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Transporte Sentimental



Sábado, 27.04.13

natércia freire, david mourão-ferreira, joão rui de sousa , fernando echevarría, eduardo pitta

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A revista «Colóquio-Letras» nº 94 de Novembro de 1986
Hoje aconteceu-me um encontro especial no jardim do «Príncipe Real». Esta
manhã descobri na Feira das Velharias um exemplar da revista
«Colóquio-Letras» com um poema meu. Ter um poema publicado ao lado de pesos
pesados da Poesia Portuguesa como Natércia Freire, David Mourão-Ferreira,
João Rui de Sousa, Fernando Echevarría e Eduardo Pitta, foi na altura um
grande acontecimento na minha vida. O meu poema é uma homenagem a Jacinto
do Prado Coelho e o seu título é «A relva em frente» pois a sua escrita
aposta na memória da relva que se via do gabinete ocupado na Fundação
Gulbenkian pelo escritor homenageado do poema. Outro dia um jovem poeta
(Rui Almeida) viu o meu primeiro livro de 1981 («Iniciais» da Moraes
Editora) na montra de um alfarrabista portuense (Chaminé da Mota) por 18,50
euros. Em 1981 custava salvo erro 75 escudos; mudam-se os tempos mudam os
valores.
Voltando ao número 94 da revista «Colóquio-Letras» é claro que fui ler de
novo diversos textos. Houve três que me chamaram a atenção. Na página 64
João de Melo, de regresso à Ilha, escreve: «Muitas e muitas vezes fui boi
de canga, burro de moenda e cão bensinado atrás das reses. E fui bombo de
festa e pássaro e fui ofensa e castigo e árvore decapitada e novamente
pássaro». Na página 72 Marcello Duarte Mathias num belo aforismo afirma:
«Morrer como as árvores – com uma imensidão de tempo na memória. Cada
uma é memória de outra, porque tudo é sempre memória de tudo» Na página 68
é a vez de Cecília Meireles ser lembrada por Luísa Dacosta: «Vida é de
graça. Não custa! O que custa é viver e só tem dois anjos da guarda neste
mundo: Jesus e a nossa mãezinha». Pergunta final: «Quem era eu em 1986?».
Resposta: «Apenas um pingo de chuva num grande mar azul, nada mais».
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 13:14

Sexta-feira, 26.04.13

o bairro é uma aldeia mas sem regedor nem cabo de ordens

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Cuidados intensivos – da cidade, da aldeia, do bairro, da paixão
(a João Viegas)
A cidade acabou de empurrar o nevoeiro da manhã e devolve a todos nós o som
das palavras entregue nas pedras pretas das calçadas e nas pedras brancas
dos passeios.
«A menina está no Hospital nos cuidados intensivos» - ouve-se em voz baixa
na mercearia, na capelista, no talho, na padaria. O bairro é uma aldeia mas
sem regedor nem cabo de ordens. Nas ruas existe o mesmo espírito gregário,
a ideia simples de que tudo acontece a todos e a ida da menina para os
cuidados intensivos do Hospital a todos diz respeito. Dito de outra
maneira: todos sabemos que a menina espera um transplante renal e já tem um
dador compatível mas apresenta a tensão muito alta e assim não há condições
para avançar na cirurgia.
Todos temos aqui no Bairro (aqui na Aldeia) uma aproximação pessoal ao caso
da menina. Por exemplo eu: a minha filha mais velha tem a idade da mãe da
menina e o meu neto mais velho tem a idade da menina, eu sinto o caso de
outra maneira. Tudo na vida é relativo mas de maneira absoluta. O problema
não é comigo mas afinal também é comigo, nada do que se passa no Bairro
(tal como numa Aldeia) me pode ser indiferente.
A igreja de São Roque é o lugar onde os amigos mais chegados da menina vão
rezar pela sua saúde, pelas melhoras do seu ritmo cardíaco. Rezar é sempre
ligar dois mundos e (tal como a poesia) a prece é também uma forma de
religar vários Universos; daí a origem da palavra religião. Nos bancos da
igreja de São Roque, entre a angústia e a esperança, entre desejar o melhor
sabendo que o pior pode vir, entre o branco das pedras do passeio e o preto
das pedras da calçada, a prece é uma grande sementeira de palavras que
todos esperamos poder, um dia mais tarde, dar à Família e ao Bairro uma
grande colheita de alegria.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 13:33

