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Transporte Sentimental



Quinta-feira, 28.02.13

cristiano ronaldo desenhou o esplendor na relva

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Cristiano Ronaldo na humilhação dos fundamentalistas catalães
Na noite de terça-feira lembrei o tempo em que ouvia rádio, quando a emoção
do estádio me chegava nos Domingos à tarde pela velha Schaub Lorenz. «Ouvi»
o jogo Barcelona-Real Madrid na televisão do jornal A BOLA onde o «pivot»
ia anunciando os golos um a um. Quando chegou ao 3-0 para o Real Madrid
fiquei convencido que a humilhação dos fundamentalistas do Barcelona estava
concluída e nem o golo já no fim do jogo alterava o que quer que fosse.
Eles são repugnantes porque lá em Barcelona apagam o passado nos seus
livros e nas vitrines do Museu – por exemplo a passagem pelo clube de
Vítor Baía e Luís Figo. Mas não só eles são fundamentalistas e
insuportáveis como também ao mesmo tempo a imprensa desportiva catalã prima
por descer ao mesmo nível dos adeptos do clube que, coitados, não são
capazes de ver outra coisa. O jogo mostrou que os outros podem ganhar os
prémios em votações condicionadas mas o Cristiano Ronaldo prova que é o
melhor dentro das quatro linhas. Estes dois golos em Barcelona são um
argumento que ninguém pode discutir. Cristiano Ronaldo é o melhor do Mundo,
ponto final. Dentro da minha emoção lembrei-me logo da terrível manhã do
dia 24 de Outubro de 1999 (Domingo) num Casa Pia-Sporting de Iniciados em
Pina Manique, estava a chover, estava frio e havia um nevoeiro cerrado. O
árbitro desse jogo (salvo erro António Cardoso) parou o jogo e chamou o
enfermeiro Fontinha. Ele teve a intuição de perceber no meio da chuva, do
nevoeiro e do frio que o Cristiano Ronaldo estava mal. Estava de facto a
sofrer de uma taquicardia grave mas com a injecção tudo sossegou e mais
tarde tudo foi resolvido no Hospital. Em Pina Manique (1999) a visibilidade
era pouca ao contrário desta noite (2013) em que a visibilidade é total. CR
é o melhor, toda a gente viu e eu ouvi.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 09:44

Terça-feira, 26.02.13

maturity date não é data de maturação

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A pacalaia disse «a data de maturação» e eu desliguei o rádio da cozinha
Já não me bastava ter que ouvir a voz entaramelada do ministro das Finanças
quando fala de vez em quando nessa coisa da «maturidade» como se essa palavra
pudesse traduzir a expressão inglesa maturity date. Ora em português de
Portugal a tradução de maturity date é data de vencimento, não há outra
tradução. Portugal é um país de analfabetos e para mim, que trabalhei em
comércio externo durante 30 anos, traduzir maturity date por data de maturidade
é sinal óbvio de ignorância. Sei do que falo, passaram-me pelas mãos muitas
letras descontadas sobre o estrangeiro. É uma vergonha para todos nós haver no
Governo ou no Paramento ou onde quer que seja, alguém com responsabilidades a
dizer alto e bom som uma palavra cujo sentido é outro. Maturidade é um conceito
da área da psicologia, não do comércio internacional. Mas o mais espantoso
ainda estava para vir. Um destes dias estava eu na cozinha a ouvir um
noticiário à hora certa. Sem mais nem menos uma pacalaia apareceu a dizer «a
data de maturação» como tradução em cima do joelho da expressão inglesa
maturity date. É simplesmente miserável que alguém se lembre desta estupidez.
Data de maturação... Isso significa que a pacalaia nem sequer faz ideia daquilo
que estava a papaguear. Maturity date – data de maturação, ora aí está a
solução. Pobre pacalaia, pobre país que tem ditos responsáveis assim que não
fazem a mínima ideia daquilo que estão a dizer. Por isso me revoltei e
desliguei o rádio da cozinha. Livra! A palavra pacalaia existe mesmo embora não
venha registada em alguns dicionários – na minha terra e arredores
significa paravalhona, matrarfona, tonta, lapona, tapada, maloia, parva. E
assim por diante, sempre em frente e para o lado da parvoeira que outra coisa
não merece quem não sabe o que é a maturity date.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 18:14

