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Transporte Sentimental



Terça-feira, 31.07.12

Primula integrifolia

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Vinte Linhas 806
Saudação grata dos compadres a Joan Sutherland
Muito obrigados pela sua oferta. Os seus compadres de Lisboa registam por
escrito e por extenso a sua generosidade. A aguarela por si assinada em tons de
verde e lilás, com o título de «Primula integrifolia», veio encher de luz e de
beleza o nosso corredor na casa de Lisboa. Tomás e Lucas, nossos netos comuns,
vão poder saber, no intervalo das correrias do primeiro e dos passos tímidos do
segundo, que esta flor foi pintada em aguarela pela avó de York, quase vizinha
das margens do rio Ouse. Já o casamento dos nossos filhos Ana e Ian foi
celebrado em Helmsley com poemas de Natália Correia e música de Eric Satie mas
perante um horizonte de grandes prados verdes, graças à chuva de Abril.
É sempre Abril no seu jardim atrás da casa, espécie de reserva de vida rural
que parece saída de uma aguarela de Birket Foster, Francis Towne, Thomas Lound
ou Samuel Palmer. As montanhas e os veados, os rios e os lagos, os moínhos e os
barcos, as sementeiras e as colheitas, as pedras e os artistas, as viagens e os
cemitérios, as casas e os homens comuns – tudo isso está bem presente na
flor pintada da sua aguarela. É um mundo rural onde tudo é menos veloz do que
na cidade e onde a chuva parece bater menos pois a terra já aguarda a chegada
dos seus pingos sincopados. E a noite cobre de sono, medo e silêncio, essa
aliança forte de água e de terra de onde irá nascer uma nova flor, passadas
poucas semanas.
Uma nova flor como as suas aguarelas, caríssima comadre Joan Suthertland, que
multiplicam a beleza do seu jardim da casa de York, muito perto das margens do
Rio Ouse. Lugar onde, segundo ainda hoje se diz nos arredores, resta neste ano
de 2012 um pouco do que foi o nosso primeiro paraíso perdido.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 17:02

Sexta-feira, 27.07.12

Fica tudo no mesmo Royal Park

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Vinte Linhas 805
O outro Magalhães no Museu de Greenwich (s/foto de Dennis Gilbert)
Visito regularmente em turismo a cidade de Londres desde 1976 e já fui a
Greenwich várias vezes mas nunca tinha reparado num erro tão crasso. O nome de
Fernão de Magalhães aparece como Ferdinand Magellan no Museu Naval. Os nomes
não se podem traduzir – todos o sabemos mas, pelos vistos, o pessoal do
Museu de Greenwich sabe menos do que todos os outros. Procurei no clássico
«Pocket Famous People» da Penguin Books e lá está o mesmo erro no nome embora
as datas de nascimento e morte estejam certas – 1480/1521. O também
clássico Merriam Webster New Collegiate Dictionary de 1963 refere Ferdinand
Magellan mas em itálico chama-lhe «Port. navigator» e escreve logo a seguir no
verbete o seu nome correcto como «Fernão de Magalhães».
Em termos gerais os ingleses continuam a pensar que são o centro de um Império,
que mandam no Mundo, que podem dar nomes diferentes às pessoas e às coisas. Mas
não. Esse tempo já passou. Ainda agora a troca de bandeiras das duas Coreias
surge como um exemplo claro de como uns Jogos Olímpicos super organizados por
um Comité Olímpico super moderno pode ter falhas como a troca de uma bandeira
de um país. Alguém «não sabia» que há duas Coreias e esse alguém no Comité
Olímpico devia «saber». A cultura geral faz muita falta embora, pelo contrário,
muita gente pense que não.
Em Greenwich no Museu Naval trocam os dois nomes de Fernão de Magalhães
chamando-lhe Ferdinand Magellan. Ignorância ou má-fé; não sabemos mas o
resultado é o mesmo. Houve um erro e esse erro reflecte uma atitude de desprezo
para com o outro – no sentido total dessa palavra às vezes tão estranha -
«outro».
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 10:06