Segunda-feira, 22.04.13

regar a sede, beber a terra, colher a paisagem, mastigar o silêncio

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«Caderno de significados» de Graça Pires
Graça Pires (n. 1946) publica poesia com regularidade desde 1990, tendo o
seu primeiro título («Poemas») recebido o Prémio Revelação de Poesia da
A.P.E. em 1988. Este seu mais recente livro integra uma colecção na qual
figuram textos de Casimiro de Brito, Amadeu Baptista, Maria Teresa Dias
Furtado e Agripina Costa Marques.
O ponto de partida é o quotidiano: «Escutar o rumor da morte na rotina dos
dias, no sangue das palavras, na dor, na perda, no tédio. E renascer a toda
a hora com a inocente respiração da vida. Serenamente». Aqui o olhar do
poeta não pode ser indiferente: «Li no jornal que há idosos abandonados nas
urgências hospitalares. Talvez se entenda a dor agarrada ao desleixo da
roupa».
Como resposta à aridez do dia-a-dia surge a infância: «Volta de novo, idade
da inocência que foi minha. Traz-me nas tranças a cristalina alegria dos
dias em que no fundo do coração nenhum nome me doía.» Infância que é também
o lugar da casa: «Nós voltamos apenas para regar a sede, beber a terra,
colher a paisagem, mastigar o silêncio, partilhar a fome e tornar depois a
ir embora com o corpo a doer da própria ausência». Infância e casa
juntam-se na emoção: «Se eu pudesse recordar uma canção de embalar na voz
lentamente doce de todas as mães, escutaria, com certeza, o cantar da minha
mãe só para que, em meu sono, eu não incline a cabeça para o lado onde
ardem as lembranças».
Podem ser a lembranças da mãe («Só na memória do teu rosto, mãe, posso
encontrar agora as paredes da casa onde nasci») ou do pai: «partiste tão
cedo como se tivesses vindo do lado mais desolado das sombras». A única
reposta no poema à desolação do seu tempo é o amor: «Tu dizes o meu nome.
Eu digo o teu nome. Não há mais ninguém na terra nesta hora urgente da
paixão.» Graça Pires sabe que, como Camilo Castelo Branco, «a poesia não
tem presente: ou é esperança ou saudade». Por isso o seu grito: «Há um
grito rasgando o surdo rumor da chuva de Novembro. Um grito a cortar a
respiração das árvores sem folhas. Um grito que estremece nas mãos das
mulheres estéreis e no silêncio das aves que não voam.»
(Editora: Lua de Marfim, Capa: Miguel Pais)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 11:07

Sexta-feira, 19.04.13

o largo camões visto por nagashima

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Largo Camões – da tela de Nagashima aos homens dos carrinhos de choque
Primeiro o aspecto mais noticioso e informativo: no próximo dia 2 de Maio pelas
19 horas e até às 21 horas inaugura-se a exposição de pintura a óleo de Minoru
Nagashima na Rua Cecílio de Sousa nº 94 em Lisboa, ali ao Príncipe Real. O
espaço pertence à Freguesia das Mercês e o contacto é 961 391 916. Colaboram
Paulo Duarte, Tomoko Duarte, Takashi Sugimoto e Yuichi Fukuda. A exposição vai
durar até ao dia 14 de Maio, fecha ao Domingo, funciona das 9 às 18 horas no
Sábado e das 15 às 21 horas de segunda a sexta-feira. Minoru Nagashima vive em
Portugal desde 1998 e nos seus quadros a óleo tem deixado bem patente a sua
paixão pela cidade de Lisboa - sua paisagem e seu povoamento, suas casas e sua
gente. Como neste quadro sobre o Largo Camões que aqui se reproduz como convite
e sugestão de visita.
Um outro aspecto é o que se tem passado no Largo Camões nos últimos tempos: um
grupo de feirantes tem pedido ao secretário de estado da economia para olhar
pelos homens dos carrinhos de choque que, de repente, se viram perante o
aumento do IVA para 23 por cento quando nos outros países da Europa é de 6 ou 8
por cento. Eles chegavam logo de manhã, punham a música em tom de feira e, nos
intervalos das cantigas, faziam os seus pedidos ao ministério da economia, ali
ao lado na Rua das Chagas. O grande problema é que eles não sabiam (agora já
sabem) que aquela gente não está no ministério para ajudar e fomentar a
economia portuguesa mas sim para a destruir. Aquela gente que acabar com os
restaurantes, os cafés, as pastelarias, as feiras, tudo. A sua única economia é
a destruição. Por mais barulho que fizessem no Largo Camões os homens dos
carrinhos de choque nunca vão chegar aos ouvidos do secretário de estado. Ele
não está lá para os ouvir. O seu trabalho é outro.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 14:18