Domingo, 24.02.13

do senhor dos passos da graça a uma página do dn

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Casula não é batina - nem aqui nem no México
Hoje foi para mim um dia especial. Porque vi todo o ritual da saída a procissão
o Senhor dos Passos da Graça que partiu da igreja de São Roque com destino a
São Domingos de onde seguiu a segunda etapa até à igreja da Graça. Trata-se de
uma das mais antigas procissões do Mundo pois teve início em 1587 e ainda se
realiza em Portugal, Macau, Índia e Brasil. Pela minha parte houve muitas
emoções fortes com o som puro, límpido e solene da marcha grave da Banda
Militar que seguia atrás do pálio. Volto num instante de novo ao tempo das
procissões da aldeia onde nasci quando o meu tio ia a correr buscar brasas à
lareira da casa da minha avó para o turíbulo do incenso. E era eu que pegava na
naveta de prata.
Minutos depois descobri na página 35 do Diário de Notícias de hoje –
24-2-2013 – um erro crasso a propósito de vestes sagradas. O texto é o
seguinte: «O padre explica que os diferentes personagens que traz estampados na
sua batina servem para estimular os fiéis a darem o melhor de si próprios». Mas
a palavra não é (nem pode ser) «batina»; a veste em causa duas vezes
fotografada na página do DN chama-se «casula» e é a veste sacerdotal por
excelência pois se toma sobre todas as outras antes da celebração. As restantes
vestes são, a saber: a alva, o cordão, o manípulo, a estola e o amicto. A
casula recorda a túnica inconsútil que os judeus tiraram a Jesus Cristo quando
o crucificaram. A batina é outar coisa muito diferente.
Os bons dicionários explicam que a «batina» é uma veste talar e «talar»
significa «vestuário que desce até aos calcanhares». Por norma a batina é preta
e as casulas apresentam as cores conforme o calendário da liturgia –
branca (santidade), vermelha (amor de Deus), verde (esperança na pátria
futura), roxa (penitência) e preta (defuntos). Casula não é batina.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:00

Sexta-feira, 22.02.13

pequenas histórias que não são histórias peqeunas

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«Episódios da Monarquia Portuguesa» de João Paulo Oliveira e Costa Depois da «Cronologia da Monarquia Portuguesa» surge na mesma editora este «Episódios da Monarquia Portuguesa» e, com o título indica, este volume de 413 páginas é um muito completo inventário de situações e momentos da História de Portugal. Dois dos menos conhecidos são o terramoto de 1531 e a morte de D. Teodósio em 1563. Em 1531 a cidade de Lisboa tinha cem mil habitantes, a quarta parte das casas foi afectada e dez por cento delas ruiu. O desastre foi registado na «Miscelânea« de Garcia de Resende: «Todos com medo que haviam / deixaram as casas, fazendas / nos campos em praças dormiam / em tendilhões e em tendas / casas de ramas faziam / as mais das noites velando / temendo e receando / porque temor não cessava / a gente pasmada andava / com medo, morte esperando». Ligada a esta situação do terramoto de Lisboa está a morte de D. Teodósio, 5º Duque de Bragança em 20-9-1563. Figura discreta, D. Teodósio não foi à guerra como seu pai D. Jaime (Azamor) ou como seu meio-irmão D. Constantino (Damão) mas conviveu com D. João III em ´Évora quando a corte se deslocou para esta cidade do Alentejo após o terramoto de 1531. Este homem singular tinha o sonho de fundar uma Universidade em Vila Viçosa e era dono da maior biblioteca portuguesa e uma das maiores bibliotecas da Europa do seu tempo com mais de dois mil volumes. Além de jóias, tapeçarias, pinturas, esculturas e mobiliário que tinha no Paço Ducal de Vila Viçosa, o seu gosto pela música perdurou até ao seu bisneto, o 8º Duque de Bragança, mais tarde D. João IV de Portugal. (Editora: Círculo de Leitores, Design: Carlos Correia) José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 14:50