Quinta-feira, 26.07.12

No olhar de Becky

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Vinte Linhas 804
Canção das amas de Blackheath Park (sobre pastel de Fiona Bell Currie)
No olhar de Becky há uma serena angústia. O ramo de flores oferecido hoje a
uma ama que vai para a Nova Zelândia é também um ramo de lágrimas. Haverá
menos uma voz a cantar as antigas canções de embalar e menos duas mãos para
bater palmas. Haverá menos uma voluntária a preparar o chá e os biscoitos
para as amas e outros familiares das crianças. Depois de arrumados os
brinquedos em grandes caixas, depois de colocadas as cadeiras em vertical,
no espaço disponível da antiga capela, todas formam um «U» para as canções
e para as flores de despedida. No olhar de Becky há uma amargura prolongada
porque um dia a criança que foi criada com tanto sacrifício, paciência e
esforço, vai crescer e partir. Não para a Nova Zelândia como esta ama que
hoje se despede mas para o Mundo dos adultos. Primeiro a escola secundária
com os polícias à porta dos autocarros, depois um dos três ramos das Forças
Armadas e, quem sabe, a morte em qualquer lugar do Afeganistão ou do
Iraque. No olhar de Becky há uma tristeza magoada porque o tempo voa e a
criança depressa deixa de ser bebé, de ser dependente, de chorar sem
explicação óbvia. Becky sabe que, de um momento para o outro, a força da
juventude empurra a fragilidade da criança para o passado, para o escuro de
uma divisão onde não se entra mais na casa do tempo. Ao fim de seis anos a
criança parte para outra vida, para outra escola, para outra cidade. Depois
para quem não tem filhos ainda é pior; os sentimentos acumulados são uma
barragem de ternura. Por isso o olhar não engana e a serena amargura de
Becky ajuda a explicar o esplendor do momento, o gesto de ternura, o beijo
húmido que transporta a memória dum amor sem fim mesmo que termine dentro
de quatro anos. Cada abraço é o princípio de uma despedida, o desenho de
uma lágrima.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 19:57

