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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 20.05.13

fecham ruas da cidade / e espantam os pardais

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«Livro de reclamações» de António Ferra
A imagem da capa (Nicolau Tolentino de Almeida) propõe ao leitor a sátira ao
tempo e à cidade, seus tipos e seus poetas, seus sem-abrigo e vagabundos
atentos aos negócios públicos: «Fecham maternidades / e só ficam pizarias / com
site na internet / fecham as lojas de bairro / cortam o burgo às fatias /
tirando como quem mete».
A cidade deste livro faz promoções («Compre agora / que está em promoção /
compare os preços / e não perca a ocasião / de mudar a sua vida»), obriga o
cidadão a tirar senhas («Tire uma senha / aguarde a sua vez / e fique na fila
de espera»), obriga-o a moderar atitudes («Não seja rico nem pobre / coma pouco
mas refreie o seu fastio») e também o obriga a aceitar o tempo atmosférico:
«Este tempo é uma vergonha / tanto chove num retiro / como a noite engana o sol
/ disfarçada de vampiro».
Na cidade dos peraltas, das góticas e das tatuagens, onde a poesia é caríssima
(«Ainda ontem tomei um copo de leite / e uma bola de Berlim, qual Belarmino na
ressaca») o poeta afirma uma certeza («andamos todos a ler-nos uns aos outros»)
antes de sugerir o livro de reclamações: «Tens a porta aberta, alma de cigano /
aerofagia, silêncios, depressões? / protesta a tua insanidade amarga / no livro
de reclamações / que ninguém lê, pois se banalizaram os gemidos / as folhas
soltas, a identificação dos pruridos / e das gralhas não revistas por má-fé».

(Editora: Fabula Urbis - Rua Augusto Rosa, 27 Lisboa)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 17:31

Domingo, 19.05.13

um imenso adeus para cruz dos santos

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«Hoje jogo eu!» – ou recordando Cruz dos Santos
A notícia má foi uma pancada com tanto de dolorosa como de inesperada
dentro do meu pequeno automóvel. Foi a Antena Um. Eu vinha de um funeral de
uma prima – um daqueles com orações em voz alta, homens de capa,
velas e cruzes a abrir o cortejo. Não estava preparado para saber da morte
(relativa) de Cruz dos Santos. Ele é o último romântico num ofício mal
olhado porque feito de quimeras, de sonhos e de ilusões. Eu vi cair os
históricos de A BOLA: Carlos Pinhão, Vítor Santos, Carlos Miranda, Alfredo
Farinha, Aurélio Márcio, Homero Serpa. Cruz dos Santos era o romântico,
aquele que, de todos os jornalistas do quadro, foi o último a fazer a
reportagem de uma final da Taça dos Campeões. Eu falava ao telefone, horas
e hora, sobre o futebol e os seus problemas incluindo a «arbitragem».
Apesar das diferenças de idade e de tudo, estávamos quase sempre de acordo.
Quando regressava da visita anual a Ana, Ian, Tomás e Lucas tínhamos
conversas longas sobre a força financeira dos magnatas que compram clubes
de futebol ingleses, os transformam em sociedades comerciais mas deixam
ficar o nome inicial. Falávamos de Eusébio e da sua peculiar maneira de ver
as coisas: tinha mais facilidade em falar mal dos homens do clube de
Lourenço Marques que fez dele um jogador de futebol do que dos directores
do clube de Lisboa que se recusaram a recebê-lo quando veio da América,
obrigando-o a acabar a carreira em Aveiro e em Tomar. Cruz dos Santos era a
pessoa que mais sabia sobre Eusébio desde a sua chegada a Lisboa em 1961.
Sobre a desmemória do jogador, Cruz dos Santos afirmou: «Não ligue, ele
está a ser simpático para com o terceiro anel!» Tinha razão, sempre.
Aprendi muito com Cruz dos Santos nessas conversas ao telefone. A conversa
sobre a maldição de Béla Guttmann já não vai a tempo.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 16:59

