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Transporte Sentimental



Domingo, 30.09.12

um melro e uma gaivota juntos no Pulo do Lobo

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Um livro por semana 297
«O segredo dos Pássaros» de Vítor Serpa
Depois de «Salão Portugal (2008) e «Tanta gente em mim» (2010), Vítor Serpa
(n. 1951) surge com este romance cujas personagens vivem o tempo da Guerra
de 1939/1945. Jane Holmes (1914-1945), enfermeira num Hospital de Londres
vive o luto do pai («No dia em que se suicidou o meu pai saiu cedo para o
porto») mas não a morte de Michael: «O meu irmão Michael é o único morto
que não morreu». Foi no Hospital que o tenente Edgar (homónimo de Edgar
Allan Poe) se apaixona por Jane ao som dos versos do poema The Raven, aqui
traduzido por Fenando Pessoa. O casal vem para a Mina de S. Domingos fugido
da guerra mas não encontra paz, chega a um país inquieto: «São boçais,
acreditam em bruxas, metem-se em mexericos. Vivem sem esperança e têm
poucos ou nenhuns objectivos na vida. Os homens bebem, as mulheres parem
filhos. Comem uma ou duas sardinhas no pão e bebem vinho».
Num lugar de fronteira entre Portugal e Espanha reflectem-se os vários
círculos e os seus conflitos. De um lado a neutralidade activa (Salazar, a
PVDE, a GNR, o Conde), do outro a comunidade inglesa (Tyrel Shervington,
Leslie Howard e o embaixador Campbell) ou ainda o sentido da transgressão à
ordem: D. Ana, Paco, Claudino, Manuel da Luzia. Depois do suicídio de
Edgar, Jane procura aliciar António Valentim (1910-1945) para a levar a
Cádis, terra da sua mãe espanhola. Toda a narrativa é uma carta e, na carta
a Michael, Jane escreve: «Não sei o que me levou a envolver-me com este
homem num amor transgressor dos meus próprios princípios. Ele é o meu pilar
de resistência naquela terra onde nada acontece». Já em Espanha são ambos
mortos: «António terá sido alvo de uma cilada por razões que se prendem com
a sua intromissão numa perigosíssima rede de tráfico infantil». Mas depois
da História fica a Lenda: «Muitas pessoas da região da Mina têm dado conta
da surpresa de verem um melro e uma gaivota juntos na zona do Pulo do
Lobo.»
(Editora: Clube do Autor, Capa: António Belchior)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 15:31

Sexta-feira, 28.09.12

alvaro carvalheiro e rosa dias em «toadas alentejanas»

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O pão e o amor
em "Toadas Alentejanas" de Rosa Dias

Em Beringel, apenas em Beringel, cantou-se na igreja durante muito tempo na
liturgia dominical, por alturas do ofertório, uma toada tipicamente alentejana
cujo texto passo a transcrever: "Somos da terra do pão / Pedimos Teu Pão,
Senhor / Trazemos no coração / A fome do Teu Amor". Hoje graças à divulgação em
CD e em cassete desses belíssimos "Cânticos Alentejanos" do Coro do Carmo de
Beja sob a direcção artística do Padre António Cartageno e editados pelo
Instituto Missionário Filhas de São Paulo, este e outros cânticos são repetidos
todos ao domingos (ou todos os sábados à noite) em muitas igrejas e capelas de
muitos lugares do Alto e do Baixo Alentejo.

O livro "Toadas Alentejanas" de Rosa Dias organiza-se, tal como este cântico
litúrgico do ofertório, entre o pão e o amor. Porque - e não tenhamos dúvidas -
a Poesia é sempre o lugar onde se ouve a voz do Homem e a voz da Terra. E isto
seja homem ou mulher o autor que arrisca e se arrisca nesse cântico que todo o
poema é. Somos de uma civilização cuja base é a terra e o pão; nada de profundo
temos a ver com o arroz e a água. Foi pelo pão e pela terra (de onde nasce o
pão) que na nossa civilização as lutas entre povos se travaram e as fronteiras
dos países foram sendo alteradas ao longo do tempo. Rosa Dias canta o pão no
poema "Homem do campo": "Nasceste Alentejano / Tens por sina a escravidão / És
parte da terra seca / Onde semeias o pão / Diz o mundo à boca cheia / Que és
homem sem valer nada / Que não conheces uma letra / Do tamanho de uma enxada /
O culto pega a caneta / Pouco sai do seu escrever / O inculto pega o arado /
Faz a terra dar comer".

