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Transporte Sentimental



Segunda-feira, 31.12.12

conversas transatlânticas com onésimo

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«Utopias em dói menor» de Onésimo Teotónio Almeida e João Maurício Brás
Este livro de 316 páginas é o resultado de uma conversa de dois anos e de
ambos os lados do Oceano Atlântico; daí o subtítulo «Conversas
transatlânticas com Onésimo». João Maurício Brás (autor de «A importância
de desconfiar») faz as perguntas e Onésimo Teotónio Almeida (professor
catedrático da Brown University – nos EUA) dá as respostas.
Observando Portugal do outro lado do Atlântico, Onésimo pode advertir:
«Portugal desafia as leis da óptica pois se vê melhor ao longe do que ao
perto». Dito de outra maneira: Onésimo foi em criança de São Miguel à
Terceira e percebeu que era micaelense, na Madeira sentiu-se açoriano, em
Lisboa sentiu-se ilhéu, em Badajoz foi português, em Paris era ibérico, nos
EUA foi europeu, na China era ocidental e, um dia, se for a Marte, irá
sentir-se terrestre. No nosso país não existem diálogos francos e abertos:
é impossível discutir ideias sem descambar para ataques pessoais. Por isso,
avisa Onésimo, «a nossa escrita se não se deixa filtrar pela emoção e pelo
recorte literário, dificilmente ganha leitores» e para tal «basta lembrar
os adjectivos poucos simpáticos que em Portugal mimam um espírito analítico
como o de António Sérgio».
No que diz respeito ao Mundo e aos Homens, Onésimo parte de uma ideia
pessoal indiscutível («A nossa vida é muito curta») para uma conclusão
também indiscutível sobre o Mundo («Não se é mais humano por se viver na
contemplação das misérias do mundo») e sobre os Homens: «os seres humanos
são capazes do melhor e do pior, de catedrais e de Auschwitz». Hoje como
ontem há neste autor o prazer antigo de comunicar: no passado «sempre que o
Sporting marcava um golo, eu, ouvindo o relato de orelha colada ao aparelho
de rádio, ia à rua anunciar a toda a gente» e no presente sente que tudo o
que escreveu «foi provocado pelas leituras que fez, inspirado pelas
preocupações teóricas que animaram o seu doutoramento em filosofia e
continuam a inspirar o curso sobre valores e mundividências que entretanto
começou a leccionar». Dito de outra maneira: «na prática lidamos com o
indefinido, o incompleto, o inseguro, o desconhecido. Pessoa terá
supostamente dito - A vida é assim mas eu não concordo. E eu repondo - Eu
não concordo mas a vida é assim.»
(Editora: Gradiva, Capa: Armando Lopes, Prefácio: Carlos Fiolhais,
Posfácio: José Eduardo Franco)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 16:02

Sexta-feira, 28.12.12

os guarda-redes morrem ao domingo

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Os guarda-redes entre o pó e a posteridade
Horas antes de me ter sido oferecido o livro «The Outsider» de Jonathan Wilson,
cronista do jornal «Guardian» que o marido da minha filha lê todos os dias em
Londres, conversei à porta da uma livraria nas Escadinhas do Duque sobre o pó e
a posteridade. Em causa estava o facto de no seu tempo o escritor Pinheiro
Chagas ter sido mais popular do que Eça de Queirós tal como Cláudio Nunes foi
mais conhecido junto do público do que Cesário Verde e Augusto Gil muito mais
divulgado nos jornais da época do que Camilo Pessanha.
No caso deste livro escrito em Inglaterra acontece algo parecido. Dos
guarda-redes portugueses apenas aparece referido o João Azevedo do Sporting
Clube de Portugal. Como o subtítulo é «A history of the goalkeeper» julguei que
ao menos referissem a presença de António Roquete nos Jogos Olímpicos de
Amsterdão em 1928 onde fez história. E não custava nada referir os grandes
vencedores de provas europeias como o leão Carvalho, o vermelho Costa Pereira,
o portista Vítor Baía ou o azul José Pereira que brilhou em Inglaterra na
baliza da selecção nacional de Portugal no ano de 1966, precisamente disputado
no país que criou as regras do futebol moderno numa taberna de Londres onde se
reuniam desportistas maçons. A Freemasons Tavern como o nome indica.
Não deve ter sido por acaso que este livro me foi oferecido hoje na ressaca das
prendas de Natal. Autor dum modesto «Os guarda-redes morrem ao Domingo» com 11
contos, 11 crónicas e 11 poemas sobre os guarda-redes e o futebol, escolhi este
título exactamente por ser um poema dedicado a António Roquete. Ainda o conheci
num lar em Paço de Arcos, ainda a tempo de lhe desejar uma posteridade feliz.
Mas vivemos na periferia da Europa. Pois.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 10:52