Domingo, 19.05.13

os meninos de palhavã foram reconhecidos nas caldas da rainha

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«A redenção das águas» de Carlos Querido
Com o subtítulo de «As peregrinações de D. João V à vila das Caldas», este
é o terceiro volume publicado de Carlos Querido (n. 1956) depois de «Salir
d´Outrora» (2007) e de «Praça da Fruta» (2009). As 219 páginas não
registam apenas as viagens de D. João V à vila das Caldas para alívio do
seu sofrimento entre 1742 e 1750. O livro tem esse pano de fundo real («não
haverá maior solidão do que o poder absoluto»)mas existe nele um a espécie
de filtro no olhar dos narradores – Pedro e Sara.
Pedro, filho de um fidalgo e de uma lavadeira, nasceu nas Caldas, foi para
Lisboa e daí partiu para o centro da Europa com o infante D. Manuel, o
irmão do rei D. João V: «Chamo-me Pedro e nasci nas Águas Santas, muito
próximo daqui. Fui ferido na batalha de Timisoara.» Por sua vez Sara é
filha do rei D. João V e de uma criada do Paço: «O meu avô materno estudou
em Coimbra onde tomou ordens mas pediu dispensa quando descobriu que era
mais forte o chamamento do mar.» Pedro («Sou um homem comum») conta a
verdade («leia com paciência; os factos são verdadeiros») mas para Sara
(«Com a minha mãe aprendi piano, recato e solidão») a dura verdade é o rei
só reconhecer como filhos os meninos de Palhavã: D. António, D. Gaspar e D.
José. Não as filhas.
As viagens do rei D. João V são neste livro um pretexto feliz para o autor
nos fazer viajar pelo país que somos: «Cresce na cidade e no reino um vago
sentimento de tristeza e desolação. Há militares a quem não é pago o soldo.
Há operários ao serviço do rei que não recebem o salário devido, para
desespero das famílias». Sem esquecer o Povo que o habita: «Somos um povo
com uma alma religiosa mas sensível e compreensiva perante a tentação da
luxúria.». Nem o rei que o governa (37 anos de pacífico reinado) entre
birras com o Vaticano («gastou 500 mil cruzados na compra do direito a
tomar a hóstia pela sua mão») e as malhas da Inquisição («ao serviço do rei
e não ao serviço de Deus») a quem o narrador não hesita em definir como
«fanáticos que querem travar o movimento do mundo, incluindo a rotação em
volta do Sol».
Tudo termina na vila das Caldas, no lugar onde nasce a narrativa: «Começou
por ser lugar de destino dos deserdados mas as suas águas também curam os
poderosos do reino.» Caldas, outro nome para o paraíso perdido, «esse lugar
onde o mundo parece fazer sentido, porque não se avista nem se sente a
loucura dos homens».
(Editora: Arranha-céus, Capa: Elisabete Gomes, Revisão: Raul Henriques,
Apoio: Câmara Municipal de Caldas da Rainha)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 16:56

