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Transporte Sentimental



Quarta-feira, 31.07.13

«o nosso escol é estruturalmente provinciano» f.pessoa

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«O caso mental português» de Fernando Pessoa seguido de «A loucura universal» de Raul Leal O texto de Fernando Pessoa abre em advertência: «Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria provincianismo». E explica: «O amor às grandes cidades, às novas modas, às últimas novidades, é o característico distintivo do provinciano». De seguida define as três camadas mentais; povo, classe média e elite: «O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. O que caracteriza a segunda camada é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. O que caracteriza a terceira camada, o escol, é a capacidade de criticar com ideias próprias.» E conclui: «A tragédia mental de Portugal presente é que o nosso escol é estruturalmente provinciano». Sobre escritores e políticos, Fernando Pessoa começa por advertir («Não sei de poeta português de hoje que seja de confiança para além do soneto»), de seguida explica-os («Ignoram que um poema não é mais do que uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio») e termina afirmando: «O nosso ecol político não tem ideias excepto sobre política. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias». Raul Leal escrevia quase sempre em francês e começa por avisar: «Em cada coisa e em cada elemento de Ser encontramos o Infinito e nada encontramos: tudo são trevas e luz em tudo». Mas faz uma longa pergunta: «Não é o Universo uma viva reunião caótica e ao mesmo tempo sistemática de uma infinidade de aspectos convulsivos em Vertigem? Não há nele força, espasmos, delírios, prazeres, dores, luxúria, ânsia, poder, luz, trevas, humilhações, orgulho, vida e morte? E tudo isso, todos esses fantasmas da Vida, não surgem em grandeza colossal através do Mundo inteiro? E não surgem ainda labirinticamente, espasmodicamente, emaranhados uns através dos outros, formando um mundo autêntico de Vertigem Pura? Porque não vedes assim em tudo uma loucura universal?» (Editora: Padrões Culturais, Introdução: Alberto Cardoso, Capa: Mário Andrade) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 18:54

Quarta-feira, 31.07.13

manuel neto - um olhar que não tem preço

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Manuel Neto – dissertação sobre um instante na cidade Uma cidade é, para além das suas ruas e das suas gentes, também todas camadas de memória que se apresentam no horizonte a quem a procura descobrir. A fotografia de Manuel Neto precipita uma viagem na memória pessoal com os seus invisíveis carris, suas campainhas e seus homens de bigode ao comando dos carros eléctricos. Na minha memória era o ano de 1966, era Setembro, eu tinha começado a trabalhar na Rua do Ouro, ganhava 900 escudos por mês e o «28» chegava ao Rossio pela Rua Augusta acima. Para a Estrela esse eléctrico «28» descia a Rua do Ouro até à Rua da Conceição mas só aos fins-de-semana. Já então era intenso o trânsito na Baixa de Lisboa com um sinaleiro em cada esquina. Nesse tempo não se dizia «passe» pois «assinatura» era o nome do cartão anual da CCFL para viajar em todos os seus eléctricos. Os empregados do BPA traziam todas as manhãs da Graça no «28» o saco com as letras descontadas sobre a praça e com os cheques para a Câmara de Compensação. Hoje, quando vou buscar o meu neto Pedro ao colégio, vejo a gramática da velocidade deste eléctrico a registar-se nas máquinas fotográficas dos turistas. Aqui, na fotografia de Manuel Neto tudo começa no peso das pedras que a chuva revelou debaixo do asfalto. Há nesta sua foto (como nas outras) um olhar atento, comovido e sensível que capta a cidade nos fotogramas sucessivos da sua alma e da sua paisagem povoada. Numa certa loja de artesanato na Rua da Misericórdia nº 94 os turistas compram e levam para o Mundo um instante de Lisboa que é Lisboa num instante. Quase pelo preço de um bilhete postal (parado, repetido e mecânico) o que os turistas levam, na verdade, nas suas malas atafulhadas de recordações e de objectos é uma feliz contradição – No preço dum olhar, um olhar que não tem preço. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 09:47

