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Transporte Sentimental


Sábado, 03.12.16

a «rosa divina» (crónica para uma certa memória da nazarena elvira)

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Ainda estou a ouvir Elvira que foi amiga de minha mãe (Olímpia do Carmo Almeida) a jurar pela «rosa divina» que o mesmo é dizer pelo sol. Vinha ela da Nazaré com a Tia Rosa e com a Tia «Barrila» vender o peixe em canastras que guardava na adega da casa da minha avó materna em Santa Catarina depois de beberem uma pinguinha de café. Só muitos anos depois li o livro de Orlando Neves (1935-2005) sobre a origem dos nomes e percebi: embora de etimologia discutida, talvez de origem visigótica, Elvira significa «amiga da alegria». Na Idade Média o nome tinha grafias várias: Guilvira, Jelvina, Gelmina e Gelvira. Também só muitos anos depois li «Os pescadores» de Raul Brandão (1867-1930) com um texto de 1923, seis anos antes de Elvira nascer. Escreve o Mestre: «Tive sempre a ideia de que quem manda em todo o país é a mulher. Valem mais do que o homem, sacrificam-se mais do que o homem – mas aqui o seu trabalho é tão palpitante que toda a gente afirma que a mulher da Nazaré é a alma desta terra». O Mundo é pequeno e o acaso é grande: a Ana Maria que vem todos os dias da Nazaré para Santa Catarina, é sobrinha da Elvira e prima do Fábio e do Mauro, dois excelentes músicos nazarenos que são amigos do meu primo Luís Almeida, também músico. Meu pai (José Francisco) está muito bem entregue e nós os filhos podemos dormir mais descansados. A sombra de Elvira («amiga da alegria») continua a proteger quem enfrenta os dias com um teimoso sorriso nos lábios. Somos alheios aos desabafos antigos que chegaram ao nosso tempo («O estipor de vida que eu levo!») mas atentos ao bem disposto exclamativo perante uma coisa insólita, inesperada e inverosímil: «Só se está pardinal!» Na Nazaré tudo é diferente: pardinal quer dizer «com os copos» e a rosa divina é o «sol». E estipor é «estupor», claro. --

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por José do Carmo Francisco às 13:20

Quarta-feira, 30.11.16

«a hora das coisas» de fernando chagas duarte

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Depois de «quase cem poemas de amor e outros fragmentos» (2014) surge em 2016 este segundo livro de Fernando Chagas Duarte (n.1964). O título vem da página 11: «um cronómetro incerto / trabalha pelo lado de dentro de todas as rotinas felizes / são ciclos de outras – serão tantas outras – coisas cheias / apeadas e em marcha / digo-me as horas uma a uma – como se fossem coisas com ideias próprias de serem ideias. Digo-as e penso: é a hora das coisas! O volume organiza-se em três capítulos: «Dez espontâneos», «Ciclos in vitro» e «Da guerra». O autor coloca-se entre a Vida e a Morte, definindo-se como indivíduo: «o pensamento ou a tristeza profunda / é a profusão amadurecida da beleza humana / - o indivíduo, eis o desamparo formulado da ironia.» É no intervalo entre esses dois grandes espaços que a Poesia surge qual balança que «tudo pesa»: «Querer ir à praia, quando falta para o Verão / sonhar com a amada, quando falta para o quarto / colorir o céu de pálido amarelo, quanta tinta gasta /recordar os mortos, quanto a mim me falta». A guerra no seu absurdo («As aves voavam ao contrário») significa morte: «o meu avô / que regressou da guerra para se enforcar / com triste galhardia na janela de casa / no quarto ao lado dos que são seus / foi soldado raso sobrevivente que se recusou / ao jogo das peças brancas.» A relação «guerra/morte» surge noutro poema na página 100: «eu, sob o chapéu-de-chuva / só caminhava como um ladrão / mas nunca roubei nada / nesta vida / que me assalta todos os dias / à mão armada.» A solução do absurdo da Vida será sempre o Amor que é a outra palavra da Poesia, só acessível a crianças e poetas: «As crianças e os poetas/ não enlouquecem, não sabem enlouquecer (…) são eles os exploradores definitivos da alma / quaisquer que sejam as profundidades / oceânicas em que banhem os pés. / Recordam um fim do mundo jovial / logo adiante.» (Edição: Pastelaria Studios, Colecção: A poesia pode durar um dia) --

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por José do Carmo Francisco às 12:12

