Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Transporte Sentimental


Domingo, 19.02.17

a casa da rainha em greenwich - dissertação para thomas francisco sutherland

FullSizeRender.jpg


Há um traço belo, rigoroso e firme neste desenho de Thomas Francisco Sutherland - a Casa da Rainha em Greenwich. O seu autor é um menino de dez anos cujos pais e avós lhe podem ter transmitido a beleza, o rigor e a firmeza do seu próprio traço. A mansão da Rainha em Greenwich surge com catorze janelas gigantes, um lance duplo de escadas em redondo e umas águas furtadas no segundo andar ao ado da clarabóia. O menino não é um aguarelista profissional como a avó Joan em York nem amadora como a avó Maria em Lisboa, muito menos terá aprendido a gramática de formas na Universidade como o pai Ian e a mãe Ana, ambos arquitectos diplomados. Todos os dias este menino passa junto à residência que foi de John Stuart Mill (1808-1878) e, mais à frente, junto à casa onde viveu Charles Gounod (1818-1893). É possível que a filosofia de um e a música de outro se envolvam no olhar deste menino. Porque se trata de um olhar, disso não restam dúvidas. É o olhar que apreende a paisagem e o povoamento mesmo quando não figura no esboço nenhum transeunte. O Tamisa passa perto desta Casa da Rainha com os seus barcos velozes a caminho de London Bridge. Restam memórias de navios regressados da Índia com cargas de chá que já ninguém esperava. Não havia telefones nem telemóveis nem Emails e os mercadores só podiam sorrir e festejar quando os navios surgiam um a um a caminho das docas da cidade de Londres. Greenwich era o lugar da angústia da espera quase sempre muito perto do júbilo da chegada. Em Morden Road um Colégio testemunha esse intervalo entre a amargura e a festa. No seu desenho de menino, Thomas regista o espírito do lugar. As casas, tal como as pessoas, transportam em si uma memória porque o passado não acabou e continua todos os dias no olhar de todos nós. --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 17:25

Domingo, 19.02.17

o visconde de alvalade nasceu em santarém

Visconde Alvalade.jpeg


Alfredo Augusto das Neves Holtreman nasceu em Santarém em 1837, filho de António Maria Ribeiro da Costa Holtreman e de Libânia Augusta das Neves Holtreman. Veio a morrer em Lisboa (1920) não resistindo ao desgosto da morte prematura de seu neto José Alvalade em 1918. Foi proprietário de casas e terras na Quinta das Mouras (ao Campo Grande) onde nasceu o Sporting Clube de Portugal em 1906, depois das tentativas de 1902 (Belas) e de 1904 (Campo Grande). Seu neto José Alfredo Holtreman Roquete (1885-1918) mais conhecido como «José Alvalade» foi um dos fundadores do SCP, tendo ajudado a construir um excelente parque desportivo que ficou pronto em 1914. O Estádio José Alvalade, inaugurado em 10-6-1956 deve o seu nome a este ilustre sportinguista. Virá a propósito lembrar uma célebre fotografia tirada no Funchal em 1928 com Cipriano dos Santos, Jorge Vieira e António Penafiel. O primeiro era o guarda-redes que foi marinheiro no Arsenal do Alfeite; o segundo, defesa esquerdo, foi operário nas oficinas da Imprensa Nacional e o terceiro, defesa direito, foi o 4º Marquês de Penafiel. Os companheiros de equipa só souberam do seu estatuto social quando a notícia necrológica apareceu nos jornais. Tão discreta foi a sua passagem pelo mundo que hoje, procurando nas Enciclopédias do Sporting Clube de Portugal, nada se encontra a seu respeito. Lê-se no livro «Nobreza de Portugal e do Brasil» que seu nome completo era António Manuel Maria Mártens Ferrão Gomes da Mata de Sousa Coutinho e terá casado em 1924 com D. Maria José da Câmara. Foi funcionário bancário, alferes miliciano de Cavalaria e distinto desportista. A sua fotografia ao lado de Cipriano dos Santos e de Jorge Vieira diz muito sobre a génese do Sporting Clube de Portugal: entre a nobreza de carácter e a nobreza de estatuto. --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 11:18

Sábado, 18.02.17

levi condinho «fascindado pela música desde a mais tenra infância»

