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Transporte Sentimental


Quarta-feira, 18.01.17

fala de antónio para helena na «terra permitida»

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Soube sempre, soube desde sempre que o nosso amor não seria um amor feliz mas amores felizes há muitos nos livros, nos teatros e nos cinemas. Preferi o teu encanto ao encanto da rainha Dona Amélia quando ela veio à Ilha de São Miguel com o rei D. Carlos. Nesse dia fiquei a falar contigo e não fui ver os reis porque se o meu pai não tivesse morrido pobre eu nem sequer teria um casaco para vestir. O meu amor por ti cresceu entre o cheiro da terra, o cheiro da madeira da oficina do mestre Abílio e o cheiro do licor de tangerina. O meu amor por ti cresceu também entre lágrimas. A nossa terra sempre foi uma terra de lágrimas mas lágrimas diferentes de pessoa para pessoa. O José Sobrancelha Loura fez o enterro da mulher com lágrimas porém sem música mas já o menino Horácio trouxe para o funeral da sua mulher a Filarmónica dos Fenais da Ajuda e a música era tão triste que as pessoas até choraram mais. O meu amor por ti cresceu entre a música da minha guitarra e a música de uma peça de Debussy que toquei para tu sentires a Lua mesmo sem a poderes ver. O meu amor por ti cresceu também entre as palavras para mim estranhas e o som das primeiras sílabas: água, braço, gato, rato, uva, xaile, zebra. Mais tarde eu já podia ler para ti outras palavras: «Longas são as estradas da Galileia e curta a piedade dos homens». O meu amor por ti cresceu e não vai ter fim. Já está num livro e os livros são uma memória que não deixa morrer os sentimentos das pessoas como nós. O teatro e o cinema também. Quem sabe, Helena, se um dia a minha guitarra e a tua burrinha não vão aparecer num palco de teatro ou numa sala de cinema. Quando um amor é grande como o meu, tudo é possível, Helena. Tudo é possível. --

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por José do Carmo Francisco às 10:47

Terça-feira, 17.01.17

daniel de sá - «deus está em toda a parte e na maia também»

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Num gesto de generosa simpatia, Daniel de Sá colocou a minha frágil pessoa (obscuro poeta, discreto jornalista) como «protagonista» de um conto seu publicado na Revista Atlântida de Angra do Heroísmo em 2005. A dedicatória no corpo da revista é elucidativa: «Para José do Carmo Francisco Ao poeta de afectos e ao amigo sem mácula, aqui vai a possível retribuição de tais afectos e de tal amizade, expressa no «nosso» conto que pode ler-se nas páginas 103/108. Maia, S. Miguel, 17 de Abril de 2006 Com um abraço do Daniel de Sá». Nessa narrativa (o conto «Dueto a uma só voz») o jornalista de um jornal de um Clube a acompanhar o seu Futebol Juvenil dialoga numa vila da Província (pode ser Montemor-o-Novo, por exemplo) com um homem que se recusa a aceitar a morte recente da sua mulher. Quando questionado ao portão sobre a ausência da esposa, a resposta é sempre a mesma: «Foi visitar uma prima. Já volta.» Esta recusa em aceitar a morte leva-me a pensar que só o amor pode ser a sua oposição, o seu contrário, o seu outro lado. A vida não pára, o tempo não se suspende perante nada nem perante ninguém mas o amor pode ser a única força capaz de disfarçar essa inevitável etapa da vida. Na Revista «Grotta» acabada de sair, o meu pequeno texto é uma espécie de resposta literária ao conto de Daniel da Sá na Revista Atlântida. O amor de António por Helena nasceu e cresceu contra todas as expectativas. No meu texto, modesto artefacto de palavras, a voz de António levanta-se a partir das pedras e da terra para cantar no ar da Ilha Verde um amor impossível. Parecia impossível mas é verdade. Tal como é verdade esta frase de Daniel de Sá: «Deus está em toda a parte e na Maia também.» --