Quinta-feira, 21.02.13

entre a áfrica e a europa um soldadinho português

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Rogério Araújo ou o soldadinho que foi para a Guerra de 14-18
O óleo sobre tela tem 80x60 centímetros mas a dimensão do drama da entrada de
Portugal na I Grande Guerra foi enorme. Não cabe na superfície de um quadro
como este no qual Rogério Araújo (n. 1947) organiza uma separação entre o lado
de cima (Europa) e o lado de baixo (África). Muitos dos soldados que eu ainda
conheci, partiram para Angola em 5 de Novembro de 1914 mas, regressados de
África onde passaram fome e sede como nunca tinham pensado vir a passar e a
sofrer, foram atirados para as trincheiras da Flandres em 1916 sem tempo para
se despedirem da família. No quadro o soldado português já chegou de África e
está prestes a partir para o coração da Europa mas não sabe quais as teses que
o empurraram para o conflito. Nem a tese colonial («Portugal entrou na guerra
para salvar as colónias») nem a tese europeia peninsular («Face à neutralidade
espanhola era preciso um Portugal beligerante ao lado dos Aliados») e antes
pelo contrário a mais importante: dividida entre radicais e moderados, a
República procurava a unidade política de todos os republicanos.
Voltando ao quadro que vai integrar em 26 de Fevereiro uma exposição na Allarts
Gallery na Rua da Misericórdia nº 30 ao Chiado (em conjunto com peças de Victor
de la Fuente) importa sublinhar o ar bisonho do soldadinho que a República
mandou para África defender as colónias dos apetites alemães e ingleses no sul
de Angola e no norte de Moçambique para, sem lhe dar descanso, o enviar de
imediato para o conflito europeu. No intervalo entre duas viagens, o soldado
português é também o símbolo de um país dividido entre uma República que o
cativou e uma Igreja que tinha ouvido falar em duas gerações para o seu fim mas
já preparava o altar do Mundo em Fátima. Foi tudo tão rápido que o saco do
soldado é o mesmo.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 16:41

Terça-feira, 19.02.13

4 países 2 continentes várias vozes

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«Outras margens» de Manuel G. Simões
Manuel G. Simões (n.1933) é poeta, tradutor, organizador de antologias,
professor (Lisboa, Bari, Veneza), editor (Nova Realidade) mas também ensaísta.
Como neste livro recente e no anterior «Tempo com espectador – Ensaios de
Literatura Portuguesa) de 2011. Ligado a duas importantes revistas culturais -
«Vértice» (1967-1969) e «Ressegna Iberística» (1978-2012), a faceta de hábil
divulgador surge na sua plenitude neste volume sobre as obras de Jorge Amado,
Adonias Filho, Jorge de Lima, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de
andrade, Clarice Lispector, Agostinho Neto, Luandino Vieira, Costa Andrade,
José Craveirinha e a literatura de Cabo Verde: «A literatura cabo-verdiana não
é insensível ao problema da seca, sendo este um dos epifenómenos mais
influentes no tecido social do arquipélago. Anos houve em que morreu por vezes
de 10 a 30 por cento da população, devido às frequentes estiagens, provocando a
carência de géneros básicos como o milho, o feijão, a mandioca, a batata-doce e
a forragem para o gado». Em relação à literatura nordestina Manuel G. Simões
refere: «A seca impôs três destinos, três saídas para o Nordestino: ou se lança
no crime e se torna cangaceiro, ou emigra pacificamente (o chamado retirante)
ou então procura em práticas supersticiosas (misticismo) aplacar a fúria de
Deus e termina matando em nome de Deus».
Uma breve nota para destacar o texto de MGS sobre Carlos Drummond de Andrade, a
relação entre memória e escrita, entre vida e poesia. Por um lado em «A rosa do
Povo» o poeta avisa («Não faças versos sobre acontecimentos») mas já em
«Sentimento do Mundo» afirma: «Tive ouro, tive gado, tive fazendas / Hoje sou
funcionário público / Itabira é apenas uma fotografia na parede / Mas como
dói!». O poeta é o que diz - «Não sei fazer visita / e dizer as amenas / frases
que toda a gente / traz no bolso da calça» - mas também o que pergunta: «E
agora, José? / A festa acabou / a luz apagou / o povo sumiu / a noite esfriou /
e agora, José?».
Livro de quatro países, dois continentes e várias vozes, este volume de MGS é
um irresistível convite à leitura.
(Editora: Edições Colibri, Editor: Fernando Mão de Ferro)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 17:31