Lenita Gentil.jpeg


Nascido no Bárrio, concelho de Alcobaça, perto da Nazaré e do Valado de Frades, onde acontece um importante festival de Jazz, Levi Condinho não tinha na sua terra natal as estradas alcatroadas, apenas terra esburacada, nem havia água canalizada muito menos esgotos. Até 1954 não havia electricidade, logo não havia rádio. Fascinado pela música desde a mais tenra idade, Levi Condinho apenas ouvia o banjo do pai que também dirigia o pequeno coro da igreja, algum tocador de gaita-de-beiços, mais raramente um acordeonista, as bandas filarmónicas – com relevo para a da Vestiaria – que iam tocar à aldeia. Motivo maior de júbilo pra o seu pequeno coração. Afirma: «Jazz era então, para as rudes pessoas do campo, qualquer pequena formação que tocasse música própria para dançar nas eiras, em cercas com paliçadas ou em palheiros. Lembro-me do Jazz «Os Pinantes» da Marinha Grande onde havia um violino ou do duo de acordeão e bateria jazz «Os Sequeira» de Turquel. Em Outubro de 1951 ingressei no Seminário de Santarém, transitando em 1955 para Almada, de onde me libertei em direcção ao «mundo» - palavra tão sedutotra – em Janeiro de 1956. Logo nesse ano, na Feira de São Bernardo em Alcobaça e através dos altifalantes do Circo Mariano, ouvi um trecho swingante.O Virgílio Varela disse: «Então isso é o American Patrol, do Glenn Miller, é swing, é Jazz…». A partir daí fui â procura de programas dedicados à essa tão diferente música raramente ouvida na rádio, alvo de suspeitas pela ideologia dominante – do poder e das massas ignorantes, tendencialmente racistas…» Ficamos por aqui no testemunho de Levi Condinho mas continua a dúvida: será que a Lenita Gentil fazia parte do grupo musical da Marinha Grande? --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 15:52

Sexta-feira, 17.02.17

liberto cruz - «reis, rainhas, príncipes, princesas e outros que tais...»

xE3o Descobrimentos.jpeg


Sobre a intervenção do pintor António Viana (n.1947) no Padrão dos Descobrimentos em Lisboa, aqui fica o texto do poeta Liberto Cruz (n.1935) para todos: «Há muitos, muitos anos, que vamos buscar ao mar sardinha, porque pescar é preciso. António Viana sabendo que navegar foi preciso, decidiu, através de um painel, com a sua alácre, astuciosa, divertida e inventiva intervenção, derramar luz sobre trinta metros da frente do Padrão dos Descobrimentos. Uma luz que evoca reis e rainhas, navegadores e nobres, plebeus e outros porque, como é sabido, para fazer um mundo de tudo é necessário um pouco. Dar mundos ao mundo fazia parte do caderno de encargos que o Padrão dos Descobrimentos relembra através das figuras e dos figurões ali representados, Desses motivos se serviu António Viana, com engenho e arte, qualidades correntes tanto na sua produção de pintor como nas suas instalações, para criar um tempo e um espaço onde a presença da ciência, da aventura, da coragem, do medo, da plihéria, do desânimo e da ousadia se entrelaçavam para tentar conseguir o pretendido. Mas, como é óbvio e voltando a que de tudo o mundo um pouco necessita, António Viana não podia deixar de recorrer a elementos de vária ordem em que seres humanos, animais, vegetais, aves, maquinetas, carantonhas, insígnias, utensílios e objectos não recomendados ou não identificáveis se misturam, melhor, se engalfinham, para constituírem um original e prazenteiro repositório no qual o humor e a sageza se coadunam habilmente com a seriedade e a postura dos fazedores da história dos descobrimentos portugueses. Olhar o Tejo, depois de ter contemplado esta mediação do pintor António Viana, é um bem que vale a pena usufruir.» --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 14:21

