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Transporte Sentimental



Domingo, 30.06.13

as filarmónicas reencontradas no largo do rossio

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Délio Gonçalves e as filarmónicas reencontradas
Ao contrário do poeta Mário Machado Fraião para quem viver era perder
filarmónicas, o maestro Délio Gonçalves convoca, dirige e reúne
filarmónicas de todo o País no Largo do Rossio. Este ano estiveram em
Lisboa as filarmónicas de Tomar (Gualdim Pais), Santarém (Gançaria), Sintra
(Massamá), Vale de Cambra (Junqueira), Aveiro (Eixo) e Lisboa (Charneca).
As seis bandas actuaram no Rossio e nos jardins da Estrela e de S. Pedro de
Alcântara. Em Oeiras, no INATEL, durante uma semana, o maestro Délio
Gonçalves trabalhou musicalmente um grupo escolhido de músicos pertencentes
às diversas filarmónicas. Todos em conjunto, mais de quatrocentos músicos
no Rossio, tocaram a marcha «Com´Paço» de Fernando Ramos num misto de
festa exterior e de tristeza interior: do encontro feliz à despedida
melancólica.
Ao meu lado sentou-se a jovem mãe de uma executante de percussão da
Filarmónica Gualdim Pais de Tomar. E eu estava feliz por ela mas triste por
mim que tenho duas filhas longe de Portugal e apenas um filho em Lisboa.
Tomar é muito perto de Lisboa, muito mais perto do que Londres e Sydney.
Lembrei-me também das noites na casa do ensaio da minha terra quando os
músicos chegavam cansados e com um resto de terra na dobra das calças. E
lembrei-me a seguir dos «rapazecos» que seguravam no domingo à tarde as
pautas dos músicos da filarmónica de Santa Catarina, sem dinheiro para
comprar uma estante de metal. Eu era um desses «rapazecos» chamados ao
coreto, entre o sol e o pó da tarde no Largo do Pelourinho. Era e continuo
a ser, mais de cinquenta anos depois, um «rapazeco» a segurar a pauta dos
músicos entre lágrimas e alegria. Como no título feliz de João de Melo
– «Gente feliz com lágrimas». Subi devagar as Escadinhas do Duque a
pensar na Filarmónica da minha terra.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 17:20

Sábado, 29.06.13

quando nos querem a escrever como os índios pataxó

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Um professor assim só no Entroncamento
«Se o Acordo Ortográfico não for aplicado será uma comédia» - esta frase em
título em O MIRANTE de 27-6-2013 poderia fazer sorrir se o caso não fosse muito
triste. O professor Arnaldo Marques, tal como o seu homónimo Arnaldo Matos,
comporta-se como um grande educador. O outro educador era da classe operária e
do Povo, este é apenas dos estudantes do Entroncamento. E já é muito.
O chamado «Acordo Ortográfico» é um aborto jurídico e já fez muito mal a muita
gente em particular (Isabel Pires de Lima, por exemplo) e à língua portuguesa
em geral. Todos os dias se descobrem novas barbaridades; para tal basta ler
alguns jornais. Aliás o grande educador do Entroncamento informa na página 2 do
Suplemento Especial de O MIRANTE que «os meus amigos são quase todos pouco
amigos do Acordo sobretudo os amigos que são professores de Português» Nem
mesmo a suspensão oficial no Brasil do chamado Acordo Ortográfico deixa o
professor do Entroncamento a pensar que foi enganado. Não, nada disso. Apenas
sentiu algum «desconforto». Mas nem tudo são tristezas quando nos querem a
escrever como os índios pataxó. Ainda há dias um juiz de um Tribunal português
argumentou num acórdão que a palavra «ata» é uma forma do verbo «atar» e nada
tem a ver com «acta», Segundo esse magistrado o dito Acordo Ortográfico
responsabiliza apenas o Governo e não os Tribunais.
Como português e como jornalista com carteira profissional sinto-me traído,
iludido e envergonhado no meio destas trapalhadas. Com esta entrevista feita a
um professor cheio de confusões na terra dos fenómenos O MIRANTE prestou um bom
serviço aos seus leitores. Aliás, como sempre.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 16:10