Quarta-feira, 15.05.13

há na tua voz o som da ocarina de um pastor

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Crónica para um adeus (à maneira de Fernando Alves)
Há na tua voz o som eterno e profundo da ocarina de um pastor na encosta do
lado do Malhadal, entre a luz da tarde e o peso do silêncio junto à água da
ribeira em suspenso na represa entre a relva e a areia. Tenho muito viva e
presente a memória do som da tua voz nas ruas da cidade, nos autocarros
lentos a caminho de Sete Rios, nas manhãs de chuva e nevoeiro tal como
tenho memórias da pequena ribeira junto à tua casa quando ouvia a água nas
pedras redondas, quando via ao longe o desenho das nuvens cinzentas no Vale
da Vinha quando o sol não chegava às primeiras casas da povoação. Há o
desenho do teu sorriso aberto até ao fim do verde do pinhal, numa espécie
de letra «V» organizada entre os pinheiros em socalcos. Entra nele, nesse
«V», o castanho da caruma que já ninguém recolhe para o laborioso estrume
dos velhos quintais das antigas casas das aldeias. Tenho no meu ouvido o
som da ocarina de um pastor anónimo a cantar a alegria dum encontro onde
nenhuma emboscada pode fazer-me perder as memórias de todas as palavras
ditas a cantar em todas as encostas de todos os pinhais à beira das
ribeiras. Entre a terra e a água, entre a pedra e a luz, entre o pó e a
neblina, o teu olhar abre um caminho novo, uma memória, uma canção onde a
música se junta às palavras para convocar todos os encontros a haver num
futuro próximo. Não se perde o teu olhar. Pelo contrário, vai
multiplicar-se no olhar de todas as tuas meninas que, sendo sobrinhas nos
termos do direito, são também filhas porque o amor tudo envolve, amplia e
modifica no terreno mais sentimental e na geografia mais geral dos
afectos. Como se, no tempo do adeus, as aves desenhassem novas vírgulas
escuras na encosta de um pinhal onde o silêncio mais forte e mais profundo
chega para todos nós ao fim da manhã.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 23:25

Quarta-feira, 15.05.13

o que é a vida, o que é a morte, o que é o tempo

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«A mulher do legionário» de Carlos Vale Ferraz
Depois da estreia com «Nó cego» (1982) Carlos Vale Ferraz (n.1946) vê publicado
o seu nono livro de ficção, este «A mulher do legionário». A pedra angular da
narrativa é Fernanda, filha de Eduardo Lobo, um homem sobre cujo suicídio os
amigos desconfiam: «não se ia embora sem nos dar conta das razões, sem se
despedir da filha, dos amigos». O casamento de Fernanda com Augusto Torres
levou a criada Rosa a advertir: «O seu casamento, menina, começou com uma
falsidade dele!» mas toda a narrativa surge na voz da irmã Maria de São José,
dando razão a quem no romance reclama a força das mulheres: «As mulheres não
querem esta guerra e não há primeiro-ministro que consiga convencê-las».
Neste livro, escrito a partir das grandes interrogações sociais («o que é a
vida, o que é a morte, o que é o tempo») os sucessivos retratos dos actores
são, de facto, da sociedade a que pertencem. É nela que percebem as
expectativas («Ninguém nasceu para preencher as expectativas dos outros») mas
também a injustiça («só temos uma vida e não a podemos viver como julgamos ter
direito») ou ainda a verdade: «A verdade não é obrigatoriamente uma coisa boa.
Pelo menos pode não trazer notícias agradáveis».
Aqui os portugueses («nunca se regeram pela razão mas pela lógica») continuam a
ser os mesmos: «vamos em peregrinação aos santuários pedir a uma divindade que
faça por nós o que devíamos ser nós a fazer». Mesmo os artistas e as suas
vanguardas são diferentes: «para Eduardo, António Ferro pertencia àquela
geração de jovens, pederastas mais ou menos assumidos, com maior ambição do que
talento, qua faziam acrobacias artísticas para fugir ao trabalho, ao estudo e
ao cumprimento das regras impostas aos cidadãos comuns».
Para além do fresco enorme do País que somos (1908, 1926, 1939-45, 1974), um
pouco como num romance policial, fica a memória de uma mulher que viveu a morte
do pai, da mãe, do filho e do neto mas sempre a lembrar o marido, o legionário:
«Conheci o Augusto num sábado de seca e de gafanhotos! Vinha do colégio, estava
a chegar a casa e encontrei um homem dez anos mais velho do que eu, um sedutor
experiente. Ele pertencia ao grupo dos impostores, dos que representam papéis
que não são os deles!»
(Editora: Casa das Letras, Capa: Neusa Dias, Revisão: Ayala Monteiro)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 16:30