Terça-feira, 30.07.13

«se eu quisesse, enlouquecia» - herberto helder

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De Herberto Helder poeta obscuro ao Coelacanto da Revista homónima De Herberto Helder (Funchal, 1930) tenho as vacinas todas em dia. No dia em que, nos anos 80, lhe fui apresentado por E.M. Melo e Castro na Pastelaria Mourisca na Fontes Pereira de Melo fiquei logo com a ideia profunda, total e completa das suas contradições. Estava a rever provas tipográficas dum livro (salvo erro «As magias») mas advertiu-me que tinha deixado de escrever. Era o total antagonismo entre o praticado (revisão de texto) e o proclamado - fim da actividade. Mais tarde convivi com Herberto Helder no Bar Expresso (entre duas livrarias) e no restaurante «As Galegas» nas Escadinhas do Duque. Ofereci-lhe alguns dos meus livros embora soubesse que ele não lhe daria a importância relativa que, por exemplo, Mário Cesariny me afirmou ter dado aos meus livros nas visitas que em 1984 fiz a sua casa junto ao IPO. Um dia H.H. explicou-me que o seu interesse em ir ao Funchal estava reduzido a zero depois de descobrir que o seu maior amigo do tempo de Liceu tinha agora uma farmácia e o especial prazer de viajar com a equipa do Marítimo pelas cidades e vilas do Continente de 15 em 15 dias. Tenho um poeta amigo que guarda religiosamente uma edição do livro «Cobra» de H.H. devidamente alterado pelo autor no que se pode afirmar ser uma edição única, original e irrepetível. Nos tempos do Bar Expresso havia quem chamasse àquela mesa o «Chernobyl» porque o cérebro de H.H. era o reactor nuclear que fazia aquecer a assembleia de devotos. Admiro a obra de H.H. e tenho muitos dos seus livros mas não sou devoto incondicional nem fanático da sua escrita. Nesse aspecto lembro e recordo a ideia de Pedro Tamen que um dia me lamentou as circunstâncias que levaram à ausência de livros de Carlos de Oliveira e de Herberto Helder na colecção «Círculo de Poesia» da Moraes Editora. Mais tarde, em 1977, organizou uma antologia dos 20 anos do Círculo de Poesia e conseguiu incluir poemas dos dois autores nesse belo volume. O «Diário de Notícias» de 20 de Julho de 2013 dedica-lhe 4 páginas. Leio o jornal em Armação de Pera numa esplanada. E fixo as palavras de H.H. «Se eu quisesse, enlouquecia.» Nem de propósito; a meu lado uma senhora poderia ter dito o mesmo na dignidade magoada do seu olhar. Tem a seu cargo, numa cadeira de rodas especial, um jovem de 18 anos quase sem cérebro que se exprime por monossílabos. Passa por mim um casal cujo filho mais velho morreu no mar há vinte anos e tinha no olhar 18 primaveras de esperança. Recordo um campeão do Mundo que me disse um dia: «Trocava todos os meus campeonatos pela vida da minha filha que morreu com 18 anos». Todos eles poderiam ter dito como o poeta: «Se eu quisesse, enlouquecia». Uma das chaves para a poesia de H.H. pode ser essa: a sua mãe morreu quando ele era ainda uma criança e ele escreve para ligar de novo o que a morte separou. Todos os poetas afinal o fazem mesmo quando não parece. A Revista Coelacanto dirigida por Nádia Silvestre aí está com muita coisa interessante sobre Música, Fotografia, Cinema, Artes Plásticas, Literatura, Banda Desenhada e outras artes além da homenagem a António Maria Lisboa (1928-1953). Em «Os passos em volta» H.H. recorda um coelacanto «peixe quase fabuloso que até há poucos anos se julgava desaparecido da terra». Já Mário de Carvalho em «O homem do turbante verde» lhe chama celacanto - «peixe que existe na terra há mais de setenta milhões de anos». Foi uma boa escolha para título da Revista. O António Maria Lisboa viveu vertiginosamente mas a sua obra tem estado num silêncio de fundo do mar. Como um coelacanto? Talvez. --

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por José do Carmo Francisco às 16:37