Sexta-feira, 19.04.13

30 anos depois o prémio da a.p.e. continua

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APE - Grande Prémio de Romance e Novela 30 anos depois
Foi uma festa bonita na Fundação Calouste Gulbenkian no dia 15 às 18h 30m.
O pretexto foi a passagem dos 30 anos do Grande Prémio APE este ano
entregue a Ana Teresa Pereira pelo seu livro «O Lago»; a autora foi
representada pelo editor Francisco Vale. Ao longo destes 30 anos o prémio
foi entregue a 26 autores. Vejamos: José Cardoso Pires, Agustina Bessa
Luís, Mário Cláudio, António Lobo Antunes, David Mourão-Ferreira, Vergílio
Ferreira, João de Melo, Paulo Castilho, Maria Gabriela Llansol, José
Saramago, Helena Marques, Mário de Carvalho, Teolinda Gersão, Augusto
Abelaira, Rui Nunes, Fernanda Botelho, Maria Velho da Costa, Lídia Jorge,
Mafalda Ivo Cruz, Vasco Graça Moura, Francisco José Viegas, Filomena Marona
Beja, Julieta Monjinho, Rui Cardoso Martins, Gonçalo M. Tavares e Ana
Teresa Pereira. Usaram da palavra depois do director da Fundação, José
Correia Tavares, José Manuel de Vasconcelos, José Manuel Mendes, Maria
Carlos Loureiro e Diogo Pires Aurélio. No fim Luís Pipa, compositor e
intérprete, apresentou obras de Chopin, Mozart, Carlos Seixas, Luís Costa e
Alfredo Keil. Neste caso , com «My beautifull blue country», tratou-se de
uma «performance» de Luís Pipa a partir da melodia do Hino Nacional de
Portugal. Estiveram presentes seis autores premiados: Mário de Carvalho,
João de Melo, Paulo Castilho, Julieta Monjinho, Helena Marques e Filomena
Marona Beja. Encontrei Gonçalo M. Tavares no Metro e sei que não foi porque
mudou de casa há dias, coisas que acontecem, a carta deve ter ido para a
morada antiga. Para mim que sou um sentimental a foto «on line» não podia
ser outra – no meio da festa na Gulbenkian lembrei-me dos nossos
queridos mortos: Óscar Lopes, Fausto Lopo de Carvalho, David
Mourão-Ferreira, Carlos Eurico da Costa, Wanda Ramos, Orlando da Costa. Já
são muitos…
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 10:02