Segunda-feira, 13.05.13

marcelo rebelo de sousa - «de mais» não é «demais»

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Todos não somos de mais para defender a língua Portuguesa
Uma das muitas coisas que me liga à memória de Fernando Assis Pacheco é,
além das dedicatórias que escreveu para mim nos seus livros, o repúdio das
gralhas e o amor pela Língua Portuguesa. Natércia Freire definiu assim a
questão em 1964: «Todos, trabalhadores da Palavra Portuguesa, em qualquer
continente, todos não seremos de mais para a cuidar, a amar, a não esquecer
e a não deixar poluir. Este poluir não quer dizer que se lhe neguem novas
aquisições, novas combinações. Quer somente dizer que se lhe conserve
intacta a alma e o sangue que a circulam».
Vem isto a propósito de um álbum da PT Portugal Telecom (onde surgem textos
de Bagão Félix e de Maria José Ritta) com o título de «comunicamos
sorrisos» onde o prefácio assinado por Marcelo Rebelo de Sousa revela um
texto interessante mas com o título errado - «Todos não somos demais».
Trata-se de um erro bem crasso pois o correcto, o normal e aceite neste
caso é a forma «Todos não somos de mais».
Para perceber melhor veja-se um texto («Erros públicos») do Boletim da
Sociedade de Língua Portuguesa em 1964: «Na Televisão – Num conhecido
programa de televisão viu-se, num domingo de Maio, a seguinte legenda:
«Quando chove demais…» Nesta frase o demais quer dizer em excesso,
excessivamente. Então, está mal. Deve ser «Quando chove de mais…» em
duas palavras. Demais numa só palavra quer dizer outros, outras pessoas.
Por exemplo: Não te importes com os demais – Não te importes com os
outros (ou as outras pessoas).
Aqui está como uma frase de Marcelo Rebelo de Sousa me veio lembrar de modo
tão intenso o convívio com Fernando Assis Pacheco ali ao Marquês na esquina
da livraria com nome alemão.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 23:04

Sábado, 11.05.13

«todos eles são seres humanos»

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«Salazar Portugal e o Holocausto» de Irene Flunser Pimentel e Cláudia
Ninhos
Salazar manteve no período da II Guerra Mundial um difícil equilíbrio entre
a «autoridade necessária e a liberdade possível» fazendo com que os
Portugueses se mantivessem «analfabetos, pobre e religiosos» enquanto para
os estrangeiros Portugal «foi um país de trânsito e não um país de exílio».
Explicando melhor as diferenças: «Um judeu alemão deixava de ser alemão por
ser judeu enquanto um judeu português era sempre um português». Nesta breve
nota de leitura são de referir apenas três aspectos.
Primeiro – o papel do cônsul Aristides de Sousa Mendes que salvou
milhares de pessoas: «Eu sou cristão e como tal acredito que não devo
deixar esses refugiados sucumbir. Todos eles são seres humanos». A sua
acção teve um castigo pois Salazar não lhe perdoou a desobediência:
«Impossibilitado de trabalhar, ficou arruinado e teve de viver da caridade.
Morreria em 1954, só sendo reabilitado em 1987» Em Marselha o cônsul José
Augusto de Magalhães tinha ideias próximas às de Sousa Mendes: «entre as
criaturas que nascem para fazer mal e outras que só sentem prazer em fazer
bem, eu pertenço ao número dos últimos». Segundo – a Imprensa
portuguesa em geral e a Imprensa Regional em particular. A «Gazeta das
Caldas» de 1/8/40 refere que a cidade tem vindo a oferecer «ultimamente uma
nota de vida cosmopolita, em virtude dos numerosos estrangeiros que nela
vieram acolher-se, foragidos da tormenta que assola a maior parte da
Europa». Também a Foz do Arelho surge no livro pelos piores motivos: «Em
Novembro de 1943 foi censurada a notícia da queda de um bimotor inglês na
Foz do Arelho». A censura do Estado Novo funcionava por eliminação de
«todas as notícias que não interessavam à nação, ou melhor, que a censura
achava que não interessavam á nação e que não deviam chegar ao seu
conhecimento de forma a não alarmar a população». Terceiro – a
participação directa de portugueses no Holocausto. Inácio Augusto Anta,
formado na Escola do Exército, saiu de Portugal em 1936 com destino a Paris
mas parou em Barcelona onde casou com um senhora ligada ao governo catalão
tendo perdido o único filho em fuga nos Pirenéus. A mulher foi enviada para
Ravensbrük e Anta foi morto em Sachsenhausen numa câmara de gás. Mais feliz
foi a história de José Agostinho das Neves: «Nascido em Lisboa, tinha cedo
ido viver para França onde tomava conta de uma agência livreira. Denunciado
por ser anti-nazi em 1940, esteve preso em Dachau até ser libertado pelos
americanos».
Ficam três notas sobre um livro extenso (e intenso) de 928 páginas,
dividido em duas partes: Portugal e a Alemanha na véspera da II Guerra
Mundial e Portugal, a II Guerra Mundial e o Holocausto.
(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: Vera Braga, Revisão:
Levi Condinho, Foto: Roger Kahan)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 20:24