Terça-feira, 19.02.13

livros das escadinhas de são cristóvão às do duque

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Alfarrabistas - As livrarias, os livros e as lágrimas
A desolação cultural assentou arraiais por aqui. A Câmara Municipal de Lisboa
não faz nada pela cultura desta zona, limita-se a assobiar para o lado. No
Chiado já existem demasiadas lojas estrangeiras. Os alfarrabistas e as
livrarias continuam a fechar a um ritmo alucinante. Bocage, Camões, Barateira,
Portugal, Petrony, Guimarães, Citação, Rei dos Livros e Biblarte são nomes que
desapareceram do nosso mapa de livros e afectos. As duas livrarias do Largo da
Misericórdia podem acabar em Agosto e não se sabe onde continuam. A Biblarte
foi a mais recente e com ela perdeu-se a memórias viva de Fernando Pessoa e
Eliezer Kamenesky, o «Alma errante». Esse mesmo. Nasceu uma nova livraria na
Rua do Trombeta, nº 1 D ao lado da Rua da Rosa, perto do Calhariz. Oxalá se
mantenha e viva muito tempo. Mas os teimosos não desistem e aparecem todos os
dias nas livrarias que restam. Outro dia descobri nos Bonecos Rebeldes das
Escadinhas do Duque nº19 o livro «Os melhores postais antigos de Lisboa» de
Marina Tavares Dias. Além dos postais, o livro inclui vários textos, um deles
de facto espantoso sobre a morte violenta em 1908 de uma varina de 13 anos.
Maria dos Anjos de seu nome, uma quase-criança, foi degolada numa azinhaga
perto do Areeiro para lhe roubarem o cordão de ouro. Marina Tavares Dias assina
o texto que me emocionou. Horas depois descobri na livraria de Simão Carneiro
ali às Escadinhas de São Cristóvão o «Dicionário do Calão Casapiano».
Incansável colecionador de dicionários, este livro de 1976 organizado por
Eduardo dos Santos, Manuel Passetti e Fernando Cardote, vem juntar-se, entre
outros, a «O calão» de Eduardo Nobre, ao «Dicionário do palavrão» de Orlando
Neves e Carlos Pinto Santos e ao «Novo dicionário do calão» de Afonso Praça.
Aqui temos livrarias, livros e lágrimas – tudo junto.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 15:14

Domingo, 17.02.13

uma voz perto da terra, da luz e do vento

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Dissertação para a voz de Piedade Rêgo-Costa
Os leigos, todos os que aprenderam a amar a música nas casas do ensaio das
velhas filarmónicas rurais onde os homens chegavam à noite com bocados de
terra na baínhas das calças, os leigos, esses, que nada sabem da gramática
da música e do canto, os leigos preferem falar de uma voz muito perto da
terra, da luz e do vento. Outros, porém, preferem definir uma voz pelo
timbre, pela altura e pela extensão. No intervalo entre estas duas noções,
entre dois conceitos, entre dois registos, a voz de Piedade Rêgo-Costa sobe
do chão do quotidiano para um altar invisível onde se celebra um ritual.
Nesses momentos a voz pode ser um clarim, uma bandeira, um tambor tocado
por alguém que, sem medo de nada nem de ninguém, caminha a céu aberto para
o inevitável encontro com a sua própria revelação.
Não interessa saber se esta voz feminina é soprano ou contralto porque o
importante é descobrir o usufruto da sua temperatura, a harmonia, a
tessitura, a maneira hábil como as palavras se incorporam na música da
guitarra e da viola. Tudo na voz de Piedade Rêgo-Costa é límpido, incisivo
e eficaz. Ficam as suas cordas vocais ao lado das cordas dos instrumentos,
o canto em harmonia com o acompanhamento, a voz por cima junto ao céu com o
seu azul e a partitura por baixo junto à terra com o seu litoral.
Seja um órgão da palavra, seja uma festa do encontro, seja um apelo urgente
para voar como se as sílabas fossem também aves, há na voz de Piedade
Rêgo-Costa essa noção inata de reduto onde tudo repousa e, por fim, tudo se
resolve: a voz é uma casa onde a terra a envolve, onde a luz nunca se apaga
e onde o vento, cansado de bater nas telhas, regressa ao mar de onde veio
para se perder devagar entre a espuma branca e a imensidão do azul.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 16:54