Terça-feira, 29.11.16

«gralhas», granizo e azeite na «pátria da chuva» de fernando alves

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Camilo Castelo Branco (1825-1890) não escrevia com «gralhas». A edição Círculo de Leitores/ R.B.A. em 2005 traz no «Livro negro de Padre Dinis» uma «gralha» - águas-frutadas por águas-furtadas. Na «pátria da chuva» o branco do granizo faz contraste com o negro dos pinheiros queimados. Também arderam oliveiras. Na praia fluvial da Aldeia Ruiva o único sinal de vida são as carrinhas de caixa aberta com azeitona para o lagar. Ali o mestre dirige as operações numa gramática tão antiga como a Escola Primária: «Verde foi meu nascimento / E de luto me vesti / Para dar a luz ao Mundo / Mil tormentos padeci». Os versos eram do tempo das candeias, ainda não estava generalizada a electricidade. Nesse tempo antigo, numa aldeia da Estremadura, eu era criança num lagar cujo mester era meu tio-avô. Perante a estranheza dum prato sem sardinhas nem bacalhau, um homem advertiu-me: «Ó menino, batatas com azeite já é comer!» Na nossa lagaragem os números são quase residuais: 187 quilos de azeitona dão 22 litros de azeite mais as borras que na Isna de São Carlos chamam cabeças. São doze cêntimos por quilo; dá um euro por litro. Aqui o dia fica pontuado pela cegarrega da moto-serra do madeireiro que vemos partir já no lusco-fusco do fim do dia a caminho de Pedrógão Grande. Tal como na lamentação do velho zangado no café da vila: «O homem de Pedrógão já abalou e agora quem é que me paga os pinheiros?» A tempestade de granizo parou, o branco do gelo é agora água nas pequenas ribeiras que, no Verão, são caminho de gente e de animais. Do fundo da última rua da aldeia saem três homens a tocar concertina, talvez empurrados pelas azeitonas, pelas lascas de presunto, pelo pão e pelo vinho morangueiro. Há uma luz teimosa como teimosa é a música dos homens sobre o negro desolado do fogo. --

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por José do Carmo Francisco às 07:41

Terça-feira, 22.11.16

nada é como parece porque tudo se modifica todos os dias

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Outro dia, depois de ter bebido um «pirata» no Bar «O Pirata» dos Restauradores, olhei para a Casa do Alentejo onde ia decorrer o lançamento de um livro de poemas de Fernando Chagas Duarte. É possível que o turista desprevenido, o que vê (ou julga ver) a Cidade pelo ângulo do «tuk tuk» quase tailandês, é mesmo provável que o turista julgue que a Casa do Alentejo sempre ali esteve. Mas não. A fotografia que o meu amigo Frederico Magalhães me emprestou mostra como aquele espaço já foi outras coisas (um casino, por exemplo) e até um armazém de roupas com meias, malhas e miudezas. Quando eu comecei a escrever em 1978 no «Diário Popular» julgava que esse jornal nunca ia acabar. Jacinto Baptista bem me avisou que nada estava garantido. Mais tarde foi Carlos Miranda em A BOLA que me advertiu para o precário das nossas coisas. Foi preciso passarem muitos anos para eu perceber um bocado do assunto. Afinal tudo é efémero e mesmo nós, os que tocamos as trombetas das notícias, das reportagens e das entrevistas, quando morremos só temos direito a duas datas e um retrato no jornal. Quando temos. Tudo isto vem a propósito de Carlos Garcia de Castro (1934-2016) um grande poeta de Portalegre. Foi ele que escreveu versos inesquecíveis como «Todos os dias Portalegre é tarde». Nos momentos difíceis de lidar com a morte do Poeta, a única coisa que arranjei foi uma nota de leitura do seu livro de memórias «Loja, contraloja e armazém». A Casa do Alentejo não esteve sempre ali na Rua das Portas de Santo Antão; dizia-se no passado em Coimbra que o Direito Romano começou por não existir. Razão tinha Camões que andou por ali no Páteo do Tronco: «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades». E o Poeta Eduardo Guerra Carneiro escreveu: «Isto anda tudo ligado». --

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por José do Carmo Francisco às 11:59