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por José do Carmo Francisco às 20:27

Segunda-feira, 16.01.17

1997-2017 vinte anos passaram num instante

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A foto de José Alex Gandum testemunha um encontro no Cinema São Jorge (Lisboa) entre Joaquim António Emídio e José do Carmo Francisco em 2017 no 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses. Há vinte anos esse encontro cordial foi no Largo do Seminário (Santarém) e não há fotografias, apenas memórias. Tratava-se na altura (1997) de escolher para um número especial de aniversário as melhores reportagens e as melhores entrevistas do jornal O MIRANTE que estava prestes a festejar 10 anos de vida. Nesse tempo os telemóveis (poucos) que existiam começavam todos por «0936» ou «0931» e, como estavam nos automóveis, as chamadas para os presidentes das câmaras municipais eram sempre atendidas pelos seus motoristas. Tudo mudou em nós, no País, na Europa e no Mundo mas o jornalismo continua a ser o que sempre foi: um ofício e uma paixão de contar aos outros as suas próprias histórias. Agora em 2017 é tudo precário, os recibos verdes são falsos, os estágios são uma ficção, os altares estão cheios de sarjetas, há jornais que parecem impressos em água suja e não em tinta mas a esperança nunca morre. O «Actualidades» acabou um dia e estes também podem acabar. As coisas mudam embora nem sempre para melhor. Os Portugueses andaram muito tempo a apanhar cavacos e a caminhar nos passos perdidos, os Americanos tiveram um Presidente negro e acabam de eleger o seu contrário, na Europa o medo e a força da segurança colocam-se à frente da liberdade e da esperança num Mundo melhor. Há na nossa vida passos em frente e passos atrás mas o importante em 2017 (como em 1997) é não perder de vista o fio de esperança teimosa porque o jornalismo é (e será sempre) uma disciplina da Literatura e existe para juntar de novo tudo o que a morte separou. --

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por José do Carmo Francisco às 09:13

