começam pela casa: «A casa onde vivíamos era uma casa velha, igual a tantas outras em pedra que vedava mal o frio e a chuva.» Continuam pelas roupas: «No início não havia cobertores, apenas mantas de fitas, feitas de tiras de roupa mais velha, tecidas depois em teares. Os lençóis eram feitos de umas sacas de açúcar, muito branquinhas, arranjadas por um tio meu». Depois a loiça da casa: «Quando havia um almoço ou um jantar pedíamos a loiça de casa uns aos outros». Sem esquecer os talheres: «Havia talheres de lata, alguns com cabo de madeira. Mais tarde apareceram em alumínio.» A falta de água canalizada era outro problema: «Ia-se buscar água à barroca, à ribeira. Agora é uma facilidade.»Nesse sentido, a casa de banho era um luxo: «Nós tínhamos a única casa de banho que havia naquela aldeia (Sipote). De tal modo era assim que passámos a acolher na nossa casa as professoras primárias.» Mas era tudo complicado: «Tínhamos rádio mas não tínhamos frigorífico. Só no 25 de Abril é que tivemos esquentador.» As normas da moral vigente surgiam de repente na voz de uma professora de Moral: «as meninas não devem andar de vermelho e preto que isso atiça os homens.» Claro que as alunas não sabiam sequer o que era «atiçar». Descobriam tudo, mais tarde, de modo doloroso: «O meu pai chegou a andar com três amantes ao mesmo tempo e uma delas tinha andado comigo na escola.» Ou noutro depoimento: «Mais tarde percebi que todos tinham amantes, era raro o casal da geração da minha mãe que se dava bem, contam-se pelos dedos.» Um outro aspecto tem a ver com a economia: «A resina na altura (anos 60) era a grande fonte de receita das famílias daquela zona da Beira. Trocávamos o dinheiro da resina por roupa. Entregávamos a resina num armazém que a comprava e levantávamos por conta da resina o açúcar, o arroz, as botas, as camisas e as calças.» No notar um pequeno lapso na página 43: o uso da palavra «estremenha» (de Estremadura) em vez de «estamenha» (tecido grosseiro) nada que altere o alto interesse do livro feito de depoimentos na primeira pessoa. (Editora: Verso da Kapa, Paginação: José Teixeira, Paginação: Joana Albuquerque) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 16:19

Sexta-feira, 16.08.13

josé cruz - «luz, restelo, tapadinha, alvalade»

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José Cruz – dissertação para uma fotografia O peso da multidão – poderia ser a legenda para a foto de José Cruz tirada no já distante ano de 2001. Eu estava lá nesse dia 12 de Agosto, escrevia sobre o futebol juvenil mas nos jogos da equipa «A» era mais um no meio do povo «leonino». Desde sempre me lembro de associar as multidões do futebol aos eléctricos. Cheguei a Lisboa no dia 8 de Setembro de 1966 e comecei a trabalhar no dia seguinte, uma sexta-feira, nesse tempo os bancários trabalhavam ao sábado até às 13 horas. No dia 12 de Setembro utilizei o 24 (Praça do Chile-Carmo) para ir tirar a chapa dos Tuberculosos. Fui conhecendo a cidade através do futebol e dos seus eléctricos. Havia o 2 para o Sporting, o 18 para o Atlético, o 5 para o Benfica, o 16 para Os Belenenses, o 17 para o Oriental. No poema «Luz, Restelo, Tapadinha, Alvalade» registei essa realidade e essa memória. Na «Balada da Morais Soares» fiz a cartografia dos chamados carros com atrelado a caminho da Escola Patrício Prazeres. O som da campainha do segundo carro não morreu ainda. A seguir aos eléctricos descobri os elevadores; no de Santa Justa pagava dois tostões. Ao lado do elevador era a casa do ensaio da Banda da Carris. Devo a esse pormenor o primeiro poema do meu livro «Transporte Sentimental». Não esqueço também o estádio nacional no Jamor e a célebre raquete do eléctrico 15 (Praça do Comércio-Estádio), estádio esse onde assisti ao vivo à vitória do Celtic sobre o Milan por 2-1 em 1967 na final da Taça dos Campeões Europeus com o endiabrado Jimmy Johnstone a ganhar no relvado o definitivo nome de Lisbon Lion que ainda hoje em Edimburgo nas lojas do Celtic é pronunciado com respeito. A foto de José Cruz em 2001 contém essa magia do jogo que as vigarices dos dirigentes vieram aos poucos destruir para sempre. Doze anos depois posso perguntar: quem saiu desta foto para não voltar?

José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 09:43


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