Sexta-feira, 28.06.13

outras leituras de 2008 - daniel defoe

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«Diário da peste de Londres» de Daniel Defoe

Em 1665 terão morrido de peste mais de cem mil pessoas em Londres. Este
livro reproduz o que Henry Foe, tio de Daniel Defoe, terá escrito durante
esse tempo terrível. Regista-se o aparecimento de bruxos: «Todo este
comércio se generalizou a tal ponto que era proverbial encontrarem-se
dependuradas das portas tabuletas e letreiros assim concebidos: «Aqui mora
um adivinho», «Aqui habita um astrólogo», «Aqui fazem-se horóscopos» e
outras coisas do género.» O autor refere o que passou na sua casa: «Só
tinha em casa uma velha governanta, uma criada, dois aprendizes e eu; e
quando a peste principiou a crescer em volta de nós, sombrios eram os
pensamentos que eu ruminava sobre a atitude que devia tomar e a maneira
como agir». O medo dos habitantes de Londres levava-os ao desespero: «Havia
mães que no delírio matavam os filhos e pessoas que morriam de dor ou muito
simplesmente de medo ou de pânico sem qualquer infecção; e outras a quem o
medo imbecilizava ou tornava insensíveis, quando as não lançava no
desespero ou na demência ou ainda numa loucura atrabiliária». Um outro
aspecto tem a ver com as actividades comerciais: «nenhum navio entrava ou
saía do porto como antigamente e os marítimos, sem emprego, haviam caído na
mais negra miséria. Com eles contavam-se os carpinteiros navais, calafates,
cordoeiros, tanoeiros, veleiros, serralheiros de âncoras, poleeiros,
escultores de madeira, armeiros e abastecedores de bordo.»
(Edição: Bonecos Rebeldes, Tradução: João Gaspar Simões, Capa: Fernando
Martins, Revisão: António Bárcia)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:14

Sexta-feira, 28.06.13

outras leituras de 2008 - júlio césar machado

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«Lisboa na rua» de Júlio César Machado

Além do clássico «Lisboa na rua» este volume inclui um divertido apêndice
intitulado «O que havia de poetas por aquela época, é coisa incalculável» que
conclui deste modo: «O destempero, a pieguice, a lamúria, produziram um efeito
tão agradável que a chochice rimada tomou o lugar ao juízo, à arte e à moral.»
«Lisboa na rua» é, como o título indica, uma radiografia feita de modo certeiro
pelo nosso querido Machado: «Os rapazes finos de hoje passam dias sem ver o pai
nem a mãe; ao princípio habituam as irmãs a ajudá-los a mentir, mais tarde nem
isso. Os irmãos emprestam-se mutuamente dinheiro a juros; os pais especulam com
as filhas em casamentos de perfeita lotaria social; as filhas habituam-se a
enganá-los, vendo que eles as enganam e assim chegam mais facilmente a enganar
os maridos. Tem tomado tudo uns jeitos de patuscada e de aventura. Não se vê
por todos os lados senão um luxo frágil, egoísta, viajeiro.» A literatura do
tempo (1874) também não escapa: «É raro por aí o rapazito literato que não seja
condecorado com a Ordem de S. Tiago – e Camilo Castelo Branco não tem a
Ordem de S. Tiago. Não são menos lidos os seus livros nem o seu nome é menos
considerado. Talvez ele faça falta a S. Tiago mas S. Tiago de certeza não lhe
faz falta a ele.» Nascido no Oeste, o autor escreve sobre Lisboa e a Província:
«O rapaz de Lisboa saiu do colégio e não pensa senão em ter cavalos, beber
muito, fazer desordens e ser ilustre no Chiado; o da Província ao ficar senhor
de bens, trata logo de ver quais são os deveres que a sua riqueza lhe impõe. É
acanhado mas por baixo do acanhamento há força, essa força é a superioridade da
Província sobre Lisboa.»
(Editora: Frenesi, Ilustrações: Manuel Macedo, Assistência editorial: Telma
Rodrigues)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:12