Quinta-feira, 18.04.13

um búzio de istambul que se ouve à beira do mondego

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«O búzio de Istambul» de João Rasteiro
«Natureza e Cultura» – esta dupla inscrição pode ser uma das chaves para
entrar neste livro de João Rasteiro (n.1965). O título está na página 63: «O
binómio de Newton, dos silêncios que sufocam o tempo, das palavras de sangue
cintilante, do poema de vida e morte, o binómio das aldeias ininterruptas é tão
sublime e majestoso como a rosa, como o martírio do búzio de Istambul».
Trata-se aqui de um mundo uno. É o poema que une as coisas mais diversas e
opostas, sejam as águas em tumulto do Bósforo ou as águas calmas do Mondego:
«Toda a memória é uma forma de solidão, a respiração, a margem das palavras. O
eco.» Dito de outra maneira: «o poema atravessando dois mundos de ecos
intangíveis / a força consagrada dos búzios florindo a sua órbita viva /
advindo nos hortos perfumados dos jardins de Istambul».
Se «Natureza e Cultura» pode ser a primeira inscrição do livro, a segunda será
«Amor e Morte»: «quando em 1996, sob o vento de Outubro, antes que a noite se
aproximasse, te procurava por entre os odores dos amieiros, porque o amor é
forte como a morte, mais forte que a eternidade dos mortos – te procurava
na pureza do linho e das mortalhas sagradas, pai».
Voltando à dualidade «Natureza e Cultura», depois da homenagem a Camões («Junto
às margens impassíveis dos rios da Babilónia / os salgueiros têm fólio espinhos
hábeis de silêncios») o autor regressa à Natureza: «Agora que todo o campo,
todos os animais, todas as aves, toda a terra, todos os amieiros me pertencem,
regresso até ao fim do mundo» Mas já tinha viajado pela Cultura na primeira
parte do livro. A sua biografia («ser bardo e sonhador é devorar o fogo
sagrado, o correr das chuvas») envolve leituras de poetas como Camões, Fernando
Pessoa, Fiama, Luiza Neto Jorge, Gastão Cruz, Ramos Rosa, Jorge de Sena, Miguel
Torga, Eugénio de Andrade ou Mário Cesariny: «Deixa que chegue a ti o que não
tem nome: o que é o fogo. / Tocaste a luz, a quietude da luz e inventaste a
blasfémia / a respiração / retrocedeste em círculos / desceste ao pântano das
madrugadas que se acolhem largadas sob as chuvas»
O búzio de Istambul ouve-se à beira do Mondego, entre Coimbra e a Figueira da
Foz. O mundo é uno: o poema junta de novo o que a geografia separou.
(Editora: Palimage, Prefácio: Casimiro de Brito, Capa: Rogério Oliveira)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 16:14

Quinta-feira, 18.04.13

uma luz que não se perde, não se gasta nem se deixa traficar

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Dissertação para um olhar da mulher-menina na cidade
A arquitectura do nosso mundo começa neste pormenor a preto e branco.
Cada imagem é o segredo de outra imagem. Prometida, desvendada, misteriosa,
sempre nova, permanece no sorriso desta mulher-menina no bulício da cidade. O
mesmo é dizer - na febre do trânsito, na confusão das placas, nas insuficientes
direcções.
A curva dos lábios na fotografia faz prenunciar o feliz encontro da água e da
terra, a fertilidade do sorriso que se multiplica na cidade embora tenha a sua
origem na serra, entre a resina e a caruma. O vento a empurrar os cabelos
soltos outra coisa não é que a memória do vento da terra original, entre os
últimos pinheiros e as primeiras casas. O mesmo vento dos antigos moínhos onde
a mulher-menina já não foi trocar cereal por farinha para a fornada da semana.
O mesmo vento das telhas de canudo nas pequenas casas sobre os animais que
dormem na noite da terra esperando a voz do pastor na neblina da manhã.
Metáfora perfeita da casa, o rosto altivo da mulher-menina tem, nos olhos as
janelas e na boca a porta de onde partem canções perfeitas, música e letra,
melodias e palavras capazes de derrubar toda a indiferença dos habitantes da
cidade.
Neste olhar se concentra ao mesmo tempo a memória dos pinheiros e das casas, a
memória do tempo mais lento do queijo e do pão. Também o sabor do bolo finto
– amarelo e doce, perto do calor do lume e do sabor do café.
Num tempo onde a cidade é hostil, breve e veloz, a foto da mulher-menina a
preto e branco transmite a força de uma luz que não se perde, não se gasta nem
se deixa traficar pelo esquecimento. Porque, mesmo em silêncio, nos interroga
até ao lado de lá do pensamento.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 15:08