Mas também canta o amor no poema "Vida barata": "Nestes tempos mais modernos /
Vive bem quem viveu mal / Mas não perdeu a memória / Do que passou afinal / Um
fio de azeite rançoso / Para um punhado de feijões / Com um marrocate duro /
Era a janta dos ganhões / Foi assim vida de pobre / Há trinta anos atrás / Era
pobreza eu bem sei / Mas era gente de paz / Nesses tempos não o nego / Houve
miséria eu que o diga / O pão no saco era pouco / Para consolar a barriga / Mas
hoje a miséria é na alma / Homens sofrendo de dor / Morrem como trapos velhos /
Vivem carentes de amor."

Ora entre o pão e o amor não existe uma terra de ninguém. Pelo contrário - é
esse o lugar do poema e do poeta. Rosa Dias (ela-mesma) e a sua voz poética
(simples mas não simplista, simples mas não simplória, simples mas não
simplificadora) escolhem e habitam o lugar entre o pão e o amor - o mesmo é
dizer entre a paisagem e o povoamento de um lugar determinado. Rosa Dias habita
o lugar e ergue a voz para dizer: "Fui menina e rapariga / Fui mulher e hoje
sou mãe / Minha vida foi uma briga / Para chegar onde cheguei / Como estudos
tive pouco / Falta de oportunidade / Sou fruto dum mundo louco / E desta louca
sociedade / Sei um pouco de enfermeira / De electricista já fiz / Até já fui
caiadeira / E de alfaiate aprendiz / Ainda vou a meio da vida / E tudo isto eu
vivi / Vejo minha alma sofrida / A chorar o que perdi / Não fui porque ninguém
viu / A força que eu tinha em ser / Fui simplesmente o pavio / Que ninguém quis
acender".

É vulgar dizer-se para simplificar (todas as fórmulas são mistificadoras) que
só existe poesia quando há um drama vivido por alguém mas, quanto a mim, isso
não chega. Basta ir a um cemitério para perceber que isso não é verdade: as
quadras toscas, as lágrimas passadas a limpo para a pedra não passam de um
simples e modesto testemunho. Não são poesia nem andam lá perto. Poesia é outra
coisa. Poesia é quanto a mim a voz do poeta à procura da voz da terra, da voz
do tempo, do espírito do lugar. Procura e encontra. Escreve e proclama. E, no
caso de Rosa Dias, nem precisa de escrever em Campo Maior para escrever o
Alentejo. Basta escrever em Lisboa desde que o faça com a terra trazida na
memória e no afecto que nela são já uma segunda pele. Uma segunda natureza.
Dito de outra maneira: ao incorporar no seu discurso um tempo autobiográfico
("Fiz apenas quarta classe / Estudar mais não pôde ser / Segui por estreito
caminho / Que me ensinou a viver") Rosa Dias não se refere apenas ao seu
percurso mas eleva do chão do esquecimento as palavras de todos os que, perto
de si, não podem ou não sabem usar as palavras. Há muita gente dentro dos seus
poemas. São poemas povoados. Há todo um tempo português (anos cinquenta,
sessenta, setenta) que estes poemas revisitam e, como num coro grego,
implacável e acusativo, estamos todos lá. Todos mesmo os que fingem que não.
Esses até estão logo na primeira fila.

Para terminar vejo em "Toadas Alentejanas" um percurso poético pessoal na sua
organização e verdade interior mas, ao mesmo tempo, há toda uma geração de
gente cujos sonhos foram esmagados no Portugal dos Pequeninos e que se junta em
surdina ao testemunho poético da autora. Eu próprio também estou lá porque
também ouvi dizer no ano de 1959, em voz baixa, estas palavras arrepiantes - "
Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu". Para terminar. Este livro é
para ler urgentemente. Nenhuma apresentação nem nenhum prefácio pode substituir
a leitura de um livro e o seu usufruto pleno. Deixei nesta leitura pessoal
apenas algumas pistas a partir da ideia de que os poemas deste livro se
deslocam entre a Terra e a Céu - o mesmo é dizer entre o Pão e o Amor. O mesmo
amor que os desconhecidos cantores de Beringel cantavam, na liturgia semanal,
aos sábados à noite e aos domingos. O mesmo amor que Rosa Dias consegue
decantar no meio da enorme revolta que não cala nem esquece quando, num dos
seus poemas, recorda e afirma: "E assim o tempo dos sonhos / Ao lado de mim
passava / Só por ter nascido pobre / Fui menina e não sonhava."
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por José do Carmo Francisco às 19:07

Quinta-feira, 27.09.12

Hei-de usar fato de ganga e fumar «superior»

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Ainda a propósito de «Alguns contos» de Carlos Pato