Quarta-feira, 25.07.12

Romarias e Livros

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Três ideias num conceito: peregrinação, jornada e festa
Quando uma multidão ou um simples grupo de pessoas se dirige num dia certo
do ano a um lugar sagrado, faz essa viagem por etapas e, depois de andar em
volta do santuário, se diverte entre sol e pó num arraial, podemos dizer
que temos então uma romaria.
No livro «Júlio César Machado no Oeste» organizado por Vítor Wladimiro
Ferreira (edição Museu Municipal do Bombarral) surgem as Festa das Nazaré
que são afinal no Sítio, lugar onde aconteceu o milagre de D. Fuas
Roupinho. O texto é de 1861: «Já lá vêm cobrindo a estrada, os círios uns
após outros! Deixemo-lo entrar, o grande Círio da Prata Grande! Depois dele
virá o das Caldas e, depois do das Caldas, chegará à noite o de Óbidos,
descendo brilhantemente as serranias da Pederneira e alumiando a Nazaré ao
clarão dos seus archotes! A romaria desfilava pela praça e girava três
vezes em roda da igreja. A música rompia a marcha e os anjos encetavam o
cortejo. São três crianças de calção de meia, manta bordada e gorro de
paladino que se aguentam em cima dos seus cavalos e guardam os pés em
enormes estribos de pau. O povo ajoelha, escuta e aplaude. É fabuloso o
número de criaturas que se arrastam de joelhos pela praça! Pelo adro! Pela
igreja!»
No livro «Senhor Santo Cristo dos Milagres» de Paula Simões (edição ELO) as
fotos de Carlos Garcia registam a romaria que tem lugar em Ponta Delgada
todos os anos, cinco semanas após a Páscoa. Iniciada em 11 de Abril de 1700
depois de diversos abalos sísmicos na ilha de São Miguel, a procissão com a
imagem do Senhor Santo Cristo sai do Convento da Esperança , contorna o
Campo de São Francisco, cruza as Porta das Cidade, passa ruas e largos até
se recolher na igreja de São José onde aguarda a celebração da missa no
domingo a seguir. O som das filarmónicas sela a emoção das promessas que
ligam dois mundos: o do Céu e o da Terra.
O livro «Feiras Mercados e Romarias em Portugal através do Bilhete Postal
Ilustrado» (edição ECOSOLUÇÔES) corresponde a uma exposição do Museu da
República e da Resistência, organizada por João Mário Mascarenhas e
comissariada por Pero Barbosa. De Melgaço a Tavira, de Espinho a Elvas, da
Ericeira a Castelo Branco, os postais ilustrados provam como é forte a
relação entre o fenómeno religioso e a feira: «É aqui que mais genuinamente
se mistura o profano e o sagrado na simplicidade da alma e cultura
populares, onde o cheiro da maçã camoesa se confunde com o odor dos círios
prometidos em hora de má sorte (…) A meio da tarde sai a procissão.
Por um percurso que tem a extensão dos séculos, regressando ao altar. E a
restante celebração é festa e arraial, onde as vozes das gentes se apagam
no estralejar dos foguetes e morteiros, no afagar discreto dos corpos ao
ritmo da banda que abafa os gritos da euforia e as lamentações
espontâneas.»
No livro «Um olhar português» (edição Círculo de Leitores) com fotos de
Jorge Barros se incluem diversos textos de vários escritores portugueses:
João de Melo, Viale Moutinho, Lídia Jorge, Al Berto, Mário Ventura, José
Cardos Pires, Hélia Correia, Eugénio de Andrade, Fernando Dacosta, Mário
Cláudio, Francisco José Viegas e Regina Louro. Fernando Assis Pacheco
(1937-1995) assina um texto sobre a romaria de Agosto no Senhor da Serra:
«Às dez da manhã de um dia de Abril de 1991, levado a passeio por
Felisberto Lemos, o amigo livreiro e preclaro cidadão de Coimbra, subi ao
lugar de Vendas de Ceira para o Senhor da Serra com a esperança de que lá
no alto fosse tudo como eu imaginava: uma igreja camponesa, um largo com um
café e um mirante, cães abanando o rabo, solícitos, bons compadres; a um
canto a carreira, acabada de chegar.» Depois de uma passagem pela casa que
foi de João José Cochofel onde outro poeta o visitava (José Gomes
Ferreira), o poeta e jornalista Fernando Assis Pacheco prossegue: «O
bloco-notas garante que na cercadura da igreja, aliás santuário –
sejamos rigorosos com a História – estão cinco bancos de pedra, todos
eles e cada qual de um com o seu santo episódio descrito em azulejaria:
Milagre que fez o Senhor da Serra a Miguel Maria Antunes no ano de
1852…Que fez a Manoel dos Santos, o Velho no lugar do Zambujal, no
ano de 1850… A Manoel Martins, do lugar de Rojela, no ano de 1837.»
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por José do Carmo Francisco às 23:09