Quarta-feira, 17.04.13

432 quadras para um rx de portugal

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«Olhando as margens» de José Correia Tavares
Depois de «O grande livro dos cães» (2009) e «Os sinais da viagem» (2011)
José Correia Tavares regressa com este livro de 432 quadras -240 em
«Olhando as margens» e 192 em «À beira do mar». A quadra é, neste autor,
sempre lapidar no que integra de concisão, brevidade e sabedoria. O seu já
hoje clássico «Beijos e pedradas» é uma crítica arrasadora à sociedade do
seu tempo.
José Correia Tavares refere a guerra colonial: «Em bem maiores assados /
Já me vi que vejo agora / Quando sem sermos soldados / Nos fizeram ir
embora». A emigração está presente numa quadra: «A volta ao mundo dez
vezes / Mesmo em zonas imprevistas / Encontrei os portugueses / Raramente
eram turistas». O país merece uma pergunta: «Bem sei que tanto vos faz /
Mas não sereis afinal / Só olhando para trás / Novas estátuas de sal?».
Depois uma constatação: «Há muitos talvez por vício / Na cauda sempre no
fundo / Nós em fogos de artifício / Somos campeões do mundo». Por fim, um
olhar para o futuro: «Na maré nova que vem / Pois nas veias já se sente /
Não preciso de ninguém / A não ser de toda a gente».
A crítica não inibe o poeta de sorrir: «Depois dum longo fadário / Nada me
correndo bem / Eu saio aqui no Calvário / Já não vou até Belém». Outro
exemplo: «Candidata à autarquia / Bonita lhe digo assim / Votar em ti
votaria / Tu a urna, eu boletim.» Ou então: «Um lugar na caravana / Para
sair desta fossa? / Como és um grande sacana / Vais atrelado à carroça».

A quadra, enquanto tema, faz parte do conjunto: «No espaço tão limitado /
Das quadras em que me movo / Cabem presente e passado / Alvores dum mundo
novo». Tal como a poesia e os poetas: «Há do plebeu ao mais nobre / Poetas
da nossa praça / Que no símbolo do cobre / Levam, pagando ou de graça». Tal
como a arte: «Por seu talento ou com sorte / Modestos sem dar nas vistas /
Um remédio contra a morte / Inventaram os artistas.» Em especial a pintura:
«Embora ponham nas telas / Milhares de pinceladas / Só quando a gente vai
vê-las / Ela ficam acabadas».
O autor é sempre poeta, seja lembrar Sebastião da Gama («De ninhos por
estes ramos / Os ventos contrariando / É pelo sonho que vamos / Se
regressarmos sonhando») seja a evocar Camões («Vossas eternas questões /
Poeta inculto? Letrado? / Falo a língua de Camões / Também do Mal
Cozinhado») seja por fim na despedida: «Livre de todos os medos /
Pequeninos, ancestrais / Sem revelar meus segredos / Vou-me embora até
jamais».
(Editora: Húmus, Prefácio: Cristina Robalo Cordeiro, Capa: António Pedro
sobre litografia de Cipriano Dourado)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 15:46