Segunda-feira, 29.07.13

o mais extraordinário avançado-centro de portugal

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«Memórias de Peyroteo» reedição coordenada por João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro O projecto, anunciado «A autobiografia do maior goleador do futebol português», revela que muitas vezes uma boa ideia pode ter uma má conclusão. Nas suas 303 páginas o livro (cujo original de 1957 tinha 391 páginas) contém numerosos equívocos, confusões e erros. Anuncia-se como uma reedição mas trata-se de uma reedição parcial: capítulos como «Casamento», «Alcunhas» e «Superstições» surgem nas páginas 136, 131 e 138 do livro quando no volume original surgem nas páginas 293, 273 e 299. Na página 16 chama «campeonato da Liga» a um torneio particular e experimental, no qual os clubes entravam por convite. Disputado entre 1934 e 1938, nos domingos deixados livres pela disputa do Campeonato de Portugal (o único que atribuía o título de campeão) os quatro torneios da Liga foram sempre experimentais até num aspecto: não havia campeão nem descida de divisão pois o último classificado do torneio (a Académica de Coimbra) foi convidada nos anos seguintes para participar. Fernando Peyroteo refere o assunto escrevendo que em 4-7-1937 assistiu ao jogo final do campeonato dessa época. Claro que era o campeonato de Portugal. Outro erro está na página 289 que refere Cipriano Santos (sic) do futebol que nada tem a ver com Cipriano dos Santos do hóquei-em-patins. O primeiro nasceu em 1901 (Almada) tendo-se estreado na baliza do Sporting Clube de Portugal em 1923 e jogado até 1932. Venceu 4 campeonatos de Lisboa e 1 campeonato de Portugal, alinhou 2 vezes na equipa «A», sendo suplente de Roquete em Amsterdão nos J.O. de 1928. O segundo nasceu em 1920 (Viseu) sendo 72 vezes internacional em hóquei, campeão do Mundo e da Europa em 1947/48/50 e 52, campeão nacional em 199949/50 e vencedor do Torneio de Montreux em 1947/51. O livro refere na página 34 um jogo entre Júlio Peyroteo (irmão de Fernando) e Cipriano dos Santos (ao tempo na Académica) realizado em Angola nos anos 30 quando Cipriano dos Santos (do hóquei) era ainda uma criança. Outro aspecto tem a ver com o facto de na ficha técnica do livro se referir que «O texto autobiográfico de Fernando Peyroteo mantém a ortografia original» quando na verdade o chamado «acordês» luso-brasileiro impera e domina o texto. Veja-se na página 22 as palavras caráter, correto e retidão por carácter, correcto e rectidão. Na página 40 surge retificasse por rectificasse. O prefácio de Cândido de Oliveira também não escapa: na página 20 aparece duas vezes aspeto por aspecto. Na página 153 surge «Concelho» Técnico por «Conselho» e refere-se «Os Belenenses» como campeões nacionais em 1946/47 quando é bem 1945/46. Na página 7 escreve-se «retirando-se aos 30 anos» quando Peyroteo se retirou aos 31 anos. Nasceu em Março de 1918 e retirou-se em Outubro de 1949. Na página 49 surge ato por acto e teto por tecto. O nome de Szabo aparece na página 55 mas também na página 95 como Sezabo e umas vezes é tratado por Joseph outras por Josef ou José. Sobre os itálicos nos nomes dos jornais veja-se na página 13 os jornais e revistas em itálico mas na página 129 «A Bola» surge com aspas e o Diário Popular sem aspas nem itálico. Na página 44 surge «gui-tarra» por guitarra. Na página 291 refere-se que Gustavo Teixeira nasceu no mesmo ano de Manoel de Oliveira mas podia adiantar-se que em 1908 nasceu Carmen Miranda. Na página 180 surge a expressão «o sôr dá o foral» quando é bem «o sôr dá o fora» - como no livro original surge um ponto de exclamação a seguir a «fora», este ponto foi agora confundido com um «l». Editora: Afrontamento, Design: Isaac Caetano, Prefácio: Cândido de Oliveira, Epílogo: Fernando Peyroteo (filho) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 16:01