Quinta-feira, 16.02.17

marcolino candeias - peço desculpa pelos erros, lapsos e omissões

Marcolino Candeias.jpeg


O texto de vinte linhas sobre a poesia de Marcolino Candeias e a sessão de homenagem na Casa dos Açores contém alguns erros, lapsos e omissões. Peço desculpa a todos. Em primeiro lugar as datas de Marcolino Candeias são bem 1952-2016 e não 1952-1016. O nome do poeta que falou antes de Olegário Paz é bem Artur Goulart e não como escrevi por lapso Osório Goulart. O nome da senhora americana é bem Kathie Baker. Usou da palavra Januário Pacheco e eu não o referi por omissão. As coisas são como são e eu não tenho nenhuma equipa a trabalhar comigo. Sou um obscuro agente cultural «unipessoal» e escrevo nos jornais desde 1978. Mais uma vez peço desculpa a todos. --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 19:20

Quinta-feira, 16.02.17

marcolino candeias «o mar também é terra onde morar»

Marcolino Candeias.jpeg


Segundo as palavras de Emanuel Félix (1936-2004) o poeta Marcolino Candeias (1952-1016) é «sem dúvida um dos maiores poetas do arquipélago» Nascido na freguesia de Cinco Ribeiras, concelho de Angra do Heroísmo, Marcolino Candeias é autor de dois livros de poemas: «Por ter escrito amor» (1971) e «Na distância deste tempo» (1984). Deste título existe uma segunda edição revista com data de Outubro de 2002 dedicada a Deka (viúva), a Maithé e Rodrigo (filhos) e a Manuel e Clementina (pais). A Casa dos Açores de Lisboa organizou no passado dia 10-2-2017 uma homenagem ao poeta com leitura (magnífica!) de poemas por Luiza Costa e testemunhos próprios com leitura de textos de outros autores por Onésimo Teotónio Almeida. Participaram também Olegário Paz, Osório Goulart e a tradutora americana do livro «Já não gosto de chocolates» de Álamo Oliveira, cujo nome não fixei. Peço desculpa. A poesia de Marcolino Candeias, originária da Geração Glacial (jornal A UNIÂO) oscila entre o apelo da dimensão erudita («Ah todos os meus amigos sem falhar nenhum/ intelectuais semi para-intelectuais e sindicalistas / quantos quintais do verbo imolámos ao porvir») e os poetas populares como João Vital («Pesa-me que terminem assim nossas conversas no Aliança») ou Chico Veríssimo: «Não quero crer que te tenhas ido embora / sem me visitares com atua última ponderada filosofia / sem me entoares a derradeira quadra de desafio decorada / sem me declamares a última décima antiga…» Mas a paisagem da poesia de Marcolino Candeias é a cidade de Angra do Heroísmo: «Oh Angra minha e amada verdadeiramente / chamada do Heroísmo /cidade de nevoeiro encantado / crescendo no silêncio de tantas mágoas.» Nota final – a foto é um excelente trabalho de Mestre Carlos Vilas. --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 09:15

Terça-feira, 14.02.17

dissertação breve para uma foto de josé alex gandum

Jose Alex Gandum.JPG


A foto integra a grande exposição patente no Bar «Velha Gaiteira» entre as 12h30m e as 2 horas da manhã na Rua das Pedras Negras nº 17 (ali à Sé de Lisboa) telefone 218865046. Embora não explícito, o eléctrico parece ser o «28», o mais célebre de todos os eléctricos do Mundo por dois motivos – os bons e os maus. Os bons são a sua popularidade que já vem de longe: quando comecei a trabalhar há cinquenta anos, o «28» era usado pelos empregados do Banco Português do Atlântico da Graça que vinham trazer à Baixa (Rua do Ouro nº 110) os assuntos mais urgentes daquela dependência, os que não podiam esperar pelos estafetas. Nessa altura (1966) não se chamava passe mas sim assinatura. Quem usava o mesmo documento era um empregado da Casa José Alexandre ali na Rua Garret ao Chiado. Os maus motivos são os carteiristas profissionais, portugueses e estrangeiros, que actuam em grupo para desespero dos turistas e nojo dos portugueses. Durante muito tempo fui obrigado a utilizar o dito «28» para ir à «Voz do Operário» buscar o meu neto Pedro e algumas vezes me senti mal na plataforma do eléctrico mas tudo isso acabou e ainda bem. Voltando ao tema: tudo isto na fotografia me parece belo como um pregão de Lisboa, daqueles pregões antigos («fava rica!», «morangos de Sintra!», «figuinhos de capa rôta!») que os supermercados e a velocidade da vida actual já não permitem. Hoje não há vagar para a senhora descer do terceiro ou do quarto andar do prédio e escolher peixe («ó viva da Costa!») na canastra da varina. Já não há senhoras nem varinas, a vida mudou e está sempre a mudar. Só não mudam os eléctricos de José Alex Gandum, cheios como latas de sardinha de gente que tem pressa de viver para chegar a toda a alegria, a todos os encontros e a todo o Mundo. --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 10:51