Quarta-feira, 25.07.12

sexto envio para o Blog

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Vinte Linhas 802
Pequena canção para o nome de Marta
O teu nome foi omitido na legenda de uma fotografia de grupo. A data é de 1992
mas, vinte anos depois, o teu nome foi esquecido como se estivesses fora da
fotografia mas estavas dentro e permaneces. Uma septicémia no Hospital de Santa
Maria em Lisboa tentou vencer a corrida contra a tua vida em nome da morte mas
a Sombra de Deus, no último instante, não deixou que a vitória pendesse para a
equipa da escuridão mais negra. Venceu a luz.
A vida venceu a morte e tiveste umas férias diferentes na Ilha de São Miguel:
em Ponta Delgada o teu sorriso tímido e indeciso cruzou-se com o olhar profundo
e magoado do Senhor Santo Cristo mas essa tua alegria era compartilhada por
cinco. Todos nós contigo.
Uma semana antes do carro alugado na Ilha Verde tu andavas numa cadeira de
rodas nos corredores da Pediatria do Hospital de Santa Maria e eu dava-te a mão
direita naquelas tardes de dúvidas, ansiedade e lágrimas invisíveis ficando com
a mão esquerda para o Daniel – o menino a quem a mãe mentia todos os dias
quando saía a correr para ir trabalhar numa fábrica de malas mas dizendo que ia
à casa de banho.
Ninguém estava preparado para aquele sofrimento no ano de 1992 e ainda hoje
tudo me parece um filme onde eu não estou, uma canção triste, uma luz que se
apaga devagar. Vinte anos depois alguém apaga o teu nome na legenda de um
retrato de primos debaixo de uma latada numa aldeia da Beira Baixa. Quando
estiveste num casamento nos arredores de Paris onde a escumalha queimou todos
os automóveis de uma rua, ainda o teu nome não tinha sido apagado na legenda do
retrato dos primos.
A latada mais aproximada é o Príncipe Real nesta bela foto de José Pedro
Martins da REMAX.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 11:55

Quarta-feira, 25.07.12

quinto envio para Blog

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Vinte Linhas 801 Eduardo Ungar – a memória e a esperança ou o fervor de uma cidade Podia chamar-se «entre a esperança e a memória» a este conjunto de quadros. Eduardo Ungar (n. 1946) faz um inventário de cores e de luzes, uma sucessão de bares, cafés e pastelarias – onde se joga o bilhar, as cartas e se bebe até ao fim da noite. Noutros quadros regista ruas e avenidas, varandas e terraços, pátios e palanques com quatro músicos e uma cantora de tango. Sem esquecer as floristas e as paragens de autocarro, entre a teimosa alegria e o cinzento quotidiano. O que estes quadros revelam é um tempo de encontro – seja no baile, no jogo de cartas, no beijo ou no bilhar jogado na mesa verde. Entre a memória do passado e a esperança do futuro, está o fervor de uma cidade onde o tango pode ser também (como escreveu Jorge Luís Borges) «uma forma de caminhar». As acácias e os jacarandás das ruas desconhecidas e das praças de Buenos Aires, são contraponto da festa e da reunião dos homens e das mulheres que povoam estes quadros. Um certo mundo vegetal sorri ao mundo sentimental de quem pede uma chave, compra flores, recebe um beijo ou dança ao ar livre num clube de tango. Ou de quem passa ao longe a gritar as alegrias de uma vitória do seu Bairro – podem ser os Chacarita Juniors. Mas podem ser também os atentos jogadores de cartas quando os seus talismãs de cartolina criam mistérios em quatro homens num café da cidade, suspensos no «sete de ouros» e numa esperança teimosa que não se repete todos os dias. Entre corvos e pombas, na luz dos pátios de Buenos Aires, um grupo de homens e de mulheres dança para juntar nos seus passos a voz da cantora, o som do piano, as cordas do violão e as harmonias do bandoneon – tudo na convocação nocturna e feliz da mais elementar alegria. José do Carmo Francisco --

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por José do Carmo Francisco às 11:52

Quarta-feira, 25.07.12

quarto envio para o Blog

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Um livro por semana 291
«Contos completos» de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa (1888-1935) não é apenas o poeta dos heterónimos mas também o
prosador capaz de juntar nos seus textos narrativos doses certas de humor,
inteligência, absurdo e ironia. Não uma ironia qualquer: «Por ironia
entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o
dizer uma coisa para dizer o contrário».
Neste livro de 180 páginas, Zetho Cunha Gonçalves organizou um puzzle: «um
livro irreverente e indisciplinador, um hino à liberdade e um libelo contra
toda e qualquer forma de censura, de prepotência, de submissão e de
conformismo». Fernando Pessoa (que para José Régio não era um criador mas um
assimilador) coloca em 1926 a história do conto do vigário no Ribatejo apesar
de a mesma sempre ter sido referida como citadina e passada junto às estações
do Rossio ou S. Apolónia. E, depois de afirmar que «a literatura é uma
confissão de que a vida não basta», inventa um Banqueiro anarquista: «As
injustiças da Natureza, vá: não as podemos evitar. Agora as da sociedade e das
suas convenções – essas, por que não evitá-las?»
Nas fábulas breves F. P. surpreende sempre. Seja na referência a Roma («Cuidado
com as lágrimas, quando são estadistas os que as choram») seja em «Eu, o
doutor» («Na vida social somos o que os outros nos julgam») ou, de novo, na
política: «A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas
maneiras diferentes». Nos três contos de O. Henry, F.P. mostra-se um hábil
tradutor; vejamos o final de um conto: «Sr. Bridger, sou de Kentucky e tenho
visto muito em matéria de homens e de bichos. E ainda não vi um homem que
gostasse muito de cavalos e de cães que não fosse cruel para as mulheres».