Domingo, 20.11.16

recado para rita ferro e que me desculpe se puder

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Ontem dia 19-11-2016 eu devia ter ido ao Palácio Foz para a ouvir mas só cheguei a Lisboa depois das sete da tarde. Tinha uma actividade na Casa do Alentejo à mesma hora mas aí já não é tão grave porque estava presente na leitura de poemas em homenagem a Eduardo Olímpio. Hoje dia 20-11-2016 devia estar em Tomar numa reunião do Fórum Ribatejo mas fico por Lisboa na celebração do aniversário da minha irmã Maria do Carmo e do meu cunhado Jorge Morgado. Quis ligar-lhe mas o seu telemóvel não funciona e talvez já tenha mudado tal como presumo que mudou de morada e de código postal. Longe vão os tempos de Vale de Óbidos e de São João da Ribeira. Era por 1997 a 2001 quando eu parava na sua casa para dois dedos de conversa. Um dos seus livros foi objecto de uma ficha de leitura no jornal O MIRANTE e fiz-lhe uma entrevista debaixo do telheiro de Vale de Óbidos. É curioso e insólito como a mesma cidade que a repeliu a si tenha recebido de braços abertos a sua irmã Mafalda. Sei que mudou a Presidência da Câmara mas…. Liga-me a Rio Maior a ida à Feira da Cebola em Setembro e, no regresso a Santa Catarina, o inevitável saco de sal para a matança do porco em Dezembro com a chegada do frio que afastava as moscas; bastava uma mosca para estragar a salgadeira. Por aqui tudo na mesma, os anos passam. A minha filha mais velha (n.1978) e a minha filha mais nova (n.1985) vivem e trabalham no Estrangeiro. Só o meu filho do meio (n.1981) está em Lisboa à distância de duas paragens de autocarro. Já tenho quatro netos: Tomás, Lucas, Pedro e António. Os netos são um pouco como os livros: o posfácio da vida de todos os dias, os nossos juízes no futuro que vem já aí. Outro dia escrevi que um dia talvez me lembrem como um avô anacrónico. Gostava de saber a sua opinião. Obrigado desde já. --

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por José do Carmo Francisco às 12:22

Domingo, 20.11.16

de joão céu e silva a aniceto carmona - memórias do caçador de gralhas

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João Céu e Silva não fala com José Vilela e é pena. Se almoçasse na Paparrucha com este editor (Bonecos Rebeldes) e livreiro (Escadinhas do Duque 19A) ficava a saber que ele descobre sempre uma gralha. Ainda agora com a antologia de poemas dedicada a Monserrate («O jardim que o pensamento permite») logo descobriu a gralha no nome de Maria Gabriela que aparece Llansoll nas páginas 47, 48 e 49. No «Diário de Notícias» de 19-11-2016 João Céu e Silva escreve sobre o mais recente livro de J. Rentes de Carvalho e afirma que passaram 50 anos sobre 1956 quando são 60. Autor de um livro sobre a obra de José Saramago, talvez João Céu e Silva tenha reparado no livro «Viagem a Portugal» quando o autor pára em Santarém e escreve igreja de São João de «Alpalhão» em vez de Alporão. Ou então na citação de Almeida Garrett na abertura do «Levantado do Chão» quando troca «infâmia» por infância. Faz parte e acontece aos melhores. No livro «Marcha Triunfal» de Júlio Dantas nas páginas sobre a batalha de Montes Claros (século XVII) surge na página 114 o veterano português Silva Moura mas já na página 120 lhe chama Silva Nunes tal como na 121. Já nos nomes de Tristão da Cunha e Furtado de Mendonça não há gralhas. Para mim o Jornalismo ainda é uma disciplina da Literatura e considero-me um exemplo. Digo a brincar que fiz a Escola Primária no «Catarinense» e na «Gazeta do Sul», o Liceu no «Diário Popular», no «Notícias da Amadora», em A BOLA, no «Ponto» e no Jornal do Sporting, e a Universidade na Revista Ler, na «Gazeta das Caldas», no «Correio do Ribatejo» e na Antena Um Açores. Sem esquecer o «Record», o «Ribatejo», «O Mirante», «A Voz de Alcobaça, o «Diário Insular» e tantos outros que fazem parte do meu C.V., eu um pobre plumitivo «para quem os jornais foram a sua Universidade». --

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por José do Carmo Francisco às 09:36