Quarta-feira, 26.06.13

o meu amor quem me dera / que fosse sempre verão

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«Quadras populares – umas sim, outras quase» de Manuel Barata
Manuel Barata (n. 1952) vive neste livro o fascínio da quadra popular,
comum a tantos autores como Fernando Pessoa, Alves Redol, António Aleixo ou
José Correia Tavares: «José Correia Tavares / Um bom poeta beirão / Escreve
quadras populares / Que são tiros de canhão».
Já na antologia «Cancioneiro do Ribatejo» Alves Redol explicou o paradigma
da quadra popular citando Rodney Gallop: «há nela um misto de sinceridade,
nitidez, concisão, espontaneidade e humanidade comunicativa».
O ponto de partida deste livro de Manuel Barata é o tempo: «Este sol de
Primavera / Aquece-me o coração / Ó meu amor quem me dera / Que fosse
sempre Verão!». A seguir o tempo está inserido numa determinada geografia:
«O Alentejo é um país / Um país em Portugal / Anda enganado quem vê / A
paisagem sempre igual». Entre o tempo e a geografia, surge a viagem e o
amor: «Eu sei bem para onde vou / Não me engano no caminho / Meu coração
encontrou / Um outro que está sozinho».
O objectivo final deste como o de qualquer livro é vencer o esquecimento.
Seja pela escrita da quadra («Até as quadras singelas / Com seus acentos e
rimas / Quando perfeitas e belas / São bonitas obras-primas»), seja também
pelo verso feliz: «Um só verso bastaria…/ Perfeito e original / Um só
verso que faria / Minha ventura total».
(Editora: Fólio Exemplar – Apartado 40112 1516-801 Lisboa, Paginação:
Ana Nunes)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 14:44

Terça-feira, 25.06.13

vai sendo tempo de conferir à política a sua plena dimensão ética

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«Melo Antunes – uma biografia política» de Maria Inácia Rezola
Quase 40 anos depois do «25 de Abril» a múltipla figura de Melo Antunes
(1933-1999) surge neste livro de 774 páginas de texto mais 17 de fontes,
bibliografia e índices. O prefácio de António Lobo Antunes começa com uma
afirmação («Admirava a coragem, a rectidão, a honestidade») e prova que as
diferenças servem para unir: «Ele queria mudar a sociedade; eu, mais modesto,
apenas queria mudar o mundo». Também para clarificar: «Ao contrário do que
muitos supõem, o Ernesto não era um civil fardado: era profundamente militar».

Sendo este livro uma biografia pessoal acaba por transformar-se na biografia do
processo político do nosso país (25 de Abril, 28 de Setembro, 11 de Março, 25
de Novembro) sem esquecer o programa do MFA e o Plano Económico de Melo
Antunes, Silva Lopes, Rui Vilar e Victor Constâncio. Por aqui passam factos que
não chegaram a acontecer (Governo Fabião) e outros que aconteceram mesmo como o
PRD e a sua grande actividade na UNESCO. Afirmou António Tabucchi: «Sem Melo
Antunes Portugal continuaria a ser a sinistra prisão salazarista que conheci em
65 ou uma pequena Coreia como pretendiam os estalinistas em 75, com o seu
inevitável escritor de regime».
Melo Antunes sonhou sempre à sua maneira com um mundo mais justo: «Marxista de
formação, sonhou com fórmulas mais avançadas de democracia. Mas foi a voz da
moderação nos momentos mais radicai da Revolução e da consolidação da
democracia portuguesa». Em relação às liberdades, Melo Antunes advertiu: «não
devem ser só reservadas aos proletários mas extensivas a todas as camadas da
população». E deixou um aviso com data de 1976 que se adapta aos tempos de
hoje: «Nós não tememos o juízo da História; podemos, por isso, desprezar a
mediocridade dos fantoches do momento, que tão depressa passaram da prudência
dos bastidores para o arrojo da ribalta.»
(Editora: Âncora, Prefácio. António Lobo Antunes, Capa: Sofia Lima)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 12:26