Segunda-feira, 13.02.17

«desde o paço ao são joão / com sua torre e pombal»

Menino 1951.jpeg


O menino que era eu em 1951 não pensava em viajar. Sãos coisas (a outra é a morte) das quais uma criança não elabora conceitos. Para a criança não há morte nem distância, só começa a perceber a morte quando lhe morrem os avós e percebe tudo quando lhe morre a mãe. A morte de quem lhe deu a vida é o momento-chave de um qualquer percurso. Pois o menino que eu era em 1951 nunca pensou viajar tanto: Brasil, Espanha, Itália, Açores, Madeira, França, Bélgica, Holanda, Escócia, Inglaterra. Umas em Turismo, outras como enviado-especial do Jornal «Sporting» entre 1988 e 2006. Também no território do Continente foram muitas as viagens de trabalho: Porto, Faro, Braga, Coimbra, Beja, Setúbal, Lourinhã, enfim… Mesmo a chamada «vida militar» envolveu algumas viagens entre recruta e especialidade: Caldas da Rainha, Lumiar, Évora, Pontinha. O meu destino nesse tempo era ser navalheiro e talvez por isso ando sempre com uma navalha comigo. Mais tarde no Montijo houve quem dissesse que o meu destino era ser fragateiro porque até 1966 o comércio para Lisboa era feito pelas fragatas pois não havia ponte. A única ponte era a de Vila Franca de Xira e eu via passar na Rua Sacadura Cabral as camionetas de carga a caminho de Alcochete, Porto Alto e Vila Franca. Foi no Montijo que ouvi, dita por uma senhora toda fina, uma frase terrível «Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu!» E eu que era filho de um motorista não fui para o Liceu de Setúbal. Fui para uma Escola Técnica em Vila Franca de Xira onde vivi de 1961 a 1966. Sempre o Tejo na minha vida. Vim para Lisboa trabalhar com 15 anos e estive em Santarém de 1997 a 2001 no jornal O MIRANTE. Hoje estou mais na viagem da ternura: pai, irmãs, esposa, filhos, netos, sobrinhos-netos, cunhados, genros, nora, amigos. São estas as viagens de agora. --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 08:32