Sábado, 16.02.13

um terno de clarins frente a uma campa rasa

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Dissertação sobre «Fanfare for the common man» de Aaron Copland
Se ontem à noite em São Carlos lembrei logo a interpretação dos Emerson Lake &
Palmer sobre o original de Aaron Copland, foi porque todas as músicas podem ser
lidas de modo diferente por quem as ouve. Sabe-se que, neste caso, a encomenda
partiu do maestro titular da Orquestra Filarmónica de Cincinnati e que a
homenagem é para todos os soldados, marinheiros e aviadores americanos que
estavam a morrer nas praias da Normandia e um pouco por toda a Europa em guerra
entre 1939 e 1945. Mas ontem à noite, no Teatro Nacional de São Carlos, ao
ouvir o Emsemble de Metais e Percussão da OSP dirigido pelo maestro Pedro
Neves, a minha recepção foi apenas emotiva. Lembrei o som do terno de clarins
quando em Santa Catarina vieram trazer ao cemitério o primeiro soldado da nossa
freguesia (era das Relvas ou da Granja Nova) morto na guerra colonial. Entre os
soluços da família e a bandeira recolhida por um cabo aprovado para furriel,
recordei o absurdo do momento e as nuvens cinzentas no céu da Estremadura, o
mesmo céu de onde saía o som do comboio do Oeste trazido pelo vento de São
Martinho do Porto até nós. Mas tudo aqui são memórias. Estou a ouvir e a ver de
novo o meu avô José Almeida com uma trompete nova comprada no Custódio Cardoso
Pereira, o tio André com a sua trompete de prata, o Victor que depois foi para
o Porto com o seu fliscorne de som maia doce e o António Freire com a sua
versátil trompete que tocava na Orquestra dos Pimpões nas Caldas da Rainha.
Saio de São Carlos como se estivesse não num largo de Lisboa mas numa arraial
cheio de pó e de sol. No escuro da noite ninguém se apercebe das lágrimas. Pelo
Chiado acima sou também um homem comum embora envolvido numa nostalgia onde
cabe uma memória afinal povoada por muita gente.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 08:59

Quinta-feira, 14.02.13

o mundo é como a morte de são bernardo - uns a rir outros a chorar

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Dissertação para o universo de um aniversário
O meu segundo livro tem um título (Universário) que foi objecto de muitas
confusões na imprensa quando foi publicado pela Moraes em 1983. Uns
chamaram-lhe Universitário, houve quem fosse para Aniversário, de tudo um
pouco. No universo do meu aniversário de 2013 cruzaram-se coisas tristes
mas também factos felizes. Como dizem na região de Alcobaça «o mundo é como
a morte de São Bernardo – uns a rir outros a chorar». No quadro do
Mosteiro de Alcobaça uns choram e outros tocam pífaros e tambores perante a
cama onde São Bernardo acaba de morrer. De manhã recebi uma chamada da
Austrália onde já era noite, a seguir uma mensagem de Londres e depois
outra de Lisboa. Ouvi na rádio uma faixa do CD de Miguel Calhaz onde o som
de uma ocarina me levou às aves que parecem vírgulas no céu dos pinhais da
Beira Baixa. Passei à porta fechada da livraria Biblarte (São Pedro de
Alcântara) e lembrei-me logo da edição especial de «Os Lusíadas» de 1584
que o senhor Ernesto Martins ofereceu em 1986 a todos os amigos que
assinaram a petição ao ministro da Justiça do tempo (1983) para não mandar
fechar a livraria, sonho antigo dos burocratas do Supremo Tribunal
Administrativo para quem o espaço da Biblarte é óptimo para uma garagem.
Tive um dia cheio, almocei no terraço da Travessa do Ferragial nº 1, recebi
muitas mensagens de parabéns – umas institucionais, outras pessoais
– falei com o meu pai e com os meus netos londrinos, fui jantar com o
meu único filho que vive em Lisboa e recebi esta prenda inesperada do meu
neto mais pequenino. Por isso juntei o desenho com a primeira página do
livro mais valioso que tenho em casa – «Os Lusíadas» de 1584 numa
edição anastática de 1986 feita na Litografia Nacional do Porto. A alegria
e a tristeza lado a lado - como na morte de São Bernardo.
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 11:45

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