Domingo, 23.06.13

nunca ouvi carlos villaret no avenida palace

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Talvez se chamasse Margarida e estava no Hotel Avenida Palace
Uma melodia pode fazer muito nas nuvens mais escuras da memória. São coisas
desencadeadas: oiço «Somewhere in time» de John Barry e logo me lembro de uma
colega de turma no Instituto Britânico de Lisboa. Talvez se chamasse Margarida
mas não tenho a certeza. Certeza sim, tenho eu de que ela trabalhava na
Contabilidade do Hotel Avenida Palace e muitas vezes nos prometeu (a mim e
alguns outros colegas de turma) irmos ouvir o pianista privativo do Hotel, o
Carlos Villaret. A última vez que a vi acenou-me da varanda do Hotel, ia eu a
comprar um gelado ou beber um «pirata» no Bar respectivo. Terá sido em Abril de
1972 pois de súbito fui incorporado na recruta dada nas Caldas da Rainha em
25-4-1972, também já não me lembro do número mecanográfico. Tenho a nostalgia
do seu sorriso nas aulas do Instituto Britânico, das conversas até ao eléctrico
24 que vinha da Rua da Alfândega para o Largo do Carmo, dos convites para ouvir
o Carlos Villaret no salão do Hotel Avenida Palace. «Ele toca maravilhosamente
bem» - dizia-nos a Margarida, talvez se chamasse Margarida. E nós bem o
sabíamos, pois era conhecida a sua capacidade de improviso nos programas ao
tempo muito repetidos na televisão com o actor e declamador, o seu irmão João
Villaret.
«Somewhere in time» de John Barry que ouvi na televisão tão moderna recorda-me
uma conversa e uma situação tão antiga. Eu era em 1972 um jovem à procura da
minha voz e do meu lugar no tempo terrível que me foi dado viver. Fui
incorporado de súbito e nunca cheguei a ouvir o pianista privativo do Hotel
Avenida Palace. E ela, a minha colega de turma, talvez se chamasse Margarida
mas hoje não tenho a certeza. Só sei que foi um olhar diferente para a memória
cheia de nuvens e de sombras. Talvez se chamasse Margarida…
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:43

Sexta-feira, 21.06.13

helder carita - um olhar diferente sobre o b.a.