Terça-feira, 07.05.13

os que bebem vinho vivem mais que os médicos que os proíbem

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O vinho e os livros – a memória do vinho nos altares, nos salões e
nas tabernas
José do Carmo Francisco
Por ser uma realidade permanente, efectiva e transversal na velha sociedade
de Portugal (Clero, Nobreza e Povo) o vinho tinha um lugar insubstituível
nos altares, nos salões e nas tabernas. Na nova sociedade o vinho tem
direito a lojas gourmet nos centros comerciais, a bares e esplanadas de
vinho a copo e à organização das regiões com demarcação de origem (DOC) a
começar por Alenquer, Alentejo e Bairrada para terminar em Palmela,
Portimão e Ribatejo. Os velhos tonéis e os antigos garrafões deram lugar às
modernas boxes de 5 e 10 litros. Tudo muda na vida social mas a importância
do vinho permanece.
O livro «O vinho» de Celso Luiz de Moraes (edição Padrões Culturais)
adverte: «Ao beber vinho bebemos passado, já que o vinho é tempo em
garrafa, o de uma plantação, de uma cultura, de uma vindima, de uma
vinificação, de uma criação paciente.» Tal como o vinho, a Poesia é uma
resistência ao esquecimento. Omar Khayyam louva o vinho e adverte: «Uma vez
que ignoras o que te reserva o dia de amanhã / procura ser feliz,
hoje./Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe». Entre a
Pré-História e a Grécia, entre Roma e a Gália, a história do vinho faz-se
por hipóteses: «Os primeiros viticultores podem ter sido pastores cabreiros
das florestas, de uma região entre a Geórgia e a Arménia, pois viviam em
clareiras onde devido à exposição solar, as videiras frutificavam
regularmente». Mas é na Bíblia que se lê o ritual de Jesus hoje repetido
todos os dias: «E, tomando o cálice do vinho e dando graças, deu-lho e
todos beberam dele. E disse-lhes: isto é o Meu sangue, o sangue do novo
testamento, que por muito é derramado». Os vários elementos na prova de
vinhos, o vocabulário mais frequente e a relação de figuras médicas com o
vinho integram capítulos deste livro do qual saímos com uma frase de Eça de
Queirós: «Os que bebem vinho vivem mais que os médicos que os proíbem».
O mesmo Eça surge na obra de José Quitério «Escritores à mesa (e outros
artistas)» -edição Assírio & Alvim. O autor convoca, entre outros, Camões,
António José da Silva, Garrett, Camilo, Bulhão Pato, João de Deus, Júlio
César Machado, Ramalho Ortigão, Cesário Verde, Fialho de Almeida,
Teixeira-Gomes, Albino Forjaz Sampaio, Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa e
José Gomes Ferreira. Eça de Queirós citou vinhos da Alemanha, da Hungria,
da Itália, da Austrália, da Grécia, da Argélia, da Rússia, da Espanha e da
França. Depois de referir o vinho do Porto, José Quitério enumera os outros