Sábado, 14.01.17

«bola ao ar» de rui miguel tovar

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O subtítulo (As histórias mais insólitas do Futebol Português) poderia ter sido substituído com vantagem por «Algumas das histórias mais insólitas do Futebol Português» porque, tal como refere Mário Zambujal, o autor exibe uma grande bonomia. Basta pensar que a morte de Pepe em 1931, o não ter havido enviado-especial de A BOLA em 1946 a Elvas quando Os Belenenses alcançaram o seu único título de Campeão Nacional ou pontapé de Eusébio no peito de Artur Marques da Glória no dia 30-4-1967 sendo ele sócio nº 48767 do SLB e dono de dois pombos (o Simões e a Lola) e de um galo (o Eusébio), poderiam ter entrado no livro. No texto sobre o F.C. Porto e a sua ligação à Revigrés não se refere um árbitro que marcava sempre grande penalidade quando Futre se atirava para o chão embora se mencione o cheque que o comendador da Revigrés mandou ao FCP aquando da penhora da sanita do balneário dos árbitros nas Antas. Notável o texto sobre o gesto de «não ao fascismo» na página 216 com os seus protagonistas azuis (José Simões, Amaro, Quaresma) e verde Azevedo. E também o de Mário João, jogador da CUF e do Benfica: «O salário não era muito diferente mas sempre recebia dos dois lados: como empregado e como jogador. Graças a isso tenho estabilidade. Sou reformado da CUF. Se ficasse no Benfica seria ultrapassado por alguém mais novo.» Na página 254 uma frase de Allison no intervalo de um jogo com o Boavista para a Taça de Portugal: «Se quiserem ganhar passem a bola ao Mário Jorge». E de 1-2 passaram a 3-2 para o SCP. Sobre árbitros um texto curioso na página 149: «Os anos 90 fazem questão de promover a promiscuidade da classe com o dinheiro. Há José Guímaro, há Francisco Silva, há Carlos Calheiros.» Por fim uma abordagem de Pinto da Costa a partir das palavras de Ivkovic: «Aquilo faz parte da força do FC Porto. É a intimidação. Para eles é tudo um jogo. Do princípio ao fim. Por isso é que ganham quase sempre tudo. Pelos jogadores, pela estrutura, pelo futebol, pelo presidente». E na página 52 uma estatística impressionante: 733 vitórias, 207 empates e 150 derrotas em 1090 jogos. Algumas discrepâncias notadas ao longo da leitura. Na página 14 aparece 1976 por 1975, «Jogo Baixo» por «Bola ao Ar» e 288 páginas por 285. Na página 30 o bebé surge como pesando 4100 quilos em vez de 4,100. Na página 52 «do» Bayer é «da» Bayer, na 53 não especifica se bagaço é de vinho ou azeite, na 185 é bem «senhor» e não «sr.» e na 205 surge Raul Águas quando na 207 aparece Rui Águas duas vezes, tal como na página 208 (duas vezes) e na 210 uma vez. Na página 248 aparecem 27 contos e 28 contos. Na página 250 Manuel Marques poderá ser Sousa Marques da página 256. Na 265 surge campeonato nacional de 1935/36 quando a Liga foi um torneio experimental e particular disputado nos domingos deixados livres pelo Campeonato de Portugal. Por fim na 269 aparece «o Século» por «O Século» e na 275 Alcochete por Barroca de Alva. Um pormenor curioso tem a ver com a história da agressão de Sá Pinto a Artur Jorge que Octávio chama de «rei» porque em França os jornalistas optaram por ligar o seu nome à Távola Redonda mas não aparece a relação como livro de poemas de Artur Jorge («Vértice da Água»). Na verdade Portugal nem é um país de bandos costumes nem de poetas. A guerra civil do século XIX está cheia de violência E os poetas são conhecidos pela gastronomia (Bulhão Pato) ou pelas anedotas (Boacage). (Editora: Clube do Autor, Paginação: Maria João Gomes, Revisão: Silvina de Sousa) --

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por José do Carmo Francisco às 14:50

Terça-feira, 10.01.17

fernando alves, joel neto e luiza costa - para cada um sua verdade

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Escrevo esta crónica depois de 39 minutos de pura maravilha a ouvir um trabalho de Fernando Alves na TSF. O pano de fundo é o livro de crónicas de Joel Neto e o seu regresso à terra onde nasceu. Outro dia mandei-lhe uma carta da Global Notícias que foi enviada para a sua morada de Lisboa. Utilizei um envelope de correio azul mas ainda não me acusou a recepção. Talvez já esteja integrado nos mundos separados que sempre existiram na sociedade portuguesa: a Cidade e o Campo. Basta ler Camilo Castelo Branco, Carlos de Oliveira, Júlio César Machado ou Raul Brandão para esse muro instalado aparecer em toda a sua dimensão. A minha mãe (1929-1995) voltou à sua terra natal e sofreu um choque quando uma amiga lhe disse: «O teu marido andou tanto ano lá por Lisboa e a reforma não é coisa que se veja; vocês comem tanto bacalhau!». Quanto a Luiza Costa, objecto de uma crónica de Joel Neto em 2-7-2015 (que não está no livro) tem todo o direito de não gostar do Campo. Ela sabe que a felicidade pela agricultura não existe: Alexandre Herculano em Vale de Lobos é um exemplo. Joel Neto não foi feliz quando escreveu que para Luiza «o problema é as coisas estarem vivas». Não é o caso tal como não me parece feliz a expressão «recebeu plateias» porque as plateias conquistam-se, seduzem-se ou enfrentam-se mas não se recebem. Depois não me parece que haja sotaque onde apenas noto pronúncia. Mais à frente aparece uma espécie de juízo que divide os açorianos em duas classes «os que conseguem regressar e os que não poderão fazê-lo nunca». Até parece o outro que tentou insultar um jornalista da Ribeira Grande num café de Ponta Delgada gritando-lhe «Tu nem és açoriano!» Afinal é tudo mais simples: para cada um sua verdade; uns gostam mais do Campo, outros da Cidade. --