Terça-feira, 16.07.13

outras leituras de 2008 - hugo santos

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«Ode a Nossa Senhora do Homem» de Hugo Santos

Prémio de Poesia «Mário Viegas 2005», este trabalho poético pode ser lido
como uma oração à mãe do Céu mas também como um poema à mãe da Terra. O
poeta chega ao poema e diz de onde vem: «Trago comigo / do meu país-ao-sul
/ o pão ázimo da flor / do loendreiro / o perfume frágil das estevas / o
silvido azul dos torcazes de Novembro / os olhos claros e imemoriais / das
garças sustendo / sob as asas abertas / o tempo inexorável das colheitas.»
Depois pede à mãe a sabedoria: «Ensina-me se puderes / o que não cabe nos
livros / nas filosofias / nos tratados / nas enciclopédias / mas o que,
hesitante, recomeça / na harmonia da ignorância.» A seguir pede o amor:
«Certifica-me de que a palavra amor / se escreve em todas as línguas / em
todos os lugares da terra / para que os que a não amam a soletrem / para
que os que a não usam a adivinhem / e para que, sendo cegos, a tacteiem / e
os surdos a proclamem tão alto / que ela ecoe como um tímbalo / no ausente
coração de todas as distâncias.» Por fim pede a memória: «Ama por esta casa
/ este livro / esta cidade. / Ruirão as paredes / rasgar-se-á o livro /
desaparecerá a cidade / mas a paixão persiste revigorada / pelas
nostalgias. /Um dia debruçar-nos-emos à memória / da casa, do livro e da
cidade / e tudo estará lá, intacto e imperecível / como no instante preciso
da sua anunciação.»
(Editora: Nova Veja, Capa: sobre pintura de Mário Rodrigues, Apoio: Centro
Cultural de Santarém)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 15:46

Terça-feira, 16.07.13

outras leituras de 2008 - são tomás de aquino

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«Os sete pecados capitais» de S. Tomás de Aquino

Além dos sete pecados capitais (Soberba, Vaidade, Inveja, Ira, Avareza, Gula e
Luxúria) este trabalho com textos seleccionados da «Suma teológica» e das
«Questões disputadas sobre o mal» inclui um capítulo sobre outro pecado
capital: a acídia ou acédia. Vejamos um aspecto: «Quando um homem foge da
tristeza verifica-se o seguinte processo: primeiro foge do que o entristece e,
depois, chega a iniciar uma luta contar o que origina a tristeza. No caso da
acídia, já que se trata de bens espirituais, esses bens são fins e meios. A
fuga do fim acontece pelo desespero. Já a fuga dos bens que conduzem ao fim
dá-se pela timidez, que é referente aos bens árduos e que requerem ponderação e
pelo torpor em relação aos deveres, no que se refere à lei comum. Por sua vez,
a luta contra os bens do espírito que pela acídia entristecem, é o rancor, no
sentido de indignação quando se refere aos homens que nos encaminham a eles; é
a malícia quando se alarga aos próprios bens espirituais que a acídia leva a
repelir. E, quando se é arrastado pela tristeza, um homem abandona o espírito e
instala-se nos prazeres exteriores, temos também a divagação da mente pelo
ilícito. (…) A amargura é um certo efeito do rancor; a ociosidade e a
sonolência reduzem-se ao torpor em relação aos deveres: o ocioso abandona-os e
o sonolento cumpre-os de modo desleixado.»
Na página 47 se revela uma ideia de S. João sobre o pecado, a morte e a vida:
«Quem não ama, permanece na morte».
(Editora: Padrões Culturais, Tradução: Augusto Lourido Rodrigues, Capa: Mário
Andrade)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 15:44

Terça-feira, 16.07.13

outras leituras de 2008 - pranto por vila viçosa

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«Pranto por Vila Viçosa» de Rui Caeiro