A nota de leitura aqui posta «on line» não diz tudo sobre o livro de contos
agora reeditado de Carlos Pato. No conto «Graxas» há uma referência a uma marca
de tabaco da qual pouca gente se lembra - «Superior». Descobri a imagem num
livro de Filomena Mónica e apresso-me a imprimir para que quem não sabe fique a
perceber. No «glossário» que fiz para o livro que entreguei a Clara Pato há
meses lá consta na página 69 «superior» - marca de tabaco» mas uma coisa é ler
o glossário e outra é ver a foto do pacote de tabaco. Aí está. Já agora na
página 35 linha 17 é bem «valadores» e não «valores» - basta ver que o conto se
intitula «Valados». JCF
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por José do Carmo Francisco às 15:25

Quarta-feira, 26.09.12

baraço, pregão, açoites e mão cortada

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Vinte Linhas 829
Miguel Sousa Tavares sobre Cristiano Ronaldo – a cutilada no rosto
No século XIX, quando um sujeito dava uma cutilada no rosto de alguém, o
castigo era exemplar: baraço, pregão, açoites e mão cortada. Hoje não é
assim. Li no jornal A BOLA de 25-9-2012 um artigo de Miguel Sousa Tavares
onde mais uma vez Cristiano Ronaldo é atacado com uma cutilada no rosto.
Cheio de inveja porque no FCP não há nada parecido e, numa equipa que é
apenas uma placa giratória de jogadores e uma selecção «B» da América do
Sul, o único jogador português de categoria (João Moutinho) é originário do
SCP, MST ataca CR em três frentes: o troféu europeu, um artigo de um
jornalista inglês e uma opinião sua. Quanto ao troféu europeu do melhor
jogador do ano, MST não percebe que a organização não queria premiar CR,
não podia premiar Messi e, então, lá inventou um pobre diabo para receber o
prémio em gesto politicamente correcto. Já nos anos 60 Masopust dizia que
estas votações eram uma aldrabice cínica. O artigo do inglês saiu no
Público e diz mais ou menos isto: «Messi vê a sua equipa e o adversário, CR
só vê o adversário». Não passa de uma opinião. Da sua lavra MST escreve
que CR precisa de alguém que lhe diga que ele não é Deus. Ora bolas…
Do que eu conheço e conheço alguma coisa (fui redactor do jornal Sporting
de 1988 a 2006) o CR é bem oposto a Deus e, ao contrário do que julga MST,
é humano em todas as situações. Na época desportiva de 1997-1998, CR foi
campeão Distrital de Infantis (acabou o Nacional) e marcou 37 golos em 23
jogos mas nunca foi vaidoso e tinha razões para isso. CR não merece sofrer
esta agressividade de MST só porque não é, nem nunca foi, do FCP. Parece o
que MST escreve contra os professores, ele que nunca ia às reuniões de pais
no Liceu Passos Manuel. A sua filha mais velha é da idade da minha, eram da
mesma turma mas nuca lá o vimos.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 07:58

Terça-feira, 25.09.12

este é o quadro que falhou no envio anterior

Juliane e la flor azul.JPG


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por José do Carmo Francisco às 13:07

Terça-feira, 25.09.12

no olhar de Marta entre as duas memórias

Vinte Linhas 828
Meditação sobre um rosto num quadro de Jorge Valdívia Carrasco
Todas as manhãs, uma nova luz dá ao horizonte do olhar de Marta uma galeria de
cores, de vozes e de rostos. À esquerda o azul do Oceano Atlântico; à direita o
verde da colina de Monsanto. Ao nível da superfície do asfalto negro fica a
pressa da cidade, sua febre de velocidade, seu usufruto de breves momentos.
Hoje, como todos os dias, o olhar de Marta projecta-se nas paredes brancas da
Galeria. Alguém que chega do outro lado do Mundo (Peru) mostra até 29 de
Setembro na Cidadela de Cascais uma série de quadros onde o presente se cruza
com o passado e onde a beleza das mulheres entra em diálogo com os peixes, as
aves, os répteis e os outros animais. Jorge Valdívia Carrasco organiza os seus
quadros na oposição entre dois tempos: o de hoje e o de ontem, a vida activa e
o silêncio do Museu, a perfeição clássica e o rumor do movimento. Ou, por
exemplo, das palavras. Em Cascais não se diz autocarro, medicamento, funeral ou
rotunda mas sim camioneta, remédio, enterro e redondel. Tudo é diferente porque
e quando é dito de outra maneira.
A pintura na Cidadela vem instalar um diálogo entre duas memórias: a do passado
e a do momento presente. A primeira é a memória consolidada nas paredes do
Museu e nas páginas dos livros de História. A segunda é a memória em instalação
das vozes e das cores, do sorriso e da amargura, do momento e da sua suspensão.
Entre as duas memórias, no olhar de Marta cria-se um novo lugar e um novo
tempo. No rectângulo da secretária, no écran do computador e no toque do
telefone o seu olhar permanece entre a febril ansiedade do asfalto e a paz
provisória do sossego da parede branca da Galeria. Arte e Vida, Natureza e
Cultura, lado a lado no mundo de Marta, no seu olhar luminoso e quente porque
húmido de ternura.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 12:45