(Editora: Antígona, Organização, prefácio e notas: Zetho Cunha Gonçalves,
Revisão: Conceição Candeias)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 11:47

Quinta-feira, 12.07.12

terceiro envio Blog

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Vinte Linhas 800
As bicicletas no ginásio e os ciclistas na estrada
De Ana Filipa a António Capela – pode ser este o título a ligar a prática
semanal à minha memória dos ciclistas na estrada. De um lado Ana Filipa que
ordena 15 minutos a pedalar num ginásio onde os diversos aparelhos são a
liturgia de um novo culto – um corpo mais perfeito sem toxinas e mais
elegante sem adiposidades. Do outro lado António Capela que no jornal Sporting
e na revista Flama publicou centenas de fotos a preto e branco dos ciclistas do
seu Clube. Leonel Miranda, João Roque, Joaquim Agostinho, Firmino Bernardino,
Emiliano Dionísio, José Amaro, Joaquim Carvalho, Manuel Correia – cada
nome é uma memória viva com Manuel Graça a sonhar vitórias no carro de apoio.
Eles saem da Alameda das Linhas de Torres, descem a Calçada de Carriche e lá
seguem por Loures em direcção às estradas do Oeste. Páram sempre no Gradil,
terra de ciclistas e de paixão pelo ciclismo.
Quando pedalo 15 minutos na minha bicicleta não saio do mesmo lugar e sonho com
outras paisagens. Nos olhos de Ana Filipa se projectam as neblinas da Ericeira,
a chuva da Encarnação, o fumo dos fornos do Barril, as vinhas verdes de Torres
Vedras. E os areais sem fim do meu Oeste com o puro iodo – na praia de
Santa Cruz há um poema nipónico traduzido pela nossa amiga Kioko. Nas minhas
manhãs de treino há uma memória que me conduz aos casais à beira da estrada
onde os cães ladram a avisar, onde as mulheres suspendem o gesto de estender
roupa e onde o fumo é indicador da vida a nascer todas as manhãs. Na Rua do Sol
ao Rato, na voz de Ana Filipa, estou a ouvir as cantigas das mulheres do Oeste,
nas suas tarefas repetidas mas sempre felizes. Por isso os ciclistas de António
Capela se voltam para os casais. A manhã do treino tem o usufruto da
contemplação da beleza quotidiana desta paisagem povoada.
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 22:06