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por José do Carmo Francisco às 12:55

Domingo, 08.01.17

domingos rebelo em 1958 no «salão dos recusados» da gulbenkian

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Acaba de ser apresentada em público (Casa dos Açores – Lisboa) por Jorge Rebelo (neto do pintor) um magnífico livro de 160 páginas (Editora Letras Lavadas) com a vida e parte da obra deste artista natural de Ponta Delgada (1891-1975) mas o motivo à vista para esta crónica e para a ilustração que a acompanha é a situação criada em 1958 quando Domingos Rebelo e outros artistas portugueses viram as suas obras rejeitadas pela Fundação Calouste Gulbenkian. O livro que eu tenho abre com uma advertência da Junta Directiva do Grupo de Artistas Portugueses: «Os trabalhos que hoje se expõem, são as obras dos Artistas filiados no Grupo de Artistas Portugueses, que foram rejeitadas pelo Júri de Admissão da Exposição da Fundação Calosute Gulbenkian, cujo critério de selecção, tornado público, esteve em desacordo com as afirmações feitas anteriormente pela própria Administração da Fundação. Mostraram estes Artistas, através da Imprensa, a sua estranheza quanto ao citado critério e, por isso mesmo, tornou-se-lhes imperioso dar a conhecer à crítica desapaixonada e ao público, grande juiz em todas as causas, do valor das referidas obras.» Os artistas são Albertino Guimarães, Alda Machado Santos, Álvaro Duarte de Almeida, António Saúde, Domingos Rebelo, Fortunato Anjos, Francisco Maya, Fernando dos Santos, Jaime Murteira, João Reis, João Barata, José Campas, José Joaquim Ramos, Júlio Silva, Lauro Corado, Luís Salvador Júnior, Machado da Luz, Maria Alexandrina Chaves Berger, Maria de Lourdes de Mello e Castro, Maria Toscano Rico, Paulo Gama, Pedro Guedes, Pedro Jorge Pinto, Romano Esteves, Rui Preto Pacheco, Silva Lino, Ventura Moutinho, José Basalisa, Alberto Sousa, Mário Salvador, Celestino Tocha, Júlio Vaz Júnior, Raul Xavier e João da Silva. Para terminar apenas uma nota: a Exposição das obras recusadas pela Gulbenkian decorreu de 21 a 30 de Janeiro de 1958 na SNBA. --

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por José do Carmo Francisco às 16:22

Domingo, 08.01.17

germano silva ou a alegria teimosa da j.o.c. no nosso C.V.