Quinta-feira, 27.12.12

outras leituras de 2008

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«Primeira pessoa» de Pedro Mexia

Todo o cronista aspira a ultrapassar o efémero do jornal ou da revista e juntar
as suas crónicas em livro. Antes publicadas na «Grande Reportagem», há neste
conjunto de tudo um pouco. A começar pela crónica em si: «Os textos de quem
escreve vêm do mesmo sítio das conversas dos conversadores ou das recordações
dos anciãos: desse sótão no qual se empilham murmúrios, recortes,
quinquilharia.» E passando pelo autor, ele mesmo, o próprio: «Um gordo não é
exactamente um homem: é um bom amigo. Um bom tipo. Horrorizado, chego à
conclusão de que quase todas as pessoas que me conhecem me acham confiável,
compreensivo e relativamente inofensivo.» Entre a crónica e o autor surge o
Mundo: «O nosso mundo compõe-se de três categorias: aqueles de quem gostamos,
aqueles de quem não gostamos e aqueles de quem gostamos porque gostam de nós.»
Nem tudo é bom; às vezes aparecem inimigos: «O inimigo, na sua cabeça, vê a
outra pessoa como uma caricatura demoníaca, desprovida de méritos, de
atenuantes, mesmo de humanidade. O inimigo espreita cada passo. Constrói em
negativo, uma relação quase amorosa.» E, se estamos no Mundo, há nele lugares:
«Há quem deteste o «Snob». Sei de duas ou três pessoas que dizem, enojadas:
«Nem pensar, não quero ir a um lugar frequentado por jornalistas.» Não anuncio
grande novidade se disser que são os jornalistas que dizem frases assim.
Compreendo que as manchetes devem ser lidas de manhã, quando compramos os
jornais na banca da esquina e não espiolhadas de véspera na maré das redacções
que desaguam para um bife tardio e um copo reparador.»
(Editora: Casa das Letras, Capa: Neusa Dias, Foto: Pedro Loureiro, Prefácio:
Francisco José Viegas)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 12:24

Quinta-feira, 27.12.12

outras leituras de 2008

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«Olhar de Médi.co» de Pedro Nunes

O médico Pedro Nunes (Lisboa, 1954) juntou neste livro textos publicados
anteriormente no jornal «Medi.com». São vários os registos das suas opiniões.
Umas vezes a crítica directa, objectiva e política: «O Presidente da ARS do
Norte, Dr. Jorge Catarino, acabou de dizer à RTP1, num notável exercício de
transparência, que privilegiaria na sua nomeação para cargos de direcção quem
fosse do PS. O Dr. Catarino mais não disse, sem tibiezas e com a frontalidade
tão característica do Porto, que aquilo que todos nós já sabíamos. Podem
primeiros-ministros dizer que não há jobs para boys que, velhos que vamos
sendo, damos a tais afirmações o mesmo valor que os americanos deram ao read my
lips do outro Bush, o pai.» Outras vezes o comentário segue terrenos da ironia,
do subjectivo e do humor: «Os Médicos de Família estão descontentes. O Ministro
não consegue encontrar directores para tantos Centros de Saúde ou, pelo menos,
não encontra dinheiro para pagar a tanto dirigente. Muito simples. Entregam-se
os Centros de Saúde aos Hospitais, mete-se tudo no mesmo saco, transformam-se
os Directores do Centros de Saúde em Directores de Serviço, muito mais
económicos e muito menos dirigentes e, défice por défice, que interessam mais
uns trocos? Põe-se um Médico de Família por convite no Conselho de
Administração, «que diabo alguém há-de ser do partido do Governo», e todos
ficam contentes. Em seguida é só pedir a um missionário qualquer que escreva
uns «manuais de boas práticas», mandam-se os Médicos de Família fazer as
urgências e está o Carnaval montado.»
(Editora: Bico de Lacre, Prefácio: António Bento, Capa: Roberto Medeiros)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 12:22

Quinta-feira, 27.12.12

leituras de 2008

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«A voz da Mãe» de Fernando Miguel Bernardes