Domingo, 14.04.13

aproveitemos a vida no que ela tem de melhor

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«Photomaton – Auto-retratos íntimos» de João Viegas
João Viegas (n.1945) recuperou do seu Blog um conjunto de textos que
deixaram o efémero da Internet para se situarem no mais durável do papel
impresso. Num tempo de comunicação veloz (Youtube, Website, Facebook,
Farmville, Twitter) e mesmo sabendo que «um blog é uma espécie de vampiro»,
o ponto de partida é, ainda assim, um verso de Carlos Drummond de Andrade:
«A Solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos». Tendo-se estreado em
1983 com «O galo de Barcelos ao poder» e prosseguido com «As noites longas
do FM estéreo» de 1986, João Viegas publicou em 2004 «Gostastes?» na
Editorial Bizâncio e é co-autor do livro «O canto do galo» também da
Bizâncio em 2009.
Este livro surge com uma cartografia pessoal. Nele o autor regista os
filhos («Não é um familiar. Nem um vizinho. Nem um amigo. Nem uma paixão»),
o pai («O meu pai morreu há anos»), a mãe («Deste-me a Vida, o maior
presente de todos») e a mulher: «Há cerca de vinte anos conheci numa
pequena ilha no meio do Atlântico a Mulher da minha vida». Mas sendo um
livro pessoal não se fica pelo «eu» e avança decidido para o olhar mais
plural sobre o povo, a sociedade e o país onde o autor vive. Uma memória
viva da guerra em África («Quando eu tinha 15 anos começou a Guerra
Colonial / e os irmãos mais velhos dos nossos colegas a serem chamados /
para Angola que Salazar dizia “É nossa!”») prolongada nas
palavras do pai do autor quando este regressa de dois anos em Moçambique e
se reencontraram: «Então rapaz, correu tudo bem? Para outros correu tudo
mal como o Silva que já se tinha despedido dos amigos e fazia a última
patrulha em Moçambique: «Ficou espalhado em mil pedaços por terras
africanas».
O inventário do Portugal é irónico; seja na memória («Tínhamos um Império,
dois se contarmos com o cinema») seja no jogo dos apelidos: «Ninguém perdoa
ao Cavaco ser Silva, por isso ele vinga-se com o Professor Doutor mas mesmo
assim continuam a olhá-lo como um “saloio”». O autor diz o que
pensa sobre as leituras («Desde que me recordo como ser pensante todas as
minhas lembranças surgem associadas a Livros») e sobre as mulheres: «O
Presente para uma mulher de 40 anos é para ser vivido intensamente, antes
que se transforme em Passado». Sem esquecer a sua noção de felicidade:
começa com uma advertência («Todos os destinos são permitidos com excepção
dos Centros Comerciais») e termina com um aviso: «Aproveitemos a Vida no
que ela tem de melhor, / o Amor, a Amizade, o Prazer nas suas várias
facetas. / Sem nunca esquecer que Vida há só uma. Esta.»
(Editora: Mercado dos Sonhos, Capa: Sofia Silveira)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 23:26

Domingo, 14.04.13

a verdade vem sempre ao de cima

eusebio3.jpg


Vinte Linhas 890
José Domingos, Eusébio & etc - ou O fascínio da verdade
Desde sempre me lembro de perguntar a mim próprio algo como «onde é que
está a verdade disto?». Vivi em Santa Catarina, no Montijo, em Vila Franca
de Xira e Lisboa, trabalhei em Santarém, viajei por Paris, Londres, Oxford,
Cambridge, Bruxelas, Amsterdão e Madrid e nunca me esqueci de perguntar
onde está a verdade. Um dia publiquei um «post» neste Blog com um erro
crasso: identifiquei um jogador da equipa de juniores do Sporting Clube de
Portugal como irmão do Luís Boa Morte quando o seu nome é José Domingos.
Peço desculpa aos leitores e ao jogador em causa mas a memória tem estas
coisas: recordei Beto, Santa Maria, Nuno Diogo e Carlos Martins mas falhei
no José Domingos. Um caso de falta de memória é o de Eusébio que tem
aparecido nos jornais a dizer mal do Sporting de Lourenço Marques. Segundo
um amigo meu, jornalista de velha guarda «ele diz isso para agradar ao
terceiro anel». Nunca se ouviu uma palavra deste jogador a censurar quem o
recusou no SLB quando veio da América e assim se viu obrigado a jogar em
Aveiro e em Tomar onde terminou a sua carreira em esforço, em sofrimento e
sem glória, arrastando-se por campos secundários. Mas dizer mal do Sporting
de Lourenço Marques é mais fácil. Foi nos «leões» de Moçambique que Eusébio
aprendeu a ser jogador de futebol pois antes apenas jogava à bola, fintava
todos e marcava golo. A foto não engana: foi no Sporting de Lourenço
Marques que Eusébio se fez jogador de futebol (um jogo colectivo) mas só
não veio para o SCP de Lisboa porque tinha 19 anos de idade e só aos 21
anos os jovens passavam a ser maiores. Foi a mãe que assinou os documentos
e em troca recebeu «dinheiro grande» – dinheiro suficiente para
comprar um andar em 1961, cento e cinquenta contos. Isto não pode ser
esquecido tão depressa, não pode mesmo, isto é verdade.
J
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por José do Carmo Francisco às 17:19

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