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1956 marca o início no «J.N.» do trabalho de Germano Silva (n.1931) e, também, a morte do Padre Américo (1887-1956) que tinha muito a ver com a JOC embora não tenha sido discípulo directo de Monsenhor Cardjin (1882-1967),o fundador da JOC e autor da frase «Cada jovem trabalhador vale mais do que todo o ouro do Mundo». Seguidor dilecto do cardeal Cardjin foi o Padre Abel Varzim (1902-1964) que vai ser homenageado pelo Fórum Abel Varzim no dia 14-1-2017 em Cristelo (Barcelos) com uma romagem ao cemitério, uma sessão e uma celebração eucarística. Ponto curioso: tanto o Germano como o Padre Américo são de Penafiel e o Padre Abel Varzim é de Barcelos.«A Geografia é mais importante do que a História» – Vitorino Nemésio. Eu também fui da JOC entre 1961 e 1966 em Vila Franca de Xira. A explicação ´simples: não havia JEC e o senhor Vladimiro como seu barulhento triciclo era o nosso chefe todos os Domingos de manhã. Uma vez por ano fazíamos rifas com uma garrafa de vinho do Porto que ficava sempre para o ano seguinte. Nasci em 1951 quando o Germano Silva já tinha 20 anos mas a JOC é um ponto comum nos nossos CV. A JOC foi uma escola de vida para mim e, como comecei a trabalhar logo em 1966 com 15 anos, nunca deixei de me sentir dentro da JOC. O pormenor de ter começado a trabalhar numa sexta-feira (9-9-66) e de ter ido tirar a chapa dos Tuberculosos na segunda-feira são pormenores inesquecíveis como o ordenado de 900$00 e os 12 dias de férias no primeiro ano. Sem esquecer as quotas do Sindicato que paguei de 1966 a 1969 mas só nesse ano me tornei sócio; pertenci à classe de contínuos embora já tivesse o Curso Geral do Comércio mas não tinha idade. Está tudo no coro do Hino da JOC (vénia devida aos Jocistas da Nazaré): «De fronte erguida e dando as mãos /Alegres, juntos como irmãos /Jocista em paz com Deus, Jocista em paz / Avante, alegre, audaz». --

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por José do Carmo Francisco às 13:03

Sexta-feira, 06.01.17

a mulher-menina entre a espuma do ocreza e a calma do estuário

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Foi no teu olhar que descobri. De noite os rios não existem, são água, apenas água entre o peso da espuma e a força das pedras antigas a segurarem a terra fértil das margens. Lá para trás, entre a serra e a charneca, no meio dos pinheiros, das oliveiras e dos eucaliptos, correm as ribeiras ainda sem nome, os pequenos cursos de água, discretos e imparáveis que levam o seu saldo líquido ao Ocreza. Foi no teu olhar que descobri. O sossego do estuário tem afinal origem na agitada espuma das ribeiras primitivas. Tal como a tua voz que flutua entre o sussurro do registo quase infantil e o timbre mais áspero e adulto do desagrado tão quotidiano. Há assim como que um filtro gigante a graduar as horas do teu dia entre o alvoroço da manhã e o cansaço do fim da tarde, no atravessar do estuário do Tejo quando a noite se anuncia nos primeiros anúncios de néon.
Foi no teu ilhar que descobri. A tua voz instala o campo na cidade, transporta o som e o timbre da varanda das três meninas, com a serra no fundo e a charneca em frente. O que eu estou a a ouvir no som pleno da tua voz aqui na cidade não é um novo pregão (de figos, de fava-rica, de morangos de Sintra) mas sim o original de um chamamento a uma senhora que vende para fora o bolo chamado finto e pão a que chamam alvo na rua em frente à varanda das meninas onde o sol fica mais tempo. Foi no teu olhar que descobri. As manhãs de alegria dão origem a tardes de angústia, a luz dá lugar às sombras, o clarão da vida ao rigor da morte. E ao silêncio. Nos dias de nevoeiro então mais se nota a força do teu ânimo contra essa parede invisível que separa a tua alegria poderosa do cinzento cabisbaixo da cidade. (A foto é de José Cruz) --

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por José do Carmo Francisco às 15:09