Vila Viçosa é a personagem deste livro: «Na minha terra, doce, amarga e
viçosa, na minha terra, digo, sobre a minha terra foi escrito este livro. A
duzentos quilómetros dela.»
Numa viagem ao passado («estou diante do puro passado, realidade primeira,
esteio de todos os meus presentes») o autor começa por recordar as classes
sociais: «Na minha terra havia os burgueses, os pobres e os pobrezinhos.
Não se podiam ver uns aos outros.»
O mundo dos homens nem sempre coincidia com o das mulheres («as mulheres
iam à igreja, os homens à taberna») embora fosse sobre as mulheres que
recaíam as tarefas de prover à subsistência: «Se havia pão, faziam açorda
de poejos; se não havia pão, mera sopa de poejos.» Vila Viçosa é paisagem
(«o vento, o sol, a chuva, o calor, o frio, eram mais amáveis») mas também
povoamento: «Na minha terra há muita gente. Mas eu cá aconselhava-os a
todos a, na medida do possível, passarem mais despercebidos.»
Tudo começa numa casa: «Na minha terra há uma casa que não me pertence, eu
é que pertenço a ela. Foi vendida a casa dos meus avós e – ó Álvaro
de Campos – o que eu sou hoje é também terem vendido aquela
casa…»
A memória do autor envolve não apenas os seu mundo («Na minha terra nasceu
gente ilustre. Públia Hortênsia de Castro, Florbela Espanca, Henrique
Pousão, Bento de Jesus Caraça.») mas o mundo à sua volta: «Havia um homem
que chorava, sabe-se lá por quê e havia um garoto que saudava despreocupado
o ar fresco da manhã, a praça vazia, a dor de um homem. Ao mesmo tempo que
ia passeando a sua meninice e, não tendo mais remédio nem alternativa,
olhava e aprendia.»
(Posfácio: Vítor Silva Tavares, Depositária: Livraria Letra Livre)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 15:41

Sábado, 13.07.13

entre batalhas e orações - à maneira de fernando alves

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Dissertação sobre uma fotografia de Manuel Neto
Há neste lugar um menino com menos de dois anos, um menino que passa à
porta do Panteão Nacional e ainda nada sabe da posteridade. O seu tempo é o
tempo de usufruto dos dias, na alegria instalada no instante, sem passado
nem futuro. O menino, porque é ainda menino, não tem memória, as suas
palavras são esboços de palavras, são sons puros e plenos que acordam a
manhã e adormecem a noite
O menino com menos de dois anos vive perto da cúpula de uma Igreja, a sua
casa recebe o vento do rio Tejo e as canções das crianças no pátio da
escola primária. A fotografia de Manuel Neto liga as batalhas em baixo no
Museu às orações em cima na Igreja, fazendo do céu azul-escuro o limite do
quadro e do amarelo-torrado das casas o termo mais aproximado ao esplendor
do sol de Lisboa. Entre as batalhas e as orações o menino passa no seu
caminho sem se deter. Ele ainda nada sabe dos tambores de Napoleão nem das
batalhas navais de Nelson, da lama das trincheiras da Flandres nem dos
comboios da morte na noite da vergonha a partir de Drancy, nem sabe também
e ainda das bombas de Hiroshima e de Nagasaki.
O mundo, aquilo a que chamamos Mundo, tem uma gramática eficaz de causa e
de efeito mas o menino desconhece essa panóplia de soluções. O seu olhar
apenas apreende o sorriso dos parentes, os brinquedos perfilados, o
conforto do cobertor, as histórias sem surpresa nos livros onde tudo tem
sempre uma solução feliz.
Ele ainda não sabe que os mortos empurram os vivos porque são eles o motor
do nosso futuro, o futuro que nos espera entre as batalhas e as orações,
entre o Museu e a Igreja, na luz da tarde na cidade de todos nós.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 09:39

