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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 07.08.13

outras leituras de 2008 - liberto cruz

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«Gramática Histórica» de Liberto Cruz
Trata-se de uma reedição revista e aumentada do livro original de 1971, uma edição semi-clandestina impressa no Funchal e assinada com o pseudónimo de Álvaro Neto. Dois aspectos tornam este livro exemplar: a publicação de «poemas concretos» como «Dolor Dollar», «Grelha Vocálica» ou «Homenagem a Winfredo Bonifácio» e de poemas dentro da nossa antiga linha do «escárnio e mal dizer». Como por exemplo este poema: «governo permanente / povo doente / coragem ausente / ditadura vigente / castração evidente / nação indolente» Ou então este: «Um gajo sem cunhas pediu uma Bolsa. / Nicles, claro! / Dizem que ficou com uma grande cachola. / Que artolas!» Ou ainda este: «Em Portugal haver mocidade portuguesa / é um pleonasmo a evitar» E ainda este: «A região é pobre. /O país não precisa de partidos. /O nosso povo é frugal.» Sem esquecer este: «É um grande prazer estar entre esta gente calma, paciente, ordeira, resignada, crente, esta gente bem portuguesa.» E por fim este poema síntese: «Um verdadeiro português contenta-se com um quarto de pão e uma sardinha assada.» Vejamos também uma divertida incursão no tempo actual; no poema «S» português: «Sertório / Sebastião / Saldanha /Sidónio / Salazar / Spínola / Sá-Carneiro / Soares / Sampaio / Santana / Sócrates». Para quem não conhece a edição de 1971 aqui está uma verdadeira descoberta; muito para além do título – está aqui um certo tempo português. (Editora: Roma Editora, Prefácios: Haroldo de Campos e João Fernandes, Capa: J. Rogeiro) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 23:34

Quarta-feira, 07.08.13

outras leituras de 2008 - domingos lobo

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«As lágrimas dos vivos» de Domingos Lobo
É entre o Amor e a Morte que nascem as lágrimas dos vivos. Mesmo que as origens das lágrimas se subdividam em Fascismo e Revolução, Eutanásia e Guerra Colonial, Sexo e Religião. Ou então a SIDA, a protagonista de uma narrativa deste livro («Começava a ver os amigos a desaparecer. Hoje um, amanhã outro. Um mapa de cruzes num calendário de cadáveres. Resistia ele, pensando que o não atingiria a peste, que lhe permaneceria imune.») cujo contraponto é o livro «A peste» de Albert Camus - «durante a peste de Marselha o bispo Belzunce encerrou-se na sua casa que mandou murar; os habitantes, zangados com ele cercaram-lhe a casa de cadáveres para o infectar e atiraram corpos por cima dos muros». A narrativa tem como outro contraponto a «Querelle de Brest» de Jean Genet e o seu universo povoado por «prostitutas velhas, assassinos, ladrões, crime, orgia, violência, sexo.» lado a lado com a narração da morte próxima: «Tinha as mãos suadas. Notava-se-lhe algum nervosismo enquanto procurava um bloco de notas, consultava os papéis. São os segundos testes. Eu sei, doutora. Já não há dúvidas. Não. Já não há dúvidas. Ia viver o resto dos seus dias numa escravatura mansa, condicionada por horários, comprimidos, análises. Sem futuro.» Ou como escreveu Camus em «A peste»: «Eu sofria da peste muito antes de conhecer esta cidade e esta epidemia. Isso significa que sou como toda a gente. Mas há pessoas que não o sabem ou que se encontram bem nesse estado e pessoas que o sabem e queriam sair dele.» (Editora: Nova Veja, Capa: José Manuel Reis) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 23:32