Quinta-feira, 05.01.17

dissertação para um quadro de cesare novi

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Há uma nova paisagem e um novo povoamento neste quadro novo de Cesare Novi. São quatro edifícios onde a vida se pressente e um fundo de nove árvores de várias cores, três homens frente a um lago italiano mas o nome do hotel é francês: Hotel du Lac. O hotel tem as suas rotinas, os seus hábitos e as suas convenções, há empregados e hóspedes, um director, um recepcionista e o rapaz das malas. No hotel pode-se descansar ou viver um romance ou escrever um romance ou, então, apenas mas não só, ler devagar um romance. Há uma harmonia neste quadro, nesta luz que se envolve com o tempo próprio de alguém ser feliz, um rumor que sobe do azul da água até ao azul dos telhados, sobe devagar como se as cores do quadro fossem soletradas em lentidão tal e qual as sílabas de uma frase. O vasto Mundo com os seus crimes e as suas guerras, os seus tumultos e as suas comoções civis, está separado deste recanto do espaço europeu. Aqui só a vida conta, a alegria das manhãs, a rotina feliz das refeições, as palavras cordiais que surgem na felicidade quotidiana dos hóspedes deste hotel em frente ao lago. A morte está longe, a vida está perto, a única adversidade é a veloz passagem do tempo. Os relógios cantam as horas do dia, essa sucessão serena de minutos cheios, diferentes e sempre novos. Tudo neste quadro afasta e repudia o vazio, tudo se harmoniza e se deixa envolver pela serenidade. A terra e a água juntam-se ao fogo e ao ar para serem, no quadro de Cesare Novi, os quatro elementos do Mundo que nasce todos os dias à procura da felicidade, ou (em alternativa) a alguns momentos felizes no quotidiano do lago, do hotel, dos homens e mulheres, das casas e das árvores que o povoam. --

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por José do Carmo Francisco às 08:17

Segunda-feira, 02.01.17

«o homem com gente atrás» - tributo a germano silva

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Germano Silva nasceu em 1931 e não foi por acaso: para mim ele é o continuador de Raul Germano Brandão (1867-1930) como grande escritor do Porto. Os seus textos, as suas memórias e as suas viagens estão ao lado de outros autores (clássicos) como Rebordão Navarro, Arnaldo Saraiva, Daniel Filipe, Luís Veiga Leitão e Amadeu Baptista. Este livro de homenagem tem 132 páginas e inclui 30 textos de jornalistas (2 poemas e 28 crónicas): Alexandre Teixeira Mendes, Alfredo Mendes, Alice Rios, António Freitas de Sousa, Augusto Baptista, Carlos Ferreira, Carlos Rico, Cesaltina Pinto, César Príncipe, Costa Carvalho, Dora Mota, Francisco Duarte Mangas, Jaime Froufe Andrade, Joaquim Queirós, Jorge Fiel, José Carlos de Vasconcelos, José Viale Moutinho, J. Paulo Coutinho, Júlio Roldão, Lucília Monteiro, Luís Bizarro Borges, Luís Humberto Marcos, Manuel António Pina, Manuel Dias, Manuel Jorge Marmelo, Manuel Pinto, Manuel Vitorino, Marcos Cruz, Miguel Carvalho e Pedro Olavo Simões. O título do livro é retirado da crónica de Augusto Baptista, páginas 27 e 28. As coisas são o que são e neste livro poderiam ter participado outros autores como por exemplo Ferreira Fernandes, Vergílio Alberto Vieira, Altino do Tojal ou Luís Alberto Ferreira. É tudo uma questão de circunstância e nada do que é humano é perfeito. Neste caso o difícil é escolher um depoimento porque todos são magníficos mas numa pequena nota de leitura resolvo apanhar um «caldinho» (com se dizia no jornalismo antigo) do texto da Dora Mota que define Germano Silva como «falso idoso», sintetiza o paradoxo do jornalismo («adoramos o nosso ofício tantas vezes nos fartando dele»)e avança para uma explicação das coisas nas palavras do próprio Germano: «O segredo é fazer disto um modo de vida e não um modo de morte». Este Germano para mim é um «homem para todas as estações» porque escreveu à mão, à máquina e no teclado do computador usando o telefone, o telex, o fax e o Email, este Germano é a soma da ternura, da admiração e do respeito que todos nós nos jornais temos por ele. Há que não ter medo do plural em certas ocasiões: não é todos os dias que se escreve sobre um grande Jornalista e grande Escritor que também é um Homem Honoris Causa. (Editora: Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Foto: J. Paulo Coutinho, Coordenação gráfica: Augusto Baptista) --

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por José do Carmo Francisco às 18:10


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