vinhos portugueses nos livros de Eça: «Vinhos de mesa do Douro apenas uma
nomeação genérica. O vinho da Bairrada aparece em três situações. O vinho
do Cartaxo surge duas vezes. O vinho de Torres Vedras é referido três
vezes. O Colares é o vinho de mesa português mais referido na obra
queirosiana. O Bucelas é honrado por Afonso da Maia. O vinho da Madeira não
é esquecido. No cômputo das referências só não figuram vinhos do Dão e do
Alentejo».
Gil Vicente criou na genial farsa «O Pranto de Maria Parda» uma personagem
inesquecível: uma mulher, que sendo bebedora inveterada, não consegue que
lhe fiem mais vinho: «Eu só quero prantear / Este mal que a muitos toca; /
que estou já como minhoca / que puseram a secar. / Triste, desaventurada /
que tão alta está a canada / para mim como as estrelas; / Ó coitadas das
goelas / ó goelas da coitada!». Depois de evocar os locais de Lisboa onde
muitas vezes atenuou a sua sede, resolve dirigir-se aos taberneiros seus
conhecidos para pedir: «que me dêem uma canada / sobre o meu rosto fiada /
a pagar lá pelas eiras». Todos lhe negam o favor e, desiludida, Maria Parda
dispõe-se a morrer «de sequia». Anuncia no seu testamento diversas
disposições e termina com humor: «Não digam missas rezadas: / todas sejam
bem cantadas / em flamengo e alemão / porque estas me levarão / às vinhas
mais carregadas».
José Duarte Amaral é o autor de «O grande livro do vinho» (edição Círculo
de Leitores), volume que nas suas 415 páginas recorda o vinho na chamada
civilização ocidental (filosofia grega, direito romano, religião cristã)
não só na tecnologia mas também na atitude cultural: «Beber vinho, apreciar
um vinho, é algo que faz parte de uma arte delicada, conducente, em certa
medida, à introdução, na vida de todos os dias, de um valor novo, um motivo
de prazer, um pretexto de são convívio, um reforço da amizade, um sinal de
civilização». Nas páginas deste livro junta-se História e Lenda: «Uma lenda
grega atribui a descoberta da videira a um pastor, Estáfilo, que ao
procurar uma cabra perdida, a foi encontrar comendo parras. Colhendo os
frutos dessa planta levou-os ao seu patrão, Oinos, que deles extraiu um
sumo cujo sabor melhorou com o tempo». O vinho a tudo tem resistido: a
concorrência de outras bebidas, uma publicidade agressiva a favor da
cerveja, as mudanças de hábitos alimentares nas camadas mais jovens, a
confusão entre alcoolismo e consumo de vinho. Para permanecer na vanguarda
precisa de duas políticas – esclarecimento e qualidade. Pasteur disse
um dia: «Existe mais filosofia numa garrafa de vinho que em todos os
livros». E tinha razão.
--

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por José do Carmo Francisco às 08:09

Domingo, 05.05.13

parabéns rapazes e viva o catarinense!