Depois de «Escrito na cela», «Uma fortaleza da resistência» e «Docas secas»,
Fernando Miguel Bernardes recupera neste livro uma certa noção de história em
testemunho: o cruzamento de uma história particular com a história mais geral
do País no qual os sujeitos se movem. As histórias são pessoais e familiares
mas o fito da narrativa é mais geral quando o narrador se dirige à Mãe, então
morta: «Parecido contigo é o Francisco mas homem e pai de outra família que vai
crescendo. Como tu curioso, à procura de uma explicação do mundo, como se uma
razão houvesse do nascer e do viver, dos homens e dos bichos, da honradez e do
perverso.» Uma das histórias tem a ver com a resistência ao fascismo: «arrombam
e tombam e invadem e avançam e tu que te antepões à mulher a à criança, aqui
param!, no quarto não entram! E em menos de um credo estás no chão, o menino a
chorar pelo alarido que se gerou e a Sara pronto meu filho, não foi nada, e
procura distrair-lhe a atenção, com ele nos braços cá e lá, e por ti
angustiada.» É uma história de pessoas mas também da terra, da terra
propriamente dita e do seu abandono: «Grande abandono grassa por aí. Triste sem
dúvida mas a vida se concertará e quem vier há-de com certeza resolver este
grave problema que a todos diz respeito. Um drama, pois quem o nega? mas de
dramas nunca o ser humano se libertou nem libertará, assim o creio e sincera
sou, duvido se ao mundo isso algum bem traria; das contradições é que nasce o
novo…» Um livro no qual convivem histórias dos últimos cinquenta anos da
nossa história pública recente e que, tal como afirma o autor do prefácio, «nos
ajuda a manter viva a nossa memória colectiva».
(Editora: Occidentalis, Capa: sobre um óleo de Picasso, Prefácio: António
Ventura)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 12:19

Domingo, 23.12.12

e os crimes, meu general? ah, isso foi há muito tempo. já ninguém se lembra!

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«Viola Delta volume XLIX – poemas sobre África e outros textos»
Para festejar os 35 anos dos Cadernos de Poesia Viola Delta, iniciados em 1977,
surge este novo trabalho poético. Trata-se de um livro colectivo com poemas de
quinze autores: Al Aarão, Alberto Martins Rodrigues, António Cardoso, António
Salvado, Armando Taborda, Carlos Domingos, David Mestre, Delmar Maia Gonçalves,
Fernando Grade, Fernando Pinto Ribeiro, Júlio-António Salgueiro, Luís Filipe
João, Luísa de Andrade Leite, Manuel Ramilo Salgueiro e Maria Almira Medina.

Não se trata apenas de juntar poemas de 15 poetas em livro. Há sempre algo mais
– História e Memória, ambas vivas. Todos os autores trazem uma nota de
apresentação; por exemplo na ficha de Alberto Martins Rodrigues (1950-1986)
escreve Fernando Grade: Do «I Encontro dos Escritores Portugueses», realizado
em 1975, um dos grupos de trabalho emergentes foi a Comissão para Publicação de
Autores em Editor: Afonso Cautela, Fernando Grade, Hermano Neves, João de Melo,
José Correia Tavares, Júlio Conrado e Serafim Ferreira. Desta pró-literária (ou
a-literária) salada russa salpicada de molho tártaro e beirense, acabou por não
sair qualquer coelho da cartola real ou fictícia. Até porque o «25 de Abril»
foi estrangulado pelos vendilhões do Tempo… Era alentejano de mais para
ser sorvido pelos janotas analfas do Chiado. Os perfumadinhos encharcados em
dólares (marados ou não). Os capados da alma.»
David Mestre (1948-1998) foi viver para Luanda com 3 anos, jornalista e poeta,
desertou do exército português em Angola e foi preso em 1971 para ser libertado
em 1974. Começou a publicar em 1973 e além de livros de poesia publicou
crónicas e ensaios.
Júlio-António Salgueiro (1943-1975) foi um dos fundadores do Movimento
Desintegracionista em 1965 e em Luanda escreveu o poema «Movimento da Terra»:
«Depois da morte como depois da tua vida / Não procures o significado oculto da
rosa apodrecida / Aonde queres chegar tens que partir só na tarde negra / Que
zumbe na temperatura do grande verão / No centro da esfera de luz que se move
em movimento / E não te prendas com o que não é há muito esperado / Não olhes a
paisagem porque não é paisagem única / A ninguém interessa se estás contente e
a águia desce / A prumo e cada átomo do teu corpo refaz o mundo / Na sua
totalidade escuta há grandes intervalos / Que devem ser preenchidos entre a
vida e a morte».
(Edições Mic, Ilustrações: J. Leitão Baptista, Júlio Gil. Nadir Afonso)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:09