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Autor do livro «Bairro Alto – tipologias e modos arquitectónicos» e
comissário da Exposição «Bairro Alto – mutações e convivências pacíficas»
realizada na Rua do Século nº 79, o arquitecto Helder Carita (n. 1950) falou um
pouco sobre o Bairro onde vive há muitos anos e sobre o qual tem escrito e
investigado.
Sobre a idade do Bairro, eis a sua opinião: «Há várias datas mas o primeiro
documento é de 1498 e consiste num acordo entre Luís Atouguia e Bartolomeu
Andrade com a autorização do primeiro para o segundo abrir uma rua. Corresponde
a uma urbanização. Em 1502 um segundo documento refere um acordo sobre um
conjunto de ruas. Estes dois documentos correspondem à primeira fase do Bairro
Alto a sul do actual Largo de Camões, propriedades de Luís Atouguia. Em 1513
existe um novo acordo com um programa alargado que marca um conjunto de
aforamentos já na zona norte do largo de Camões. Em 1553 temos a terceira fase
com os filhos e filhas de Bartolomeu de Andrade, a partir da Travessa da
Queimada para a D. Pedro V, com a chegada dos Jesuítas à zona além dos frades
Trinos, da Trindade».
Mas a História continua: «Na zona da Rua da Rosa a caminho da Rua do Século e
na zona dos Inglesinhos havia propriedades rurais de outras pessoas como os
Caetanos e os marqueses de Niza, terrenos que o marquês de Pombal comprou para
fazer uma entrada nobre para o Bairro. Ganhou assim o Bairro essas delimitações
que o enriquecem. Ele não tem um centro ou praça central mas sim um conjunto de
jardins e praças que o envolvem como conjunto, dando ao interior do Bairro uma
certa privacidade. Não há outro Bairro com essas características. Ao longo dos
tempos o Bairro Alto foi uma fronteira entre o interior e a periferia
aumentando o sentido de identidade dos seus habitantes, tornando evidente o
entrar e o sair e também o ser ou não ser do Bairro Alto».
Helder Carita vê o presente do Bairro com lucidez: «A dinâmica do Bairro Alto
dá-lhe uma capacidade de regeneração conforme as épocas. Primeiro teve gente da
marinhagem, quadros médios como mestres carpinteiros, calafates, pilotos,
cartógrafos, artífices. A seguir teve um período de influência dos Jesuítas, a
aristocratização com a média e baixa nobreza, os funcionários régios, os
desembargadores dos tribunais. Depois chegaram os jornais que ocuparam as
antigas cocheiras, palheiros e cavalariças com as suas oficinas de tipografia.
O Bairro adquiriu uma centralidade especial por estar perto do Chiado, dos
teatros, das livrarias, dos cafés e das lojas. Tem um sentido dinâmico e
progressista com um ambiente de troca de ideias que vem do liberalismo e com a
presença activa de escritores e jornalistas além de algumas casas editoras. Na
segunda metade do século XX o ambiente noctívago passa da boémia de jornalistas
aos bares da moda. Antigas oficinas e lojas de pequeno comércio dão lugar a
ateliers, lojas de roupa e de design da moda».
Tal como uma moeda tem duas faces, o Bairro Alto tem o dia e a noite: «Se o
ambiente de dia tem a expressão de renovação numa escala humanista e de
proximidade de moradores e artistas, já a noite tem um carácter mais impositivo
e perturba numa grande percentagem a vida dos moradores. O Bairro precisa da
noite que está na sua dinâmica, a questão está na percentagem. O perigo é
quando a importância da festa da noite ultrapassa os direitos dos habitantes,
interferindo no descanso dos moradores. É um bom sintoma a política de colocar
uma esquadra da PSP na esquina da Rua da Atalaia com a Travessa da Água da Flor
e os bares passarem o fecho das quatro para as duas da manhã mas o grande
problema é fazerem da rua um bar. Um dos grandes culpados foi Santana Lopes que
na CML criou a questão do trânsito fechado quando era preferível haver
condicionamento de circulação mas sem a sua interrupção. Assim, com o tráfego
condicionado, as ruas mais facilmente se tornam bares a céu aberto».
O olhar sobre o futuro é de esperança: «O Bairro Alto, com mais de quinhentos
anos de vida, tem uma dinâmica interna que o leva a ultrapassar as várias
crises que defrontou. Dotado de excelentes infra-estruturas como hospitais,
apoios de terceira idade, escolas, centro de saúde e instituições culturais, o
Bairro Alto mesmo com a sua centralidade, não tem, espera-se, vocação para
bairro de luxo. Ainda bem que estes equilíbrios se mantêm e também não há
dinheiro para grandes operações de restauro fazendo com que a população actual
vendesse as casas que seriam substituídas por habitação de luxo. Isso aconteceu
em Paris, no Marais, um bairro onde os ricos compraram as casas requalificadas
dos pobres, perdendo assim a dinâmica social do antigo espaço. O Marais deixou
de ter pessoas, passando tudo a escritórios. Como aqui na Baixa de Lisboa onde
é perigoso andar à noite».
--

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por José do Carmo Francisco às 20:29