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Parabéns ao Catarinense vencedor da Zona Sul de Futsal
Escrevo por escrito e por extenso estes parabéns ainda sem saber o resultado do
jogo da final entre o Catarinense e o Vidigalense no Pavilhão do D. Fuas em
Fonte do Oleiro, região de Leiria que é o nosso distrito. E o resultado desse
jogo que está a ser disputado em 4 de Maio pelas 18 horas em nada altera o que
eu queria dizer. O Catarinense está de parabéns pois venceu com todo o mérito a
Zona Sul do distrital de Leiria de Futsal e justifica assim a subida à Divisão
de Honra com o Vidigalense por troca com o Turquel e a Casa do Benfica.
Acompanhei a carreira da equipa catarinense pelas páginas da «Gazeta das
Caldas» e dou-lhe daqui os meus parabéns pelos números espantosos dos nossos
jogadores no final do torneio: 53 pontos, 17 vitórias em 22 jogos, apenas 2
empates e 3 derrotas, 97 golos marcados e 48 sofridos.
Para o caso nem me interessa muito que a modalidade seja o «Futsal» pois a
paixão pela nossa terra é um compromisso para sempre. Comecei a gostar do
Catarinense a jogar o hoje chamado «futebol de 11» no velho campo do Rio da
Pedra mas sei que já antes se faziam grandes jogos nos Arneiros, perto do Casal
da Marinha. A minha paixão pelo jornalismo desportivo vem do velho jornal
«Catarinense» e das crónicas de Juventino Freire. Quando mais tarde fui enviado
especial do «Jornal Sporting» a Bolonha para um jogo da Taça UEFA em 30-9-1998
nunca me esqueci que a origem estava nas crónicas de Juventino Freire no jornal
da minha terra. E fui aos Açores, à Madeira, a todos os locais possíveis do
Portugal Continental acompanhar o futebol juvenil do Sporting, fui à Lourinhã
dezenas de vezes quando lá jogavam os jovens «leões» em fase de afirmação, fui
de 1988 a 2006 um obscuro fazedor de jornais a verde e branco, todas as
semanas. Aqui fica o meu grito: parabéns rapazes, viva o Catarinense!
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 21:35

Sábado, 04.05.13

em 1580 havia em lisboa 54 livrarias

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Depois do falso padre, também o falso PM e o falso PR
Causou alguma comoção a história do falso padre que se aproximava de alguns
párocos mais debilitados pela velhice e pela doença, oferecendo-se para ajudar
nas tarefas quotidianas da paróquia respectiva mas fugindo no final das
cerimónias com cálices, patenas e outras alfaias litúrgicas que depois vendia
em seu proveito a especialistas em receptação fraudulenta de artigos roubados.
Mas se muitos percebem neste logro o país tão diferente que somos (não estou a
ver um pároco de Lisboa a aceitar de boa-fé a ajuda de um desconhecido) outros
esquecem-se de pensar que Portugal é um país de falsos- desde o falso
presidente da República ao falso primeiro-ministro. No caso do primeiro, o dito
PR, trata-se de um fulano a quem o poeta Fernando Grade chama no seu livro «Os
meus olhos pegaram em facas» (com muita graça) «professor Cavaco, Morto em Pé,
o Tabuadas». Isto porque «ainda se diz a pátria de Vaz de Camões, a língua de
Fernando Pessoa» mas não se diz «a língua do pato-bravo Dr. Tosco de Sousa». O
segundo, o falso PM, apareceu agora a falar na TV à hora dos telejornais e
assim, dirigindo-se ao Povo, passou por cima da Assembleia da República e dos
Partidos Políticos. Tudo isto tem a sua lógica. Esta gente não lê livros
– só vê televisão e mexe em computadores. O falso PR não sabe a diferença
entre Thomas Mann e Thomas Moore, não percebeu o «25 de Abril» por isso recusou
a Salgueiro Maia a medalha que deu a um PIDE, foi à Colômbia onde se esqueceu
do nome do único Nobel Português da Literatura, já tinha mostrado a sua
mesquinhez ao não ir ao funeral do mesmo porque o fim-de-semana era para os
netos. Estamos a andar para trás. Em 1580 havia em Lisboa 54 livrarias, 5 das
quais eram na Baixa; hoje com políticos que não sabem ler, as livrarias
desaparecem umas atrás das outras.
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 16:21

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