Sexta-feira, 21.12.12

uma aguarela de alberto sousa

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Coutos de Alcobaça - «Casais inteiros tinham sido abandonados»
Ontem reli dois livros que dizem respeito à nossa terra – Santa
Catarina. O primeiro é «Percurso de um sonhador» de João Luís Pereira
Maurício sobre a vida do padre Fernando Maurício (1928-1963) nascido na
Benedita mas cujo pai era Catarinense. João Machado Maurício (1891-1930)
aprendeu a ler em Santa Catarina com o Padre Agnelo, fez a terceira classe,
conheceu a mulher (Isabel que era da Ribafria) numa quinta em Turquel e
fixou-se na Benedita em 1922 como comerciante. O outro livro é o clássico
«O Povo da minha terra» de M. Vieira Natividade data do de 1917 e
reimpresso em 2000 pelo Movimento de Cidadania REBATE de Alcobaça. O livro
explica como os dois primeiros séculos da vida do mosteiro foram uma onda
de progresso e fraternidade sendo o monge grande mestre, grande amigo e
companheiro inseparável mas no tempo de D. João I um tal abade João
Dornelas cometeu tão violentas e aviltantes arbitrariedades que os povos de
Évora e de Turquel se queixaram dela ao Rei D. João I em 22 capítulos de
dor e de desespero. O tal abade iniciou uma época de terror e como o Rei
não melhorou a situação do povo o povo então emigrou, cheio de ódio e de
dor em busca de terra sonde o senhor fosse menos cruel. Quando os monges
reconheceram o grande mal já era tarde. Casais inteiros tinham sido
abandonados. Mais tarde outro rei transformou uma eleição numa comenda e o
abade de alcobaça deixou de ser um monge para ser um apaniguado do rei.
Monges e povo ficaram submetidos ao mesmo domínio, participantes da mesma
angústia. Isto no passado. Nos anos 50 do século XX tenho memória de ir a
Turquel ver o círio de Santa Susana que saía do Bárrio para o Landal. Com
juiz e mordomos, música e carros de bois. Este livro tem a ver connosco, é
memória comum.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 15:16

Quinta-feira, 20.12.12

terceira memória de santa catarina

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No Verão desse tempo havia tempo para tudo (foto da velha igreja de S.
Catarina)
Todos se lembram mas poucos recordam – esta adversativa do poeta
Carlos Garcia de Castro vem mesmo a calhar para o início de uma memória.
Algures no tempo entre 1961 e 1966, nas férias grandes da escola, havia
tempo para tudo. Descansava-se na parte final de Junho, todo o Julho, todo
o Agosto e todo o Setembro. É que as aulas só começavam a 6 porque 5 de
Outubro era feriado nacional. As minhas idas à loja do senhor Ernesto e da
menina Judite tinham deixado de ser para trocar ovos por arroz, açúcar e
sabão e passaram a ser por causa do correio. Não havia ao tempo estação dos
CTT e era ali pelas duas da tarde que a loja se enchia de gente para ouvir
cantar em voz alta os nomes nos endereços dos envelopes. Com o arranque da
guerra em África (não se podia dizer guerra) começaram a circular os
aerogramas e aumentaram muito os objectos postais em circulação.
Eu procurava cartas da minha mãe em Vila Franca de Xira sempre com bons
conselhos para me portar bem com a minha avó e o meu avô sem esquecer os
tios Joaquim e Rosa; Rosa a quem eu chamava tia velha com carinho. Ela
achava graça e incorporou essa alcunha quando se referia a ela mesma. Muita
gente ia lá à loja só para saber quem tinha recebido carta.
A Maria Judite estava na loja do lado de dentro do balcão ao lado da mãe,
do pai e do Almerindo, o caixeiro que também jogava à bola no nosso
Catarinense embora fosse natural de Chãos de Baixo (Figueiró dos Vinhos)
tendo chegado ali com a experiência de trabalhar no Paião com um feirante
que batia os mercados todos naquela zona do País. Foi ele que trouxe por
500 escudos uma coreografia em papel vegetal do «vira dos moinhos» dos
Esticadinhos de Cantanhede. A Maria Judite estava lá quando mandaram chamar
o nosso ensaiador.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:35