Domingo, 12.02.17

carlos garcia de castro sobre cesário verde - poema em forma de crónica

Raul Ladeira.jpeg


Nota de abertura – a foto é de Raul Ladeira. No seu livro «Crónica da fortuna» António Osório recorda que «Poesia e prosa estão juntas no mesmo jacto, na mesma destreza, na mesma ironia e na mesma verve. Camilo, nas cartas mais torturadas, escreveu também poesia. Alguns contos de Torga pertencem à sua poesia mais genuína. As narrativas de Borges têm densidade igual à dos poemas e o mesmo se diga das crónicas de Bandeira, de Cecília e Drummond em relação à poesia deles. O poeta Octávio Paz é também um dos maiores ensaístas do nosso tempo. Poesia e prosa vivem paredes meias, quando não coabitam na mesma pessoa como sucede com Régio e Nemésio, Sophia e Eugénio de Andrade.» vamos então ao poema em crónica de Carlos Garcia de Castro (1934-2016), poeta de Portalegre: «A Cesário Verde Tenho uma loja de vender ferragens, a minha terra já não é Lisboa. Mas hoje nem sequer me arrependi. Ser-se moderno confunde, ninguém se vai proclamar… - À fava a dispersão das almas proporcional de haver contratos maiores e os menores, assegurados. Não procurei, nem li, nem disfarcei – sou vendedor de ferragens. Dou muito pouco de pensar angústias, para consultar depressões. Estarei ausente nos congressos ávidos onde há, benignas, as inócuas actas. Os meus negócios são outros. Mais fácil será, comigo, fingir qualquer literatura do que afagar as crianças dum velho amigo meu que é professor. É imoral fazer pornografia, quer solitário, quer acompanhado. Que eu nunca me esforcei por ser escritor. Não vim para a rua com panfletos rútilos, as grandes hecatombes da palavra de bem servir a condição mental. – Em cada coisa a coisa enquanto seja de haver em cada coisa a natureza. A todos vos olhei do mau olhado, escandalizei por serem meus amigos (ainda que um poeta aqui de perto!) eternos num café a conversar…desconfiado de cigarro à boa, com vinho e licores, acrobacia entre o dever, competências e o ser, de anonimato, um cidadão. Só hoje, de exercitado, com gerações esforçadas de ironias, pernas abertas, assentes os pêlos aqui do peito vorazes a descoberto - hoje! minha alma se borrifa em vocês todos. De manhã lavei-me com sabão azul, mas já não fui convosco pra correr no campo. Deu-me vontade de cantar sozinho, como só calçando tennis sou capaz, concretamente sozinho, comigo e tudo à volta como as árvores. O footing é sempre ingénuo e parvo, se vierdes, companheiros. Porque amanhã terei de novo a minha opinião e mais mulheres para beijar nevrótico; serei pálido. Terei convosco as mesmas criancinhas e os velhinhos, palmadinhas – Borotalco. Direi a toda a gente, concentrado – Boa tarde!... e vou tomar a Bica no emprego, maledicente, fresco, barbeado, solene e ao mesmo tempo saltitante como um cristão aos domingos. Assim já todos somos bem-avindos. Ser-se moderno confunde, ninguém se vai proclamar… Agora – não! Deixei-me de prever civilizações, sou novamente burguês. Apenas que a ser poeta, não sei o que hei-de ser nem que dizer. Provavelmente convicto – como vocês.» datas do texto 1987 (1955) --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 12:17

Sábado, 11.02.17

cascais - do verdeiro ao falso, do legítimo à imitação

Image.jpg


«Oh minha senhora, em Cascais não há primas, são todas tias!» - A frase dirigida a Mafalda Ferro na apresentação de Maria João Bastos que ia cantar um fado no lançamento de um livro num dia de São Martinho, dita por um homem já bem «aviado» de castanhas e água-pé, é identificadora de uma ideia feita sobre uma paisagem e um povoamento. A escolha de Rita Ferro para este texto não é ingénua. Com ela quero significar um conhecimento e uma aceitação. Conheço Rita Ferro há muito tempo, fui visita de suas casas em Rio Maior: Vale de Óbidos e São João da Ribeira. Nasci em 1951 e comecei a trabalhar em 1966. As condições eram estas: ganhava 900 escudos por mês e descontava para o Sindicato 9 escudos mas não podia ser sócio, coisa que só seria possível aos 18 anos. No primeiro ano de trabalho só tive 12 dias de férias e descontava para o Fundo de Desemprego mas se ficasse desempregado não ia lá buscar nada. Apesar disso tudo eu sou amigo e respeito as pessoas de Cascais como a Rita Ferro. Mas não faço confusão entre verdadeiras e falsas, entre legítimas e de imitação. Outro dia na Estrela encontrei um pobre diabo que trata a neta por você e fala à maneira de Cascais mas nasceu num lugar perdido na Beira Alta, entre cabras, pedras e pinheiros. As pessoas de Cascais, as verdadeiras e legítimas dizem caminete por autocarro, remédio por medicamento, redondel por rotunda e enterro por funeral. Os outros, os falsos e imitadores, apenas copiam e mal. Cascais é Ruben A., Fernando Pessoa, Júlio Conrado, Fernando Grade, Rita Ferro, os romances, as crónicas, os poemas, a literatura. Tudo isto vem a propósito de um patrão que quer mais liberdade para despedir os seus brasileiros, indianos, nepaleses e filipinos. Esse apareceu na Internet mas outro que vai pelo mesmo caminho não teve direito a holofotes embora o erro seja o mesmo: há sempre advogados disponíveis para chafurdar no limite entre o Direito e a Justiça. Lembrei-me de 1966 mas estamos em 2017 e ninguém aprendeu nada. Tenho um amigo que chama a essa gente os bimbos de Cascais. Mas Cascais não merece ser associada à pocilga onde se movimentam. Cascais é outra coisa, está acima desse lamaçal. --

Autoria e outros dados (tags, etc)

por José do Carmo Francisco às 14:23


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Fevereiro 2017

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728





Visitas