Quinta-feira, 12.07.12

segundo envio Blog

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Um livro por semana 290
«A viagem do Tangomau» de Mário Beja Santos
São «Memórias da Guerra Colonial que não se apagam» e há, neste livro de 518
páginas, uma viagem entre dois mundos (Europa e África, guerra e paz) e entre
dois tempos: 1968 (Mafra, Ponta Delgada, Amadora) e 2010 (o território complexo
e o mosaico humano da Guiné). Presente em toda a viagem, a literatura acompanha
o militar como contraponto à realidade que o envolve: Ruy Belo, Sophia, Pedro
Tamen, Ruy Cinatti e Herberto Helder mas também Amândio César, Tomaz de
Figueiredo, Curzio Malaparte, Kafka e Saint-John Perse. Mais tarde lê Sartre,
Conan Doyle, Kerouac, Hemingway, Graham Greene, Steinbeck e Moravia.
Muito antes de descobrir que o aerogramas eram mentiras generalizadas já o
militar se debatia entre o juramento de bandeira («Juro ser fiel à minha Pátria
e estar pronto a lutar e a dar a vida por ela»)e a guerra de guerrilha: «É para
esmagar esta subversão que precisamos de atiradores hábeis». Percebeu que
descolonização era inevitável («o que estudara sobre a presença portuguesa em
África deixara-o desenganado quanto à chamada guerra justa») e nas aulas de
Mafra ouve «críticas ferocíssimas sobretudo quanto às mentiras ou lógica de
pechisbeque porque se defendia o Portugal Imperial, agora Ultramarino.»
Quando volta em 2010 aos lugares da sua guerra, o militar sabe que «não se faz
uma viagem ao passado para amaldiçoar o presente» e o seu discurso aos antigos
comandados é elucidativo: «Quase menino e moço saí de casa de minha Mãe para me
fazer soldado como vós. Os primeiros contactos foram difíceis, nada sabia sobre
os vossos usos e costumes, aqui cheguei de barco e cedo me empolguei por este
pedaço de terra dos negros que me coube por missão ou dever por carta de
perdão. Fiz-me homem entre vós. Venho suplicar-vos que não percam a vossa
nobreza, a vossa postura senhorial a despeito de tanta agrura. O Deus
misericordioso, que nos comtempla, se exulte com a nossa alegria e me perdoe as
faltas e me conceda junto de vós, alcançar a vida eterna. Porque o vosso e o
meu Deus ditam o mesmo mandamento, amarmo-nos uns aos outros como Ele nos
amou».
(Edição: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: José Antunes, Revisão:
Pedro Ernesto Ferreira)
José do Carmo Francisco
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por José do Carmo Francisco às 22:05

Quinta-feira, 12.07.12

primerio envio para Blog

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Vinte Linhas 799
Transporte Sentimental – uma dolorosa memória descritiva
Em 1986, durante as férias de Verão em Santa Catarina (Caldas da Rainha),
escrevi os vinte poemas do livro «Transporte Sentimental» que dediquei a
Armando Silva Carvalho, Fernando J. B. Martinho e Pedro Tamen. Editado em
1987 sob a chancela da «Espiral», com apoio do Grupo Desportivo do BPA, o
livro teve uma segunda edição de 2 mil exemplares em 1999 pelo Departamento
de Cultura da CML com capa de Ernesto Matos e coordenação gráfica de
António Custódio e José Fidalgo. Lá pelos idos de 2000, numa segunda-feira,
tendo entregue o meu trabalho na redacção do jornal «O Mirante» de
Santarém, desloquei-me à minha terra para almoçar com o meu pai. Como
levava um pacote de livros oferecidos pela CML, lembrei-me de parar à porta
da Escola Secundária de Santa Catarina e procurei falar com algum dos
professores de Português. Como não havia nenhum, procurei ser recebido por
um elemento do Conselho Directivo mas não esteva ninguém para me receber.
Perante a estupefação da empregada, lá voltei para trás com o pacote dos
livros que ninguém quis receber.
Passados estes anos percebo como tudo de explica. Primeiro: há professores
de Português que não gostam de Literatura e muito menos de Poesia. O que
lhes interessa é dar o programa, receber o ordenado ao fim do mês e uma
promoção no fim do ano. Segundo: eu estava a querer dar livros e isso era,
para quem atendeu o telefone da portaria, obra de algum insólito, ingénuo e
incauto. Um autor que oferece livros é suspeito e, por isso, não tive quem
quisesse falar comigo. Terceiro: é preciso perceber que a Escola é na minha
terra mas os professores estão lá de passagem; entram de manhã e saem à
tarde mas nada os liga a Santa Catarina. Hoje, 13 anos e 7 livros depois
desse livro, eu já não vou repetir esse lapso.
José do Carmo Francisco
--

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por José do Carmo Francisco às 22:04


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