Sábado, 22.09.12

o cenário é inventado mas os conflitos são verdade

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Um livro por semana 296
«O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel» de Mário de Carvalho
Este é o 24º título de Mário de Carvalho (n. 1944) que se estreou em 1981
com «Contos da Sétima Esfera» e tem publicado em diversas áreas: romance,
conto, novela, teatro e infanto-juvenil. O volume integra duas novelas de
diferente respiração: «O Varandim» tem 72 páginas e «Ocaso em Carvangel»
ocupa 136. Trata-se do seu primeiro título nesta Editora.
Em «O Varandim» há uma cidade bela e acidentada, Svidânia, onde a moeda
corrente se chama tálere e o grupo de anarquistas («são homens como os
outros») é condenado à forca ficando a cidade cheia de «tropa, jornalistas,
vivandeiras e outros forasteiros». A geografia do grão-ducado refere o Lago
de Läusig mas, se o cenário é inventado, os conflitos são verdadeiros e
«acontecimentos raros e extraordinários são propícios à reflexão». Zoltan
aluga o varandim para ganhar dinheiro com a morte dos anarquistas mas o seu
prémio vai ser a destruição da casa e a morte dos filhos pois os barris de
cimento eram, afinal, de pólvora.
Em «Ocaso em Carvangel» temos de novo uma metáfora dos tempos actuais
embora as personagens vivem um tempo antigo: «O porto era ruim, a cidade
periférica, o comprimento do istmo desanimador, a maçada das viagens
devastadora». Há uma cidade na qual os habitantes esperam a chegada de um
navio com o nome de «Maria Speranza» e mesmo sem perceber se existe um
grão-ducado ou um reino, todos os dias se enfrentam a vida e a morte, o
amor e o ódio, o poder e a solidão, o bem e o mal. Nas duas histórias bem
urdidas e com muita moral dentro não falta o humor de Mário de Carvalho
– aqui Merkel é nome de um sargento.
(Editora: Porto Editora, Capa: Elisabete Gomes)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 00:07

Quinta-feira, 20.09.12

barcelona: mesmo quando vencem nunca convencem

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Vinte Linhas 827
Cristiano Ronaldo, José Mourinho e os fotógrafos de Estaline
Fui jornalista no futebol de 1988 a 2006. Li ontem que José Mourinho instaurou,
através dos seus advogados, um processo em tribunal contra o chefe de redacção
dum jornal espanhol que o definiu como «alguém que se porá em fuga depois de
causar um acidente rodoviário». Não critica opções tácticas e tenta ofender a
pessoa. Ao mesmo tempo, um palerma que já foi director do Barcelona, escreveu
no seu Facebook que Mourinho celebrou o golo de Ronaldo como um «psicopata».
Depois da não atribuição do troféu do melhor jogador europeu do ano ao jovem
português em benefício de um vulgar jogador do Barcelona, num eterno problema
de «politicamente correcto», surge este crescendo de agressividade contra José
Mourinho e Cristiano Ronaldo. Esta raiva tem raízes. Ainda há pouco tempo os de
Barcelona proibiram o Inter de festejar a sua vitória em Camp Nou e ligaram o
sistema de rega do estádio. Ainda há pouco tempo soube que eles apagaram o nome
de Luís Figo dos seus registos e do Museu tal qual os fotógrafos de Estaline
que apagavam as figuras políticas caídas em desgraça perante o chefe. Eles
mesmo quando vencem nunca convencem. Eles apresentam um futebol que ao 25º
passe já faz dormir. Eles bem podem garantir que a Espanha é o Barça sem Messi
mas não podem obrigar ninguém a gostar do seu estilo. Quando a selecção
espanhola ganha jogos e torneios europeus e mundiais «por um a zero» nada de
novo acrescenta a quem como eu gosta de futebol e por lá andou de 1988 a 2006.
Eles são fundamentalistas e eu não gosto disso. Seja no futebol seja noutro
aspecto de vida. Bem podem gritar que são os maiores, ligar o sistema de rega
quando perdem ou apagar os nomes no Museu. Para mim não passam de um bando de
fundamentalistas e mesmo quando vencem nunca convencem.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 22:53