Sexta-feira, 12.07.13

rui pinheiro em são carlos com donizetti

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Rui Pinheiro – vem aí «A filha do Regimento» de Donizetti
Nos próximos dias 4, 6, 8 e 10 de Novembro o Teatro Nacional de São Carlos
apresenta a ópera cómica «La fille du Régiment» de Gaetano Donizetti com
encenação de Mário Redondo e direcção musical do maestro Rui Pinheiro. Ontem,
no Largo de São Carlos, assisti a dois belos trabalhos musicais da Orquestra
Metropolitana de Lisboa sob a batuta muito calma e discreta mas sempre
eficiente e brilhante de Rui Pinheiro. Ouvimos a Sinfonia nº 1 de Beethoven de
1800 e a Sinfonia nº 1 de Mendelssohn de 1824. Beethovem tinha 30 anos e
Mendelssohn apenas 15. São ambas peças difíceis e o barulho exterior tanto dos
eléctricos a caminho dos Prazeres como das crianças cujos pais pareciam
apostados em deixar fazer todas as patetices, tornou tudo ainda mais difícil.
Que diferença para as condições de trabalho em Poole (Reino Unido) onde Rui
Pinheiro foi «maestro associado» durante alguns anos na BSO – Bournemouth
Synphony Orchestra. Trata-se da melhor orquestra do sul de Inglaterra e grava
por época uma média de 4 a 5 CDs, indo com frequência tocar à BBC. Rui Pinheiro
é muito jovem mas já apresenta um CV de respeito tendo trabalhado com maestros
de topo: Sir Roger Norrington, Esa-Pekka Salonen, Vladimir Jurowki e John
Wilson. Em Novembro teremos «La fille du Régiment» de Donizetti com a sua
história comovente. Marie é uma criança abandonada que o 21º regimento de
Napoleão adoptou, funcionando o sargento Suplice com «pai». Tonio está
apaixonado pela mocinha mas tudo se complica quando uma velha marquesa, a
conversar com o sargento, descobre em Marie a sua sobrinha desaparecida.
Acolhida em sua casa, Marie é educada para casar com um duque mas Tonio não
desiste e pede-lhe para fugir. Perante isto a marquesa afirma Marie como a sua
filha e permite o seu casamento com Tonio.
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 11:17

Quinta-feira, 11.07.13

mais sabor, mais saúde e menos peso

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«Coisas boas que não engordam» de João Viegas
João Viegas (n.1945) é autor de vários livros de contos e de um recente (2010)
«Cozinha fácil para homens que não sabem estrelar um ovo». Nesta mesma linha
abre o seu livro com uma advertência: «É condição essencial a um bom regime
alimentar comermos várias vezes ao dia pequenas e seleccionadas quantidades de
alimentos para não chegarmos esfomeados à mesa do almoço ou do jantar». Recorda
o autor do texto e das fotos que há muitos anos foi levado por um amigo
jornalista a um restaurante vegetariano mas na altura nunca mais quis ouvir
falar deste tipo de comida porque tudo era sombrio desde a clientela ao aspecto
dos pratos; parecia uma seita religiosa. Neste livro, com as várias receitas de
comida vegetariana, João Viegas mostra que a situação mudou para melhor.
Um outro aspecto é a revisitação às sopas que no livro são o contrário do
pesadelo da infância quando as mãezinhas nos obrigavam a comer aqueles grelos
esverdeados a boiar num caldo gorduroso. Será este pormenor de «um novo olhar»
sobre a culinária que torna a leitura deste livro uma descoberta fascinante.
Além da comida vegetariana e das sopas, surgem nestas páginas receitas de:
entradas e snacks, peixes e mariscos, aves e carnes, doces e frutas.
O sabor crioulo de Nova Orleães está presente na página 19 – Pasta
picante de caranguejo – em três tempos: «1-Misture bem o queijo creme, as
natas, o molho picante e o alho até conseguir uma pasta mole. Tempere a gosto
com sal e pimenta. 2- Aqueça esta pasta num tacho, em lume médio, durante 2 a 3
minutos, mexendo sempre. 3- Derrame esta mistura sobre o miolo de caranguejo,
as cebolinhas, a salsa e o sumo de limão, e aqueça durante cerca de um minuto
servindo de imediato.»
São 182 páginas de informações úteis («mais sabor, mais saúde, menos peso») e
de receitas apetitosas que estão todas pensadas para quatro pessoas e sempre na
perspectiva de Óscar Wilde: «O bom gosto é muito simples, basta-nos escolher o
melhor de tudo».
(Editora: Bizâncio, Revisão: Sandra Pereira, Capa: Sofia Silveira, Colaboração:
Delfina Viegas)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 11:08

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