Sábado, 19.11.16

carlos garcia de castro (1934-2016) no clube dos poetas vivos

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«Loja, Contra-loja e Armazém» de Carlos Garcia de Castro Carlos Garcia de Castro (n. 1934) é autor desde 1955 de 7 livros de poemas – o mais recente é Gloria Victis de 2007. Neste livro de memórias, o ponto de partida é o seu olhar para dentro da loja de seu pai: «Das poucas vezes que agora vou à loja – é estranho. As prateleiras não têm peças de panos. Os riscados, popelinas, os percais. As chitas, as gorgorinas, as gangas e as flanelas. Os cotins. As sarjas. Os surrobecos.» O autor apresenta-se («Cresci duma casa para a loja e para a minha rua. Sou da cidade.») e apresenta o seu livro: «este livro que fala da minha terra não a ultrapassa nem ilumina, é decididamente paroquial.» Nas suas páginas, diversa poesia surge intercalada embora o seu autor tenha advertido: «a Poesia quase não é procurada nas livrarias». Memória de um tempo e de um mundo, a família e o comércio são dois dos pilares do texto: dos irmãos António, Miguel e Maria de Jesus aos netos Mafalda, Madalena, Diogo com passagem pela divisa «O comércio é para servir mas não é criado de ninguém». Nascido na Rua dos Violeiros, sempre o autor gostou de Tunas: «Conheci-os muito bem. O sr. Madeira, violino. Os irmãos Facha, violino e guitarra. O sr. Testa. O sr. Rosado, acordeão. O Amaral com o banjo. Mestre Carvalho, acordeonista. Era a Tuna. Passava devagar.» Dentro da Cidade, surge a Loja: «Para a loja convergiam e da loja emergiam as operações e os ritmos particulares das nossas vidas. Não consigo lembrar esta cidade sem lembrar a loja». Ao longo de 213 páginas o autor mantém o projecto: «Dizer por escrito: a minha terra; a nossa casa; a loja; os rapazes (empregados); os meus pais - não cabe na literatura. Não sendo já saudade, é sentimento e sinal». O tempo da loja não era só trabalho; havia baile no salão: «Bota cá l´cença! Era a senha de quem vinha e queria bailar com aquela». Se o par se negava a transitar a rapariga, «havia porrada, todas as noites, ao sábado no salão». A memória tem coisas tangentes à realidade de agora, como o Banco de Portugal desse tempo: «Solene como uma igreja, onde se falava em surdina aos guichets, confessionários. Um luxo estático. Sobranceria. Riqueza. Discrição nos movimentos. Concentração. Tudo lá parecia uma cerimónia, os ritos apropriados, liturgia, exactidão, ameaça. Não lhes sabia o sentido». As oito páginas de fotobiografia tornam o volume ainda mais fascinante. (Edições Colibri, Capa: Raul Ladeira, Editor: Fernando Mão de Ferro) --

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por José do Carmo Francisco às 09:42

Sexta-feira, 18.11.16

homero serpa e vítor serpa não estudaram na rabicha

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Num texto anterior referi o erro crasso cometido por Homero Serpa e Vítor Serpa ao atribuírem o título de campeão de Portugal em futebol ao SLB no ano desportivo de 1957/58 quando o vencedor foi o SCP. Foi na página 177 do livro «História do Futebol em Portugal» editada pelos CTT em 2004. Por acaso eu morava perto do cemitério e até era vizinho do jogador Joaquim José no Montijo e foi ele que marcou o golo decisivo do SCP aos 87 minutos no Campo do Barreirense que não era nenhuma pêra doce naquele tempo – 1957/58. Mas se adverti para o erro crasso da página 177 não posso deixar de assinalar o que está correcto na página 25 do mesmo livro na qual se pode ler: «Em 13 de Setembro de 1908, a fusão foi oficializada nascendo então o Sport Lisboa e Benfica. O emblema acordado pelos dirigentes dos dois clubes respeitou os símbolos de cada agremiação dominados pela legenda «E pluribus unum». O Grupo Sport de Benfica foi fundado em 1906, o Sport Lisboa foi fundado em 28 de Fevereiro de 1904. Uma mentira repetida muitas vezes não deixa de ser o que é – uma mentira. Por isso quando Jacinto Baptista e António Valdemar no livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» escrevem que o primeiro derby foi em 1907 estão completamente errados porque o clube que disputou esse jogo foi o Sport Lisboa e só há derbies a parir de 1908. Para quem não saiba aqui fica a explicação. A Rabicha é uma Travessa perto do Tarujo, ali entre Campolide e Sete Rios. Nas paredes dos seus prédios estão lições da «seita da verdade suprema» mas felizmente nem Homero Serpa nem Vítor Serpa lá estudaram. Por isso o que escrevem no livro de 2004 editado pelos CTT não faz cedências nem ao delírio nem à alucinação. --

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por José do Carmo Francisco às 21:38