Quarta-feira, 19.09.12

a rapariga de olhos fechados de Ana Cristina Dias

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Vinte Linhas 826
As máscaras de Ana Cristina Dias
Na exposição a inaugurar em 20 de Setembro pelas 19 horas na Galeria
Allarts no Chiado (Rua da Misericórdia, 30) o título é «(des)mascarar» mas
em «A rapariga de olhos fechados e a árvore» não há máscaras. Mas há
símbolos. Uma tripla inscrição está contida nos ramos de oliveira –
glória, paz e fecundidade. A luz do azeite dorme nas tarefas do lagar.
Longe da Cidade, serviu durante muito tempo apenas para acender as pequenas
luzes das lamparinas das cozinhas do Campo. Também a rapariga dorme de
olhos fechados por debaixo da oliveira como se o seu sono estivesse à
espera do som do búzio a acordar o rancho de azeitoneiros que se levanta de
madrugada. Tenho na memória o caminho dos carros de bois na estrada entre
dois lagares de azeite – seu demorado fabrico, suas brasas para a
água quente das seiras de esparto, suas vagonetes escuras entre as galgas
do lagar e a prensa hidráulica.
A rapariga dorme ou sonha. Não sabemos. Seus olhos fechados suscitam um
mapa de perguntas, uma geografia de interrogações, um feixe de
curiosidades. Sabemos apenas que repousa no canto de uma casa que fica à
beira do campo. Por isso a árvore lhe faz sombra com o ramo de oliveira
sobre o rosto. Por isso a terra se insinua a seguir ao muro como um convite
à sementeira e uma promessa de colheita. A rapariga dorme ou sonha. Seu
rosto reflecte a força da paz naquele momento mas, quem sabe?, talvez o seu
olhar fechado esconda a glória da fecundidade. E assim, tal como a terra
depois da chuva, é possível que haja mo seu corpo um novo corpo em projecto
que uma ecografia pode desvendar. Afinal é a sucessão de gerações que nos
salva do escuro, da dor e do vazio. É a esse pavor sem nome que a
fecundidade responde como afirmação da força da vida contra as emboscadas
da morte.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 15:34

Quarta-feira, 19.09.12

Cristiano Ronaldo entre a alegria e a amargura

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Vinte Linhas 825
Cristiano Ronaldo – entre a alegria e a amargura
Como redactor do jornal «Sporting» convivi desde 1997 a 2003 com o
Cristiano Ronaldo. Estive perto dele em momentos felizes e em situações
complicadas. Acompanhei a sua vinda para o Lar do Jogador por decisão de
Aurélio Pereira que influenciou o «vice» Simões de Almeida a receber o
jovem jogador em vez de 10 mil contos devidos pelo Nacional da Madeira.
Estive ao lado de Paulo Cardoso e Leonel Pontes no Lar do Sporting sempre
com a presença efectiva (e afectiva) de Isabel Trigo de Mira. Uma vez em
Coimbra fiquei a conversar com ele no fim de um jogo de Iniciados e,
perante o gelo no tornozelo ao lado da minha revolta pelo pelado, ouvi este
desabafo: «Na Madeira temos que jogar onde nos mandam!» Mais tarde, em Pina
Manique, foi a perspicácia de um árbitro (António Cardoso) e a competência
de um enfermeiro (Fontinha) que evitaram males maiores perante uma grave
taquicardia do jovem madeirense. Muitas vezes nos Domingos à noite
telefonou o Cristiano Ronaldo para casa do treinador Leonel Pontes
(madeirense também) a pedir que o fosse buscar à Portela. Este, já pronto
para se deitar, lá ia debaixo de chuva e de frio, buscar o menino e lavá-lo
ao Lar do Jogador. Uma vez em Sarilhos Pequenos, jogava o Sporting em campo
emprestado por não ter ainda prontos os relvados de Barroca de Alva, Paulo
Cardoso deu um grito que todo o campo ouviu mas só o Cristiano Ronaldo
compreendeu. As bancadas estavam cheias mas só ele percebeu porque
reconheceu a voz e a adversativa dita em voz alta. Afinal foi Paulo Cardoso
que, com Osvaldo Silva, assinou o documento com o parecer técnico de
aceitação do jovem madeirense. Ontem à noite perante a alegria do golo no
último minuto, tudo foi mais que alegria, foi júbilo, aqui no meu cantinho
como penso que foi nos cantinhos de todos estes vários amigos «leoninos».
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 09:54

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