Quinta-feira, 20.12.12

outra memória de santa catarina

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«O pedreiro cheira a cal / o carpinteiro a madeira…»
Nasci em Fevereiro de 1951, dois meses antes da Maria Judite, temos quase a
mesma idade mas eu fui para o Montijo em 1957 com toda a família e só nos
reencontrámos no ano lectivo de 1960/1961. Eu vinha já com a ideia de fazer o
exame da terceira classe em Abril e, pouco depois, o exame da quarta classe em
Julho de 1961. Ambos na Delegação Escolar das Caldas da Rainha. Tenho uma
memória dos nossos números : julgo que éramos 8 alunos (3 rapazes e 5
raparigas) no exame da quarta classe porque o exame da terceira classe foi só
para mim que andava um ano atrasado por causa de uma birra da Delegação Escolar
do Montijo. Adiante.
Do que me lembro bem é das cantigas das alunas da escola de Santa Catarina no
seu recreio. A professora dos rapazes era a D. Mafalda, da professora das
raparigas não recordo o nome. Uma das canções de roda era assim: «O pedreiro
cheira a cal / o carpinteiro a madeira / cada qual com seu ofício / eu também
sou lavadeira. / Eu também sou lavadeira / lavo no Rio Jordão / Lavo saias,
entremeios / também lavo o meu calção!» (Nota para a gente nova: o entremeio é
uma espécie de renda ou tira bordada para roupa branca. Se por roupa branca se
entender saiote são capazes de ficar na mesma. Não sabem nem fazem ideia do que
possa ser.)
Entretanto o tempo passou e fui para Vila Franca de Xira estudar de 1961 a 1966
e logo a seguir trabalhar para Lisboa. Só mais tarde, já colaborador do
«Despertar», vim a saber pelo senhor Vidal do CEBI que, em Alverca do Ribatejo,
a Maria Judite chorou quando a quiseram tirar dos bebés pequeninos pensando que
a estavam a promover ao levá-la para os maiores. Foi pelas nossas mães que
fomos sempre amigos: em 1951 era de 11 anos (33-22) a diferença entre as duas
mas esse intervalo de idades só serviu para as aproximar ainda mais.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:32

Quinta-feira, 20.12.12

uma memória de santa catarina anos 60

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Os nossos jogadores saíam equipados da taberna
Em Santa Catarina, ao domingo à tarde, as mulheres não lavavam roupa no Rio da
Pedra. Havia os jogos de futebol e a bola podia sujar as roupas ao sol a corar.
Maria Judite assistia do lado de cima da loja (mercearia e fazendas) à confusão
organizada do lado de baixo (taberna) onde os rapazes do Grupo Desportivo
Catarinense se fardavam para o jogo. Às vezes era complicado arranjar os onze e
por isso o desafio começava mais tarde. A táctica era desenhada numa folha de
papel pardo em cima do balcão e as quatro camisolas mais complicadas de
atribuir eram sempre as mesmas – 4, 6, 8 e 10. O chamado quadrado mágico.

O Almerindo era sempre o último a sair. Entregava a chave da porta à Maria
Judite para a dar à mãe, a menina Judite, sempre menina, ao contrário do pai, o
Ernesto, sempre senhor Ernesto. Os jogadores desciam por uma rua estreita entre
a igreja paroquial e as casas do Silvino onde houve o primeiro café da nossa
terra com o Garcia ao balcão e a televisão a preto e branco. Para ver o jogo, o
lugar mais disputado era a ponte sobre o Rio da Pedra porque as pessoas podiam
ver tudo o que se passava no campo, debruçadas e apoiadas no cimento da ponte.

O campo não tinha cabinas. Os jogadores, depois do aquecimento, entravam de
novo em campo a partir do canto mais perto da ponte. Hoje, no lugar do campo
não existe nada, fizeram lá um pomar que não deu nada mas a memória ninguém a
pode arrasar. E continua.
No fim do jogo o Almerindo vem todo suado e com um joelho em sangue pedir a
chave da taberna à Maria Judite que está num grupo de meninas ao lado da casa
do Zé Rebelo. A menina Judite e o senhor Ernesto estão a conversar com a minha
avó e o meu avô Zé Almeida. Quando eu nasci foi a menina Judite que me deu a
primeira prenda: um cobertor azul.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:29

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