Quarta-feira, 16.11.16

antónio simões, homero serpa, antónio valdemar e jacinto baptista

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Quando eu morrer duas ou três pessoas poderão reparar num poema do Blog «emboscadas do esquecimento» escrito para os 70 anos do Toni e dedicado a António Simões e Homero Serpa. No segundo caso refiro a sua memória e isto porque eu não esqueço que em 1994 me convidaram a escrever para os fascículos de A BOLA com o título «Glória e Vida de Três Gigantes». Nunca esquecerei o convite de António Simões para um trabalho de grande envergadura quando a minha mãe estava gravemente doente: trabalhar nesses fascículos foi uma excelente terapia. Mais tarde o meu nome foi apagado na bibliografia do livro «A paixão do Povo» além de os autores chamarem «Grandes» aos «Gigantes». Quer isto dizer que em 2016 eu continuo a ser o que era em 1978 no «Diário Popular» - respeito, admiro e estimo as pessoas mas não sou obrigado a copiar o seu pensamento. No caso de Homero Serpa há um livro de 2004 editado pelos CTT e escrito em parceria com Vítor Serpa onde na página 177 se refere o SLB como vencedor do Campeonato de 1957/58 quando o campeão foi o SCP. E o livro «Repórteres e Reportagens de Primeira Página» de 1990 onde o delírio e a alucinação são iguais. Trata-se de «O primeiro derby» que Jacinto Baptista e António Valdemar situam em 1-12-1907 quando o SLB foi fundado em 1908. Os dois alteram as transcrições de O SÉCULO e do DIÁRIO DE NOTÍCIAS acrescentando um parêntesis recto e as palavras «e Benfica» como se os autores das notícias de 2-12-1907 não soubessem o que estavam a fazer. No caso das Ligas de 1935 a 1938 os vencedores do Campeonato de Portugal em 1935/36 e 1937/38 foram o SCP e em 1936/37 foi o FCP. Daí que o livro de Ricardo Ornelas em 1950 insinue que nesses três anos não houve Campeonato de Portugal e como o SLB venceu essas Ligas, seria Campeão. Além de funcionar por convites é preciso perceber que em 1934 Portugal não tinha rede de estrada nem de caminhos-de-ferro para um campeonato a sério. Por isso ficaram de fora todos os clubes de Viana de Castelo, Braga, Guimarães, Covilhã, Portalegre, Beja, Faro, Olhão e Vila Real de Santo António. Sem esquecer o Marítimo vencedor do Campeonato de Portugal em 1926. --

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por José do Carmo Francisco às 16:59

Quarta-feira, 16.11.16

«era uma vez uma boina» de leonoreta leitão

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Com o subtítulo de «Memórias de uma professora do Estado Novo à Democracia», este livro de Leonoreta Leitão (n. 1929) tem um ponto de partida («Não somos nada sem os outros») e um ponto de chagada: «Em tudo o que vou escrever, sem rodeios, de coração aberto, não espero nem desejo sentir-me aplaudida nem censurada». A autora nasceu em Leiria, filha de Acácio Leitão e de Mariana Brandão. Foi afilhada de Afonso Lopes Vieira e um dia respondeu ao «Questionário de Proust» do «Jornal de Letras de 10-6-1964. Vejamos apenas três respostas: «- Onde gostaria de viver? – Em Leiria ou em Paris. – O seu ideal de felicidade terrestre? - Trabalho, paz e amor para todos. - Que culpas a seu ver requerem mais indulgência? – Todas as que forem realizadas por amor.» Tratando-se embora das suas memórias, Leonoreta Leitão integra nelas as memórias de muitos outros que consigo partilharam o tempo que viveu. Por exemplo Orlando Neves que nas páginas 140 e 141 num artigo o Jornal «Unidade» de 1974 refere uns jovens que almoçavam em Benfica e mudaram as suas palavras no restaurante das «conversas em família» de Marcelo Caetano para o «Avante!» e para o «República», afirmando «é importante distinguir onde está o oportunismo e onde está a reflexão honesta». O seu tempo da Escola em Alcanena surge nas páginas 12, 64, 90 e 261: «Só em Alcanena me apercebi dessas minhas qualidades (pés bem assentes na terra) quando me achei perante uma Escola do Ciclo Preparatório e com determinação consegui que ela viesse a ser uma Escola Técnica.» Outro aspecto tem a ver com Urbano Tavares Rodrigues sobre quem Leonoreta Leitão escreve: «Na Páscoa de 1984 terminou a minha vida em comum com o Urbano por minha decisão, sem atritos.» Numa das cartas no livro copiadas, Urbano afirma «ninguém é de ninguém e tu de facto não és minha mas tua. Atingi contigo o extremo da felicidade humana.» E neste sentido (falar de si para falar dos outros) a última página (a 286) refere uma reflexão do pai de Leonoreta Leitão que a autora toma como sua: «É preciso vive muito depressa e morrer muito devagar.» (Editora: Colibri, Direcção gráfica e capa: Rui A. Pereira, Apoio à edição: Horácio Guerra) --

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por José do Carmo Francisco às 14:35


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