Quinta-feira, 20.06.13

a poesia nos 165 anos da incrível almadense

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«A Incrível e a Poesia através dos tempos» de Luís Milheiro e Carlos
Guilherme
O dramaturgo Romeu Correia (1917-1996), numa entrevista em «A Bola
Magazine» recolhida no livro «As palavras em jogo» (Editora Padrões
Culturais) afirmou: «Sou um produto do movimento associativo. Graças às
Colectividades de Cultura e Recreio ouvi música pela primeira vez, vi
teatro e cinema mudo pela primeira vez e bailei com raparigas, coisa tão
difícil naqueles tempos salazarengos dos anos trinta e quarenta A minha
geração almadense deve muito à entreajuda colectiva. A Academia e a
Incrível Almadense foram os meus Liceus e Universidades que não
frequentei.»
Este livro de 200 páginas com 139 poemas surge numa sequência lógica depois
da anterior publicação de um volume de banda desenhada, de um conto
infantil e de vários ensaios históricos. Fundada em 1-10-1848, a Incrível
Almadense perdeu a maior parte da sua documentação num incêndio em
17-8-1910. Por esse motivo este livro engloba poemas de 1884 a 2012, apenas
os que foi possível resgatar do esquecimento. Como por exemplo este de
1948, de autor desconhecido: «Há uma estrela a brilhar / Nas cordas da tua
lira / E a luz vem do olhar / De quem te ama e admira». Ou este assinado
por Simões Raposo em 1942: «Da vitória sempre ao nível / Sua alma tudo
vence / É pasmoso e é Incrível / É Incrível Almadense».
Dos três autores mais presentes neste livro (Orlando Laranjeiro, Fernando
Barão e Alexandre Castanheira) escolhemos um excerto de um poema do
terceiro, uma espécie de resumo do grande amor que em três séculos (XIX, XX
e XXI) os poetas da Incrível dedicaram à sua colectividade: «Por incrível
que pareça / A nossa Incrível persiste / E a todo o mal que aconteça /
Troca as voltas e resiste / Segue em frente, nunca cessa / De lutar contra
o que é triste / E mesmo que fora anoiteça / Avança de ponta em riste /
P´ra que a claridade vença / Nunca desarma – insiste!»
(Edição: Junta de Freguesia de Almada, Apoio: Sociedade Filarmónica
Incrível Almadense, Capa: Louro Artur, Apresentação: Fernando Mendes,
Prefácio: José Manuel Maia, Saudação: Maria Emília Neto de Sousa)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 11:21

Terça-feira, 18.06.13

o livro de recibos verde é editado pela assirio & alvim

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«Melancómico – aforismos de pastelaria» de Nuno Costa Santos
A aproximação a este livro breve mas muito estimulante, pode ser feita a partir
de três referências: José Palla e Carmo, Dinis Machado e Santos Fernando. Em
José Palla e Carmo (1923-1995) que assinava José Sesinando o seu
«Escrituralismo» no «JL» lembramos o lado mais lúdico do humor com o seu
inesquecível «O Adágio de Albinoni, depois de muito tocado na rádio, tornou-se
um adágio popular». Dinis Machado (1930-2008) escreveu que «mesmo num enterro
procuro sempre o lado cómico daquilo». Santos Fernando (1927-1975) sintetizou
tudo na expressão: «O humor é uma lágrima entre parêntesis».
A escrita deste livro está dividida entre o cómico e o melancólico ou seja,
entre a piada e a lucidez. O subtítulo (aforismos de pastelaria) tem a ver com
a brevidade de cada texto, passível de ser elaborado no balcão da pastelaria,
esperando o bolo de arroz ou o queque. Sendo o autor jornalista e escritor, não
admira o número de graças sobre esta actividade. Vejamos: «O problema não era
ser um ghost writer. O problema era ser um ghost writer de um fantasma» na
página 15. Segue-se na página 68: «É um escritor tão moderno que manda os
romances por SMS para a sua editora». A chamada «vida literária» está presente
num aforismo («Para apresentar um novo livro só convidava pessoas que o tinham
odiado») antecipando um outro que define muita coisa neste meio: «Há escritores
que quando ainda estão a terminar um livro, já têm recensões sobre a obra em
todos os jornais»
O autor consegue fazer graça com o Estado - «Há sempre um que está mais
apaixonado do que o outro. Sim, todas as relações amorosas são desequilibradas.
Sobretudo as relações entre os cidadãos e o Estado». Mas também com a Vida -
«Da maneira que isto está, para se conseguir inscrever a filharada em certas
escolas é preciso fazê-lo com um século de antecedência». E com o Mundo - «Dois
homens brigavam até à morte num descampado. Os cães, à volta, faziam apostas».
Paulo Coelho não escapa: «Fiquei a saber que há livros do Paulo Coelho à venda
nos correios. Parece-me bem. Depois do correio azul, o livro azul – o
livro que é consumido em tempo recorde». Por fim a graça sobre os recibos verde
que é a coisa mais sem esperança que existe: «Era tão intelectual, tão
intelectual que até o seu livro de recibos verde era editado pela Assírio &
Alvim».
(Editora: Guerra e Paz, Capa: Ilídio Vasco, Foto: João Pedro Gomes)
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 13:48

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