Quarta-feira, 07.08.13

novas leituras de 2008 - violência e futebol

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«Violência e Euro 2004» de Pedro Sousa de Almeida
O subtítulo do livro é «A centralidade do futebol na cultura popular» e nele são analisados, além da violência («A violência é intrínseca no futebol, tanto na arena dos jogadores como na bancada dos apoiantes») alguns aspectos algo inesperados: «O facto de a final do Euro ter sido disputada por Portugal e a Grécia é profundamente significativo. Os gregos consideram-se os herdeiros de uma cultura que inventou a civilização ocidental e, através desta, inventou a modernidade. Os portugueses associam a era dos descobrimentos a um essencial contributo da nação portuguesa para a civilização ocidental e a hegemonia do Ocidente na modernidade. Muito do que se passou em Portugal terá sido influenciado pelo facto de que Portugal perdeu o primeiro jogo e depois apenas tornou a perder o último. Esta situação manteve a sociedade portuguesa suspensa numa radical liminaridade formada pela derrota inicial.» O único homicídio verificado dentro do espaço do Euro 2004 não teve a ver com futebol: «tratou-se de uma tentativa de assalto de um indivíduo de origem ucraniana residente em Portugal a um inglês». Para o autor «um jogo de futebol, durante os noventa minutos da competição, é como qualquer evento litúrgico, público ou celebratório, uma performance ritual com os seus processo de quebra, liminaridade e reintegração. No entanto quando a selecção nacional sai para fora coloca o conjunto dessa sociedade numa liminaridade global que não atinge apenas os adeptos mas o conjunto da nação.» (Editora: Colibri, Apoio: IELT, Patrocínio: FCT, Apresentação: Ana Paula Guimarães, Prefácio: Teresa Sousa de Almeida, Capa: Ricardo Moita) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 23:29

Quarta-feira, 07.08.13

«cada um de nós tem, à flor da memória, uma colecção de golos inesquecíveis»

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«O sapo de Arubinha» de Mário Filho Mário Filho (1908-1966), autor de «O negro no futebol brasileiro» e do romance «O rosto», foi cronista em «A manhã», «O Globo» e no «Jornal dos Sports», lançou a Copa Rio, criou o Torneio Rio-São Paulo, trouxe ao Brasil os remadores de Cambridge e de Oxford, criou os Jogos da Primavera e os Jogos Infantis com mil equipas e 16 mil jogadores. O estádio Maracanã tem o seu nome. Para Nelson Rodrigues, seu irmão, «Mário Filho foi o único grande homem que eu conheci. Grato à vida, nunca se arrependeu de ser humano, de ser nosso semelhante. Era um ser atravessado de luz como um santo de vitral». Não por acaso o livro tem o subtítulo de «Os anos de sonho do Futebol Brasileiro» porque há uma crónica desportiva no Brasil antes de Mário Filho e outra depois. Antes, um Fla-Flu era assim noticiado: «Será levado a efeito amanhã, no aprazível field da rua Paissandu, o esperado prélio». Mário Filho mudou tudo. Vejamos como. Escreveu sobre Didi: «Descobriu a folha-seca e, se não a usa sempre com o mesmo sucesso, sempre deixa acesa no coração de todos nós, a esperança de um gol de longe, indispensável para a vitória.» Ou sobre os jogadores diferentes: «Gosto de palmeiras nos lugares próprios. Agora de jogador de futebol metido a palmeira, não gosto. Tenho uma prevenção contra esse jogador ereto, duro, apalmeirado, que não se ajoelha, que não se curva, que não se abaixa.» Ou sobre a selecção nacional: «O escrete não engana: mostra o jogador tal como ele é. Pode-se temê-lo. Mas não há consagração definitiva fora do escrete.» Ou ainda sobre o passado: «Cada um de nós tem, à flor da memória, uma coleção de gols inesquecíveis. Um deles é património nacional. Mesmo os que não o viram, que nasceram depois, lembram-se dele como se tivessem vivido o grande momento do Campeonato Sul-Americano de 19.» A crónica título ao volume nasce duma maldição. Uma noite os jogadores do Andaraí esperaram com gentileza pelos atletas do Vasco, parados no Banco do Hospital devido a um acidente de automóvel na viagem para o campo. O resultado foi Vasco, 12- Andaraí, 0. O torcedor chamado Arubinha rogou uma praga: «Se há um Deus no céu, o Vasco tem que passar doze anos sem ser campeão.» Procuraram o sapo que nunca apareceu. Conclusão: O Vasco só voltou a ser campeão em 45, onze anos depois. (Editora: Companhia das Letras, Selecção e notas: Ruy Castro, Prefácio: Nelson Rodrigues, Capa: Vitro Burton) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 10:20


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